Proximidade, simplicidade e interesse pela vida da Igreja são marcas apontadas por quem já esteve com Bento XVI
Bento XVI recebeu, no dia 3 de Novembro, no Vaticano, o primeiro grupo de Bispos de Portugal, em visita Ad Limina, que se prolonga até ao próximo dia 12. O Papa acolheu os bispos das dioceses de Aveiro, Braga, Bragança-Miranda e Coimbra.
O Arcebispo de Braga e presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), D. Jorge Ortiga, em declaração à agência Ecclesia, afirmou que o Papa se manifestou “possuidor de uma grande proximidade”, assegurando que o encontro se desenrolou num clima de “profunda amizade e interesse pela vida da Igreja”, no caso concreto em Braga.
“Deixou-nos o seu entusiasmo e uma palavra de estímulo, para que continuemos na evangelização, uma palavra de ordem, a partir da família e da juventude”, indicou.
Para este responsável, o mais importante é “o modo de acolher” de Bento XVI, “com muita simplicidade, querendo conhecer, e com muita solicitude”.
Também D. Albino Cleto, Bispo de Coimbra, destaca o interesse particular que o Papa manifesta pela vida das dioceses. “Foi muito amável, muito interessado em saber da Universidade de Coimbra”, relata.
“A nossa conversa passou pelas vocações, o seminário, a preparação dos leigos e versou, acima de tudo, sobre a pastoral juvenil e universitária”, refere o Bispo de Coimbra.
“O Santo Padre quis saber como é que a nossa pastoral estaria a preparar os futuros responsáveis para um país europeu cristão. Eu falei da necessidade de uma ética deontológica cristã e ele interessou-se por isso”, conclui.
Na primeira manhã passaram pelo Vaticano D. António Francisco dos Santos, Bispo de Aveiro, e D. António Marcelino, Bispo emérito; D. Jorge Ortiga, Arcebispo de Braga, os auxiliares D. Antonino Dias e D. António Couto e o Arcebispo emérito Eurico Dias Nogueira; D. António Montes Moreira, Bispo de Bragança-Miranda e D. António José Rafael, emérito desta diocese; D. Albino Cleto, Bispo de Coimbra.
Os encontros prosseguem ao longo dos próximos dias, com destaque para sábado, 10 de Novembro, quando terá lugar a reunião de todos os Bispos com o Papa. O presidente da CEP pronunciará um discurso e, em seguida, Bento XVI apresentará uma mensagem programática para a Igreja em Portugal.
O que é a visita Ad limina?
A expressão “Ad sacra limina apostolorum”, ou simplesmente “Ad limina”, foi utilizada frequentemente pelos cronistas medievais ao referirem o exercício piedoso dos fiéis de empreenderem viagem até Roma, em espírito de peregrinação, para visitar os túmulos dos Apóstolos S. Pedro e S. Paulo.
Sisto V (1585-1590) faz da visita Ad limina um acto obrigatório para todos os bispos.
O actual Código de Direito Canónico afirma que o Bispo diocesano deve ir a Roma e “apre-sentar, de cinco em cinco anos, um relatório ao Sumo Pontífice sobre o estado da Diocese que lhe está confiada” (cânones 399 e 400).
Bispos vão a «exame»
Os Bispos são recebidos pelo Papa, em pequenos grupos. No primeiro dia, foram recebidos os Bispos de Aveiro, Braga, Bragança-Miranda e Coimbra.
No domingo, 4, não houve visitas, mas antes um momento cultural e eucaristia no Mosteiro de São Bento.
No dia 5, foram recebidos os Bispos de Lamego, Porto e Viana do Castelo, ao mesmo tempo que os prelados portugueses começaram a visitar os vários dicastérios da Cúria Romana. Estas visitas prolongam-se pelos dias seguintes.
A 6 de Novembro aconteceu a assembleia plenária de Outono da CEP, excepcionalmente convocada para Roma, por causa desta visita.
Hoje, os Bispos deslocam-se à Congregação para as Causas dos Santos, presidida pelo Cardeal José Saraiva Martins, e marcam presença na audiência geral concedida por Bento XVI.
No 8 de Novembro, é a vez dos Bispos de Viseu, Évora, Beja e Algarve se encontrarem com o Papa. No dia seguinte, são recebidos os Bispos de Angra, Funchal, Guarda e Lisboa.
Ao meio-dia de Sábado, 10 de Novembro, tem lugar o encontro conjunto de todos os bispos com Bento XVI. Antes, o Papa terá recebido os prelados de Leiria-Fátima, Santarém e Portalegre-Castelo Branco.
A visita conclui-se no dia 12, quando o Papa receber os Bispos de Setúbal e do Ordinariato Castrense.
Alguns números e assuntos que Bento XVI deverá ouvir
Dos 49 Bispos em Portugal (21 residenciais, 8 auxiliares e 20 eméritos), marcarão presença no Vaticano 37, sendo de notar a ausência do Bispo de Vila Real, por complicações no seu estado de saúde. Desde 1999, data da última visita Ad limina, muita coisa mudou na vida das 21 dioceses do país, na Igreja e no mundo. Aqui ficam alguns números.
* De 2000 a Dezembro de 2005, o número de sacerdotes diocesanos baixou de 3159 para 2934 (menos 225), enquanto o clero religioso manteve praticamente o mesmo número. Em 2005, por cada dois padres que morrem, apenas um é ordenado. A isto, somam-se 5 abandonos por ano.
* Os seminaristas de filosofia e teologia também são menos: de 547, entre diocesanos e religiosos, em 2000, passou-se para 475 em 2005.
* Em 2000, foram baptizadas mais de 92 mil crianças com menos de 7 anos. Em 2005, esse número ficou-se pelos 79 236. Comparativamente a 2001 (100 256), a quebra é de mais de 20%, embora estes números tenham de ser moderados pela baixa de natalidade.
* A percentagem de católicos, em Portugal, é agora de 89,9% – 9,35 milhões de católicos, para uma população de 10,4 milhões de pessoas. O Recenseamento da Prática Dominical, datado de 2001, mostrava que o número total de praticantes não chegava, contudo, aos 2 milhões de fiéis.
* No quadro temporal em análise, ganha ainda relevo a assinatura da Concordata entre Portugal e a Santa Sé, no ano de 2004. O documento consagrava o princípio da “cooperação”, mas tem gerado algumas dificuldades por causa dos atrasos na regulamentação de pontos delicados.
* Um capítulo que não deverá faltar nesta visita, apesar de não directamente relacionado com a Igreja, é o do último referendo ao aborto, onde se assistiu a uma mobilização de leigos que só encontra paralelo nos tempos da Acção Católica. A liberalização do aborto levou a CEP a falar numa “mutação cultural”, expressão que, em larga medida, resumirá perante o Papa o essencial da vida da Igreja e da sociedade do nosso país, nestes últimos anos.
