“Precisamos de fazer com que a solidariedade seja evangelização”

Pe Francisco Melo, presidente da direcção do Centro Social e Paroquial de Vale Maior Correio do Vouga – Quais as grandes vantagens deste Centro Social?

Pe Francisco Melo – Em primeiro lugar, estou em paz com a minha consciência. Houve casos em que, quando as pessoas morriam, sentia uma dor muito grande por ver as condições em que viviam. Morriam sozinhas; não eram bem tratadas. Hoje é diferente. Acho que estamos a fazer um bom trabalho. Já não temos idosos que passem um dia todo sozinhos. Também o aproveitamento escolar das crianças melhorou. Idosos e crianças estão muito mais apoiados. Sem Centro Social, não teríamos meios de apoio.

O Centro Social tem projectos para o futuro?

Em termos de projectos futuros, gostaríamos de ter um Centro de Dia para idosos e um Lar de Terceira Idade. O projecto está a ser feito e temos local para acolher essas instalações. A Câmara Municipal cedeu-nos a antiga fábrica de papel. Naturalmente, as instalações actuais não têm quaisquer condições.

Gostávamos também de desenvolver um projecto integrado de apoio às famílias. Seria uma equipa multidisciplinar (psicólogo, sociólogo, assistente social) que fosse capaz de fazer um plano individualizado para determinada família necessitada, que identificasse problemas e propusesse soluções.

Uma equipa para resolver problemas de pobreza?

De pobreza e outros. Posso dar um exemplo. Tínhamos uma criança que mordia as outras. Por vezes com gravidade. Algumas tiveram que ser assistidas. Ora, o comportamento dessa criança mudou a partir do momento em que começou a ser acarinhada. Mais tarde, percebemos que o pai, apesar de gostar da criança, resolvia tudo à pancada. Por isso, era a única linguagem que a criança entendia. Ora, como chegar a um pai destes? Seria um trabalho para a tal equipa, tal como os casos de violência doméstica.

O Centro Social faz evangelização?

Precisamos de fazer com que a solidariedade seja evangelização. Penso que uma instituição destas, ligada à Igreja, tem dois trabalhos, o da caridade e ser evangelização. Por caridade, entendo não fazer da solidariedade uma empresa. Isto existe para ajudar a que as pessoas vivam dignamente, mesmo as que não podem pagar. E temos casos desses. Em termos de evangelização, há um objectivo, que é dizer que o ser humano é mais feliz quando se envolve com Jesus Cristo. É o que nos distingue das outras instituições.

Mas quando visitam os idosos ou cuidam das crianças, não há um anúncio directo de Jesus Cristo…

Não tem de haver evangelização directa. Penso que a pessoa que está a ser ajudada, principalmente se for idosa, poderá sentir que o modo como está a ser ajudada é uma presença de Deus na sua vida – Deus não a abandona –, sem que isso se diga directamente. A paternidade de Deus é real. Evangelizar não é ajudar a descobrir que têm alguém que os ama?