2008: Igreja em Portugal “A Igreja em Portugal é chamada a avaliar-se a si própria e à sua acção na comunidade portuguesa e à sua missão”, escreve D. António Marcelino, numa reflexão aberta a todos os cristãos.
O Correio do Vouga publica esta semana a primeira parte de um texto que o Bispo emérito escreveu a pedido da Agência Ecclesia. A reflexão conclui-se na próxima semana.
1. A Igreja, dom de Deus ao mundo, conta com a perenidade imutável do seu projecto e necessita, em cada tempo e lugar, de uma permanente atenção, para melhor servir os homens e mulheres, a quem se dirige, por força da sua missão, quer para lhes fazer o primeiro anúncio, quer para fortalecer e comprometer os já integrados, como seus membros.
Dadas as mudanças que se operam na sociedade e afectam a vida das pessoas, cada ano que começa, porque o tempo conta na história da salvação, pode constituir para a Igreja uma ocasião propícia para reflectir sobre a fidelidade a Deus e aos homens e mulheres deste mundo em que vivemos e de que somos cidadãos. Poderá assim verificar se a perenidade do projecto e o cuidado da criatividade pastoral, andam juntos no seu agir.
2. Logo no início deste ano pastoral de 2007/2008, na visita Ad Limina, os bispos portugueses ouviram directamente do Papa Bento XVI um apelo fraterno que constituiu, também, uma palavra de ordem na linha da construção permanente dos caminhos de comunhão, os quais implicam “mudar o estilo de organização da comunidade eclesial portuguesa e a mentalidade dos seus membros, para se ter uma Igreja ao ritmo do Vaticano II”. Tudo isto, insistiu o Papa, obriga a clarificar bem a função do clero e do laicado, porque é preciso ter em conta que “todos somos um, desde quando fomos baptizados e integrados na família dos filhos de Deus, e todos somos corresponsáveis pelo crescimento da Igreja.”
Nesta linha, Bento XVI chama ainda a atenção dos responsáveis para alguns pontos fundamentais da vida e da missão da Igreja, tais como: Igreja que não deve falar às pessoas primariamente de si, mas de Deus, tenha sempre no seu horizonte a eclesiologia de comunhão, dê prioridade pastoral à iniciação cristã feita no seu seio, provoque, pela acção e pelo testemunho, o encontro pessoal com Jesus Cristo, dado que é este o objectivo essencial da missão e do processo evangelizador.
3. Subjacentes a estas preocupações e objectivos pastorais, estão, certamente, as dificuldades próprias da acção da Igreja numa sociedade em mudança cultural, onde se depara com o laicismo e o pluralismo expresso a todos os níveis, as aquisições válidas e os desvios da modernidade, a globalização da informação, o fascínio da gente nova, e não só, pelas conquistas tecnológicas.
Em resumo, há que contar com a passagem rápida de um mundo tradicional e fechado a um mundo urbano e sem fronteiras e, no campo eclesial, a passagem progressiva, embora lenta, de um laicado pouco instruído, passivo e acolhedor, ao ressurgir insistente de pessoas e de grupos, que, pela sua formação, ganham consciência do seu lugar na comunidade cristã, dos seus direitos e deveres, como membros do Povo de Deus, e trazem à Igreja o dinamismo de um fermento novo, vivo e imparável.
4. A Igreja em Portugal é, deste modo, chamada, sem interregnos, a avaliar-se a si própria e à sua acção na comunidade portuguesa e à sua missão, aberta a um mundo sem fronteiras, porque não as tem nem a fé, nem o amor; a reflectir sobre os caminhos que está percorrendo e o sentido dos mesmos; a tomar consciência até que ponto ela é “casa e escola de comunhão” para todos; a ponderar como gasta o seu tempo, as energias dos seus mais diversos responsáveis, leigos, clero e consagrados, bem como os meios materiais de que dispõe; a tomar o pulso a si mesma, para ver se é uma Igreja que torna visível o Povo de Deus, como tal, e aparece ao mundo como serva e pobre, fiel e sensível aos que mais precisam, nos aspectos material e social, espiritual e evangélico; a perguntar-se, com realismo, se tem verdadeira consciência de que não é dona de ninguém, pessoas e territórios, nem é apenas uma instituição bem organizada, voltada para dentro, para se conservar e defender, mas um Povo que caminha com rumo certo, animado pela fé, testemunhando esperança, servindo com amor, vivendo a urgência de que chegue a todos o Evangelho de Cristo e não se perca nenhum daqueles que acreditam em Jesus Cristo e se dispuseram a segui-lo.
5. A Igreja em Portugal tem o dever de olhar, com a sabedoria e a força do Espírito, mais ao largo e para além dos limites do templo; de perscrutar e discernir “os sinais dos tempos”, já à vista uns, outros ainda encobertos por uma neblina que passa depressa; de ver, corajosamente, até que ponto é subsidiária de um mundo passageiro pelos critérios de juízo e de acção, relação com os poderosos, ocupações diárias, defesa de privilégios que não a levam a melhor servir, ou se é, de modo inequívoco, sinal de um Deus, que deu a cara em Jesus Cristo, para que todos sejam salvos.
Tem ainda o dever de perceber, para intervir no espaço próprio e onde não se pode calar, qual o rumo da sociedade portuguesa, por força das opções políticas e públicas dos seus órgãos de soberania e dos dinamismos culturais e ideológicos que nela actuam, e verificar como tudo isso reconhece e respeita ou não a pessoa humana com os seus direitos de uma legítima cidadania e abertura aos deveres normais, bem como verificar como se têm em atenção as exigências de uma correcta organização social ao serviço de todos e que a todos proporcione, com normalidade, aquilo a que têm direito. Assim mostrará o compromisso social da fé, testemunhando que está, sempre e em tudo, do lado da verdade e da paz, da justiça e da defesa dos mais débeis.
6. O mundo plural e laico, em que vive e actua a Igreja em Portugal, liberta-a de defender posições do passado, mas obriga-a a ver, dado que está implantada no seio de uma comunidade democrática, qual o seu lugar no presente e quais as exigências postas à sua missão espiritual e humanizadora.
Neste contexto, tem perfeita legitimidade o papel de reivindicar o respeito devido à sua natureza institucional, ao património histórico, humano e cultural, que gerou e de que é detentora, ao alcance social da sua postura pública, ontem e hoje, frente à realidade, à defesa dos valores essenciais e às necessidades dos mais pobres e provados pela dificuldades da vida. Não se trata de se defender ou de defender privilégios de fora do tempo, mas, pese embora a um laicismo apostado em apagar a memória histórica, de mostrar como realiza e sempre realizou, por exigência da sua missão e da sua fé, um serviço à sociedade, enriquecendo-a de muitos modos e evitando o seu maior empobrecimento cultural e moral.
(Continua na próxima semana)
