Que se cuidem!…

Os políticos que se cuidem! Não tarda nada, as populações vão deixá-los a falar sozinhos e cortam-lhes o manancial do seu contentamento – os salários chorudos que auferem. E não seria mal feito, porque, cada dia mais, abusam da nossa confiança, fazem de nós bobos e incapazes.

Entre nós, emblemáticas as carambolas na mesa do bilhar da vida pública portuguesa, referentes a grandes empreendimentos e grandes interesses. Nestes dias, sem dúvida: o novo aeroporto, o comboio de alta velocidade, a administração do maior banco privado…

Sempre ouvi dizer que “nunca deveríamos dizer nunca”. O “jamais” pode ser dito com convicção. Mas é sempre bom acautelar a eventualidade de termos de mudar de opinião – o que, aliás, é normal em pessoas inteligentes! E sobretudo quando somos gestores de bem que não é nosso, cujos pagantes e beneficiários depositam em nós a confiança da seriedade na avaliação de todas as circunstâncias que possam levar às melhores decisões.

O que aconteceu afinal com a definição da melhor localização do aeroporto? O que acontece também com os diversos traçados do tgv? O que leva o Estado a “conduzir” candidatos à eleição para gestores do bcp?… É difícil acreditar que se tenham procurado as soluções de interesse nacional, ante a eminência de se terem tomado outras agora consideradas menos favoráveis.

É que a responsabilidade de quem tem de fazer opções nacionais que sirvam o País não é a de um qualquer particular que faz o que entende dos seus bens. Mesmo aí seria de questionar. Quanto mais agora que se trata de encontrar o melhor para o bem comum! E quem me diz que as reformulações dos serviços de Saúde, as estratégias da Educação… não vão pelo mesmo caminho de ventos de ocasião?…

E se é verdade que dois milhões foram para um estádio em Belém, sem nos darem cavaco, razões temos para dizermos que se cuidem. Com pão e circo se iludiram uns, com papas e bolos se enganam muitos… Não sei se enganarão por muito mais tempo os portugueses com “otas” e “alcochetes”, com “cgds” e “bcps”…

Estamos na cauda da tabela da Europa em muitas questões de instrução e ciência, de rankings de sucesso escolar. Mas estou certo que ainda somos muitos a prezar a nossa dignidade de pessoas humanas, a resistir à lavagem ao cérebro com discursos panfletários. Quem sente os apertos do cinto, não se anestesia facilmente com cenários cor-de-rosa, nem engole por distracção “extasis” de panaceia social.

Que a vida está dura está! Não brinquem com o pouco que pode ainda abrir futuro ao País que estimamos. Cidadãos europeus, sim! Mas de cultura portuguesa e à medida do País que somos. Abertos e acolhedores, entusiastas do futuro, disponíveis para modernizar. Mas com os pés assentes na terra, sem hipotecar o realismo de um amanhã consolidado!