Quem fica fora do caminho da globalização é que fica pior

Jornalista, director de informação da Rádio Renascença, Francisco Sarsfield Cabral esteve no Centro Universitário Fé e Cultura para falar de globalização e desenvolvimento humano, na noite de 14 de Novembro. Para o especialista em assuntos económicos, a globalização é inevitável e tem mais aspectos positivos do que negativos. Aqui fica uma síntese das palavras e pensamentos de Francisco Sarsfield Cabral, na edição de Novembro do Fórum::Universal.

Palavra nova, realidade antiga

Globalização é uma palavra nova (os franceses preferem falar em mundialização) para uma realidade que não é assim tão nova. Os portugueses, com os Descobrimentos, de certa forma foram pioneiros. Hoje, o que mais caracteriza a globalização é a tendência para todas as unidades activas – empresas, organizações, grupos de interesse, etc. – desenvolverem estratégias à escala planetária.

Fenómenos

São fenómenos da globalização a possibilidade de ouvir uma rádio em qualquer parte do mundo; a TV em directo de qualquer parte do mundo; a liberalização das trocas de capitais; a transferência de dinheiro para qualquer parte através das novas tecnologias; empresas de pequena dimensão serem multinacionais; as redes internacionais do tráfico de droga; o fecho de uma fábrica num país para a seguir abrir noutro (deslocalizações)…

Falsas cláusulas

A crítica à globalização, por vezes violenta, assemelha-se à crítica à revolução industrial (principalmente no séc. XIX). Os grupos antiglobalização e alterglobalização servem-se de argumentos hipócritas como a cláusula social, que diz que nos países emergentes, principalmente Índia e China, os trabalhadores não têm direitos sociais, ou a cláusula ambiental, que diz que nesses países não há leis de protecção ambiental. Ora, haverá verdadeiramente sindicatos fortes nesses países e protecção ambiental, quando houver uma classe média – e para aí se caminha com a globalização. A Coreia do Sul, que em pouco tempo passou de país muito pobre a país com uma classe média muito forte, é um exemplo. 300 a 400 milhões de pessoas terão saído da pobreza nos últimos anos, na Índia e na China, graças à globalização.

Ficar fora

Quem fica fora do caminho da globalização é que fica pior. Na Ásia, há progressos. Na América Latina, há progressos. Na África, não. “Pior do que ser explorado pelo capitalismo é não ser explorado sequer” – dizia uma economista marxista dos anos 30 do século passado.

Direito Internacional

É preciso evitar a globalização selvagem. Tem de haver equidade. O capital, deslocando-se facilmente, tem sido favorecido em relação ao trabalho, que tem dificuldade em deslocar-se. É necessário um reforço do Direito Internacional, não sendo previsível a criação de um Estado mundial nos próximos séculos.

Fecho ao exterior

O atraso das nações deve-se, em geral, ao fechamento ao exterior. A globalização significa abertura. No entanto, se for levada ao extremo, pode levar a que uma cultura seja esmagada pela outra.

Salários em baixa

A perda de direitos é um facto, em parte devido à concorrência dos países mais pobres. O empresário sem escrúpulos pode procurar trabalho sem direitos. O salário do trabalhador médio norte-americano não tem subido, mas o mesmo não se passa com o salário das profissões ligadas às novas tecnologias. A perda de direitos do trabalhador norte-americano ameaça ter efeitos na política e pode levar a uma nova fase de proteccionismo – o que poderá vir a ser o problema político da década.

Dívida externa

Houve algum perdão da dívida externa dos países sobre-endividados (geralmente africanos), mas tal só faz sentido mediante a responsabilização de quem é perdoado. Se um país decide não pagar a quem deve, corre o risco de perder a confiança de quem lá põe dinheiro.

Solidariedade

É necessária uma globalização da solidariedade, como dizia João Paulo II. Os cristãos são pioneiros da globalização. Já São Paulo dizia que “não há judeu nem grego…” João Paulo II, que foi importante na queda do comunismo, veio, a seguir, dizer que há muito a reformular no capitalismo. O Evangelho não dá receitas, mas impõe uma atitude: a da não resignação; a de atenção aos outros.

Próxima sessão

10 de Dezembro

O Natal de todas

as noites

Com João Abrunhosa, presidente da Comunidade

Vida e Paz

João Paulo II e a globalização

(Extracto dos textos fornecidos pelo conferencista e oferecidos pelo CUFC aos participantes na sessão do Fórum::Universal)

«Hoje, está-se a verificar a denominada ‘mundialização da economia’, fenómeno este que não deve ser desprezado, porque pode criar ocasiões extraordinárias de maior bem-estar. Mas é sentida uma necessidade cada vez maior de que a esta crescente internacionalização da economia correspondam válidos organismos internacionais de controlo e orientação, que encaminhem a economia para o bem comum, já que nenhum Estado por si só, ainda que fosse o mais poderoso da terra, seria capaz de o fazer».

João Paulo II, Centesimus Annus 58, 1991

«O desafio é assegurar uma globalização na solidariedade, uma globalização sem marginalização. (…) Poderão todos tirar partido de um mercado global? (…) Promover o sentido de responsabilidade pelo bem comum. (…) A globalização há-de ser conjugada com a solidariedade. Por isso, devem-se instituir ajudas especiais, de modo a que os países que não são capazes, só com as suas forças, de entrar com sucesso no mercado global possam, recorrendo a tais ajudas, superar a sua actual situação de desvantagem».

João Paulo II, Mensagem para o Dia Mundial da Paz (01-01-1998)

«A globalização não pode constituir um novo tipo de colonialismo. Pelo contrário, deve respeitar a diversidade das culturas que, no âmbito da harmonia universal dos povos, são as chaves interpretativas da vida».

João Paulo II, Discurso à Academia Pontifícia das Ciências Sociais (27-04-2001)