Bons resultados conseguidos em Ervideiros estão em perigo

Novas Sendas termina em Dezembro. É necessário dar continuidade ao projecto que tem contribuído para melhorar condições de vida da população de Ervideiros, que inclui uma grande comunidade cigana

O projecto Novas Sendas chega ao fim no dia 31 de Dezembro e, se não tiver continuidade, corre o risco de ver os seus bons resultados irem por água abaixo. A situação preocupa José Alves, director da Cáritas Diocesana de Aveiro, e Dora Graça, coordenadora do projecto.

“O projecto chega ao fim, como estava previsto. A nossa angústia está em que, a partir de Janeiro, a população fica a descoberto. Pode vir a perder por falta de continuidade”, afirma José Alves. “Como vai ser a seguir? Se não tivermos apoios, temos de pensar uma forma de continuar no terreno. Estamos a debater com os vários parceiros as disponibilidades de cada um. Se não estivermos lá todos os dias, com toda a gente, temos de estar com menos, alguns dias por semana. Há prioridades, e as nossas estão do lado das crianças”, afirma.

A ausência de um projecto que dê continuidade ao Novas Sendas, o qual tem ocupado a tempo inteiro cinco pessoas, prende-se com a indefinição das linhas orientadoras do QREN (Quadro de Referência Estratégia Nacional). Os projectos anteriores foram financiados pelos Quadros Comunitários de Apoio. Quanto ao sucessor QREN, sabe-se que aposta na formação e tem um âmbito territorial mais alargado. Mas ainda não se conhecem as linhas orientadoras para as candidaturas e teme-se que haja um hiato dema-siado grande entre o actual projecto da Cáritas e outro que venha a seguir, se for possível.

Os resultados obtidos nos cinco anos de Senda Gitana e Novas Sendas são “muito positivos”. José Alves destaca as áreas da saúde e da educação: “Diminuiu a abstenção e o abandono escolar. Na saúde, as pessoas despertaram para a necessidade de vacinas, higiene oral, acompanhamento das mães grávidas e das crianças recém-nascidas”. Alguns números e factos são elucidativos. “Havia crianças que nem sequer estavam registadas civilmente”, refere José Alves. Pela primeira vez na comunidade cigana, há crianças no 2º ciclo, e há adultos que regressaram ao sistema de ensino, encontrando-se alguns, agora, no 3º ciclo.

A socióloga Dora Graça acrescenta o trabalho desenvolvido pelas “acções de pré-formação de adultos”, ou seja, a “sensibilização e preparação de competências pessoais, sociais e profissionais básicas”. Estas acções ensinaram modos de estar aparentemente simples, como cumprir normas e horários, assumir regras de comportamento ou procurar emprego. Numa comunidade marcada pela exclusão, tais aquisições são um passo importante para modificar a situação. A coordenadora do projecto refere ainda como iniciativa de grande sucesso os cursos de carpintaria, electricidade e canalização. “Os formandos foram muito assíduos e interessados”, diz. Na área da saúde, acrescenta que “há mais pessoas inscritas no médico de família e a fazer planeamento familiar”.

Apesar dos bons resultados, “trata-se de conquistas a consolidar com a mudança de mentalidades”. “Saindo dali, tudo pode desaparecer”, diz Dora Graça.

Resultado positivo que ambos referem é a relação destas comu-nidades marcadas pela exclusão com a cidade de Aveiro em geral. Há uma aproximação nos dois sentidos. Quem vive em Ervideiros sabe que tem direitos e deveres e a própria cidade está mais desperta para uma das comunidades do seu concelho. José Alves refere como exemplo desta aproximação um recente encontro dos idosos do Lar de Santo André (Mataduços, Esgueira) com crianças de Ervideiros: “Atendendo ao histórico, fiquei muito satisfeito com o convívio, aceitação e carinho que pude observar”.

Sendas e Novas Sendas

* O projecto Senda Gitana decorreu na comunidade cigana de Ervideiros (Quinta do Simão, Esgueira), em 2003 e 2004.

* Seguiu-se, em 2005-2007, o projecto Novas Sendas, alargado à população local não cigana, mas com problemas de integração social.

* Participaram nestes projectos liderados pela Cáritas Diocesana, com os objectivos de “promover uma efectiva integração social” e “fomentar a cidadania participativa”, a Câmara Municipal de Aveiro, o Centro de Emprego, o Centro de Saúde, a Segurança Social, O Centro Universitário Fé e Cultura, a Coordenação Concelhia do Ensino recorrente, o Instituto de Reinserção Social, as Florinhas do Vouga, as juntas de freguesia de Esgueira e Cacia, o Agrupamento de Escolas de Aveiro e a Pastoral Diocesana dos Ciganos.

Voluntários precisam-se

A Cáritas precisa de dois voluntários, de preferência ligados à Educação, para colaborar no projecto Novas Sendas no período de 12 a 26 de Setembro. Quem estiver interessado pode contactar este organismo diocesano pelo telefone 234 377 260 (falar com Dora Graça).