“É fundamental que os trabalhadores cristãos participem nas organizações de classe”

Américo Monteiro, coordenador de Pastoral Operária CORREIO DO VOUGA – O Seminário de Aveiro acolheu, no deia 17 de Novembro, cerca de duas centenas de cristãos, de todo o país, empenhados na Pastoral Operária. Como decorreu o encontro?

Américo Monteiro – Este encontro foi um culminar de um processo. Numa primeira fase, que já vem a decorrer há mais de um ano, com a colaboração de alguns grupos, fez-se uma análise da situação. Ver e analisá-la. Como é a participação, como estão a viver os sindicatos, como estão outras organizações de trabalhadores, se os trabalhadores participam ou não, as dificuldades principais – fazer uma certa avaliação. Numa segunda fase, que terminou, fizemos a análise e aprofundamento desta questão: nós, como cristãos empenhados no mundo do trabalho, neste trabalho de evangelização do meio operário, confrontando com os documentos da Doutrina Social da Igreja e com aspectos do evangelho que se pronunciam sobre estas questões, o que pensamos disto? É o que nós chamamos “Julgar”, julgar a situação, avaliá-la, e ver as consequências que derivam dela.

Como está a participação dos trabalhadores nas suas organizações?

Vive-se um momento de bastante dificuldade de participação dos trabalhadores no movimento operário.

Os trabalhadores cristãos estão alheios aos sindicatos?

Não digo que estão alheios. Mas deveria haver muito mais participação. E há muita gente alheia às associações de classe, às organizações que podem defender e discutir os problemas dos trabalhadores.

E porquê? Os trabalhadores não se revêem nessas organizações?

O que aqui aparece como preocupação e mais premente é um certo medo, dada a situação de emprego que se vive hoje em dia. Alguma desconfiança em relação às organizações de trabalhadores, uma forma de estrutura que não chama suficientemente os trabalhadores a participar. Pessoas com muitos anos de dirigismo que já não estarão muito por dentro da realidade dos problemas dos trabalhadores – como deviam estar.

Isso significa o imobilismo dos sindicatos?

Claro. Há uma certa necessidade de renovação, não só dos sindicatos. Não fazemos esta oposição: sindicatos e nós. Nós somos movimentos de trabalhadores cristãos. E mesmo nos nossos movimentos sentimos essas dificuldades de renovação, de participação, de adesão. As pessoas hoje vão mais aos sindicatos na perspectiva de que lhes seja prestado um serviço, porque têm problemas e não porque sentem que devem ser sócios de uma associação que os protege, os defende, os instrói e os ajuda no seu percurso futuro.

Acha importante que os trabalhadores cristãos participem nessas organizações?

É fundamental. Qualquer pessoa que se diga cristã deverá estar empenhada na sociedade. Empenhada na sociedade, isto é, participando com os outros, nestes casos os trabalhadores, na transformação do mundo, no anúncio de valores que são difíceis de divulgar, mas que são fundamentais para a sociedade.

Achamos que os trabalhadores cristãos devem fazer parte das suas estruturas e organizações de classe, sindicatos, grupos cristãos, comissões de trabalhadores, etc., incluindo a participação dos pais nas associações nas escolas. É fundamental.

Tem falado de “agir” e “futuro”. Pode dar-nos duas ou três linhas de força deste futuro?

Quem perspectiva as actividades são os colectivos por si, a JOC para os jovens, o MACC para os mais novos, a LOC para os adultos. A Pastoral Operária pretende ser aqui um elo de ligação entre as diversas experiências. Nesta altura, a LOC está debruçada sobre o problema do trabalho e família: incentivar a participar, educar para participação, os outros movimentos estão a elaborar planos para os próximos anos, no sentido da participação, na tentativa de influir a sociedade.

A PO vai procurar ser o elo de ligação e sempre aprofundando as questões teológicas e evangélicas, sugerindo e ajudando a encontrar linhas orientadoras dos percursos que cada movimento tem de definir em cada ano.

Enquanto cristão, em duas ou três frases, o que diria a outro cristão, para convencê-lo à participação?

Formar pessoas para esta área militante não é fácil. Não basta dizer: é assim e, se quiseres, aderes. As pessoas vão conhecendo pelo nosso testemunho, pelo nosso participar, pelo nosso modo de estar nas coisas, pelos questões que nos vêm colocando. Nessa perspectiva, o desafio é que, perante as dificuldades que existem, todos somos poucos para darmos um contributo para a transformação da sociedade. Que não devemos desistir perante os problemas; que devemos manter um certo ânimo e esperança de que podemos construir um futuro melhor, com melhores condições de trabalho, melhores condições de vida, melhor aceitação uns dos outros… É mais neste sentido de que as pessoas não entrem num pessimismo e um isolamento, mas que participem, se juntem com ou outros, criem dinâmicas para melhorarem a sociedade em que vivem.