Ana Laura Guedes, voluntária do SDAM, de Aveiro, está em Missão desde Janeiro de 2007 em Lwena, Angola. Coordena a Escola de D. Bosco.
Tenho-me esquecido de fazer o “apanhado” dos tempos cá! Estranho? Esquisito? Talvez seja sinal de que tudo correu bem, que o tempo passou rápido de mais, que tive muitas coisas para fazer… E tive mesmo! Tantas traduções do “portunhol” e de “portuliano” para Português; e de temas que eu “domino lindamente”, como sejam, História de Arte ou Abelhas! Tantas provas finais para elaborar e centenas para corrigir! Tantas coisas ao mesmo tempo que cheguei a desejar não ser portuguesa! É que estou em minoria aqui! Depois, acabei por me rir sozinha do disparate de pensamento que tive…
Mas, tirando isto da língua materna (que vergonha!), tive momentos de muita felicidade. Vi e vivi coisas que nunca imaginei e nem dá para contar!
Episódios da vida angolana
Fui com a Equipa Móvel a duas aldeias próximas (Chisuly e Moachimbo) para ver, de perto, como funciona a formação de professores no local mais recôndito do mundo. Fiquei encantada com todo o ambiente que há entre os formadores (três jovens) e os alunos (alguns já professores e outros ainda candidatos). Também deu para poder ver o nível dos “alunos” e ficar mais animada para continuar a fazer os programas para o próximo ano.
Na antevéspera dos meus anos, recebi uma encomenda de Portugal com algumas coisas muito úteis e preciosas, mas, sobretudo, com umas cartitas e umas fotos que me trouxeram mimos. O jantar foi melhorado, no dia 6 de Outubro. E muito animado!
Também tenho feito de motorista, tanto na área da Educação como na de Saúde.
Nas viagens que faço com Tio Paulino (enfermeiro e com uma prótese numa das pernas, por causa de um acidente com uma bomba), há sempre muitas conversas agradáveis.
Participei num encontro dos formandos de Chisuly e Moachimbo, aqui no Centro Juvenil de Lwena. Como admiro esta gente! As horas que andam a pé para irem a qualquer lado! Apesar das distâncias enormes, estavam quase todos e muito bem dispostos e participativos; falaram das provas que serão no princípio de Novembro.
Passámos alguns momentos menos bons dentro da nossa casa: um susto com a Lorena, que, sem saber como, se picou com a seringa de um bébé que estava a tratar. Foi um sábado à tarde de muito sufoco, até conseguirmos ter a medicação de prevenção para HIV…
Viagem ao interior
O meu trabalho é sobretudo em Lwena, mas, depois de uns dias a pensar, resolvi aceitar um desafio do Pe. Martin: fazer a viagem ao mato, por quatro dias! Os missionários iam tentar encontrar aldeias que há mais de 20 anos nenhum missionário visitava.
Sabia que não devia ser fácil a jornada. Foi uma maravilha! Fiquei meia “atordoada” com tanta beleza natural mas, sobretudo, com tanta maravilha humana!
No primeiro dia, para chegarmos a uma aldeia que fica a cerca de 200 km, tivemos de andar 10 horas. A estrada, em alguns sítios, não existia; mas, quem já conhece bem a região, dizia que íamos pela estrada certa e lá continuávamos. Apesar do nosso atraso, estava a aldeia toda à nossa espera, com cânticos e muita felicidade. Além do Padre, ia uma equipa de Educação (Equipa Móvel de Ensino Rural) e uma da Saúde, para a vacinação. Dá para apaixonar qualquer pessoa!
Fico impressionada: o carinho com que nos recebem, tudo de melhor que têm para oferecer, a “casa” que disponibilizam para passarmos a noite, a limpeza e beleza de toda a aldeia…
Pensei muitas vezes que não estava mesmo a passar por aquilo tudo. Era como estar sentada numa cadeira, num parque de diversões, e ter a sensação de ver passar tudo à frente. Mas, com uma árvore atravessada no caminho a impossibilitar a passagem dos jipes, dava para “acordar” e sair, mais para ver do que para ajudar os homens de machado na mão a cortar a árvore ou a ligarem o guincho para a tirarem do caminho.
Depois da chuva torrencial, acompanhada de relâmpagos que iluminavam por completo a densa mata, tínhamos que fazer uma fogueira para aquecer um pouco de água para o chá ou café, para acompanhar um pão com atum…
E foi assim todos os dias. Horas para chegar a uma aldeia. Qual delas a mais bonita na sua simplicidade e harmonia!? Sachimbanda, Sassikola, onde inaugurámos uma capela, Makondolo, onde só no dia seguinte deu para ver a Igreja que foi inaugurada e é de Sto. António. Depois da Missa, com fita cortada e tudo, seguimos viagem para Sassungo, onde estivemos reunidos com o soba (chefe da comunidade) e representantes das outras igrejas existentes, a falar dos problemas da gente.
Parabéns no meio da selva
Depois, mata dentro, andamos duas horas e meia, sem saber bem onde as rodas dos jipes passavam, mas, acreditando no nosso guia, rumo a Sayotana. Acabámos por voltar para trás, porque era tarde de mais para se chegar onde quer que fosse. Numa única paragem que fizemos, combinamos, à meia-noite, cantarmos juntos, com o outro jipe, via rádio, os Parabéns ao Pe. Martin, que fazia anos. Só à meia-noite e vinte é que se conseguiram ligar, mas foi um momento lindo e comovente! Regressámos para Sachindamba, onde deveríamos apanhar os dois professores do Ensino Rural que tinham ficado lá na formação. Perto das 2h, parou-se; e… era para dormir ali. Cada um arranjou o seu sítio e eu fiquei no carro com a Pilar. Bem cedo, madrugada, comecei a ouvir vozes perto de nós. E, para meu espanto, uma, duas caras conhecidas… Como é possível?
Tinha-as deixado na véspera, muitas horas de viagem atrás… Só podiam ser parecidas… Afinal não! Era mesmo o Pascoal e a Sabina, que vieram da aldeia deles, que “ficava ali” (e apontavam para uma imensa floresta naquela direcção e onde, pelos vistos, no meio, havia espaço para a aldeia deles, onde tínhamos estado). E só quando apareceu o Óscar é que me apercebi que tínhamos chegado mesmo a Sachindamba! Sem estar previsto no “programa”, celebrou-se Missa; e no fim arrancamos com Lwena como destino. Uma primeira paragem para “testar” uma ponte por onde tínhamos que passar e lavar a cara com a água do rio… Numa segunda paragem, horas depois, para aquecer água e cozer um esparguete com o resto do atum; e foi sempre a andar, até chegarmos à cidade. Era dia de festa e o festejado merecia tudo (e esse tudo era pouco) o que lhe tinham preparado. Foi motorista, serrador de troncos, Padre para todas as ocasiões e sempre um grande companheiro, este missionário a todo-o-terreno!
Para terminar, estive e estou tão bem que… estive ilegal uns dias, por me ter esquecido de pedir a prorrogação do visto, que não é ainda de residência. De mês e meio em mês e meio, lá temos que o renovar! Não estava tratado e fiquei ilegal… Mas quem anda por bem resolve as situações sem desistir!
Já foi contornada a situação!
Ana Laura
