Manuel Rodrigues Teixeira das Neves (1926-2007)

Na manhã do passado dia 7, no Hospital do Infante D. Pedro, onde dera entrada na véspera e fora assistido de urgência, faleceu o Padre Manuel Rodrigues Teixeira das Neves, que nasceu na freguesia de Fontelo, no concelho de Armamar, em 31 de Agosto de 1926; portanto, contava 81 anos de idade. Depois de fazer os estudos nas casas da Congregação dos Missionários do Espírito Santo, foi ordenado presbítero no dia 28 de Setembro de 1952, em Viana do Castelo, como membro da referida Congregação. No ano seguinte, já estava em Angola, onde dedicou a sua vida no Seminário de Kuíto (então Silva Porto), na Missão de Cachingues, na Missão do Lobito e no Seminário Menor de Quipeio (Huambo).

De 1959 a 1975, em Benguela, foi pároco da freguesia de Nossa Senhora de Fátima, então criada. A respectiva igreja, depois elevada a catedral da recém-criada Diocese, seria construída sob a sua administração directa, com os meios económicos que foi conseguindo. Nesta cidade, também ocupou a cadeira de filosofia no Liceu. Nesta cidade angolana ainda, desempenhou várias actividades em prol da população local. Destacando-se a fundação do grupo de escuteiros do Corpo Nacional de Escutas (Escutismo Católico) e ainda de outro grupo da Associação dos Escuteiros de Portugal.

Regressado de Angola, veio para Aveiro por indicação de pessoas amigas e com a anuência de D. Manuel de Almeida Trindade; alguns meses depois, foi incardinado no nosso Clero diocesano. Uma vez entre nós, colaborou com o pároco da Borralha, de Agadão e de Belazaima do Chão (1975-1977) e foi pároco de Bustos (1977-1984, tendo leccionado no Colégio desta localidade), de Oiã (1984-1985) e de Vagos (1985-1993). Entretanto também exerceu o múnus de arcipreste de Oliveira do Bairro e de Vagos.

Em 1993, passou a fazer parte da equipa sacerdotal da freguesia da Glória (Sé) e a desempenhar o cargo de capelão da igreja da Misericórdia – lugar que ocupou até há pouco tempo. Foi ainda membro da equipa formadora do Seminário de Santa Joana e director do Secretariado Diocesano da Animação Missionária. Em 1996, fixou residência na Praia da Barra, cooperando nas paróquias da Praia da Barra e da Costa Nova do Prado. No ano de 2005, em virtude da saúde frágil, passou a residir no Lar da Santa Casa da Misericórdia de Aveiro (Complexo da Moita).

Este sacerdote, ao longo da sua vida, sempre se dedicou ao cumprimento dos deveres do seu ministério, evangelizando, catequizando, celebrando os sacramentos, presidindo a actos litúrgicos e, em reuniões das comunidades cristãs ou em encontros informais, transmitindo aos outros do seu muito saber e da sua larga experiência.

As exéquias fúnebres realizaram-se na igreja da Misericórdia, como tributo respeitoso a quem foi seu capelão ao longo de catorze anos; foram no dia 8 e tiveram início às 16 horas. Presidiu à Eucaristia D. Abílio Ribas, bispo emérito de São Tomé e Príncipe, que fora seu confrade na vida religiosa. Embora ausente em Roma, D. António Francisco dos Santos, por intermédio do vigário geral da Diocese, expressou os seus sentimentos de pesar e informou que, à mesma hora, unindo-se à mesma intenção, celebraria a Eucaristia na basílica de S. Paulo fora de muros. Concelebraram numerosos sacerdotes, entre os quais diversos da dita Congregação do Espírito Santo e da Diocese de Lamego, não faltando a participação de vários diáconos. Numa homenagem pesarosa e sentida, estiveram o provedor e vários mesários da Santa Casa, registando-se também a presença de familiares e de algumas centenas de pessoas. Os restos mortais do Padre Teixeira das Neves foram sepultados no cemitério central de Aveiro, na campa da Misericórdia.

O capelão da Misericórdia, Padre João Paulo Ramos, celebrou ontem a Eucaristia por alma do sacerdote falecido, na respectiva igreja; por seu turno, D. António Francisco celebra hoje, quarta-feira, às 18 horas, no Lar do Complexo Social da Moita.

O “Correio do Vouga”, que também teve o Padre Teixeira das Neves como seu colaborador assíduo durante muitos meses, apresenta sentidos pêsames aos familiares e ao Presbitério Diocesano.

Missões

Já lá vão cerca de 30 anos! Éramos um pequeno grupo de Missionários de Angola que, terminado o tempo da “Licença Graciosa” – como então se dizia quando em férias na metrópole! – aguardávamos na Procuradoria das Missões em Lisboa o regresso aos nossos “campos de acção”.

Durante um almoço e em ambiente fraterno de partilha de experiências, também um colega que nunca tinha experimentado “a dura vida das Missões”, de máquina fotográfica a tiracolo e de caderno de apontamentos nas mãos, pois escrevia “estórias” das Missões, atirou para o ar a seguinte pergunta: “O que é que vós fazeis por lá?”

Uma pergunta que, mesmo sem malícia, feriu a susceptibilidade dum “Irmão Missionário Auxiliar” com cerca de meia centena de anos de intensa vida missionária em Angola. E foi ele mesmo que lhe deu a simplicíssima resposta: “Olhe, meu caro, nós fazemos a HISTÓRIA lá para vocês a escreverem cá!…”

Pe Teixeira das Neves

Excerto de uma crónica no Correio do Vouga de 16 de Novembro de 1994