A pós-modernidade desconfia da razão, em nome da mesma razão. Com efeito, proclamando o relativismo como lei suprema, isto é, que cada um é a medida da verdade, nega a possibilidade de se caminhar para a Verdade, a sua real existência, para além das visões parcelares que dela somos capazes de ter, que restam proclamadas como o absoluto de conveniência ou de ocasião.
É o espírito eminentemente empírico dos nossos dias que está na base desta miopia cultural e científica. João Paulo II, na Fides et Ratio, advertia: “O grande desafio é saber realizar a passagem, tão necessária como urgente, do fenómeno ao fundamento. Não é possível deter-se simplesmente na experiência”.
A razão, que presta indesmentíveis benefícios à causa do Homem, pode tornar-se a sua inimiga número um, se não se abrir aos horizontes infindos da busca das causas, dos fundamentos, sem negar sequer a possibilidade de outra luz sobre a realidade, o seu sentido profundo, muitas vezes apenas delineado nos espaços da crença, da fé. Essa é a eterna questão da relação de mútua circularidade entre a razão e a fé.
É inegável o empenho do Papa Bento XVI em contribuir para um acolhimento e cooperação mútuas da razão e da fé, ao nível da reflexão mais profunda, com a seriedade que a procura da Verdade libertadora reclama, na serenidade de rasgar caminhos de sol para a Humanidade.
Recentemente, falando aos participantes de um congresso organizado pela Academia das Ciências de Paris e pela Academia Pontifícia das Ciências, o Santo Padre voltou a sublinhar os perigos da mútua exclusão e a necessidade da cooperação, da complementaridade. “No momento em que as ciências exactas, naturais e humanas alcançaram prodigiosos avanços no conhecimento do ser humano e do seu universo, a tentação consiste em querer circunscrever totalmente a identidade do ser humano e de fechá-lo no saber que podemos ter. Para evitar este perigo, é necessário deixar espaço para a pesquisa antropológica, para a Filosofia e a Teologia, que permitem mostrar e manter o mistério próprio do homem, pois uma ciência não pode dizer quem é o homem, de onde vem ou aonde vai”.
É possível que haja quem pense diferente. Mas quem tem medo de colocar na mesa do diálogo os diferentes pontos de vist?… O episódio da contestação à visita de Bento XVI à universidade La Sapienza não será uma expressão deste medo de procurar a Verdade, afirmando a intolerância com opiniões diferentes?… Corremos o risco de ficarmos mais pobres, sempre que alguns se afirmam com exclusão dos outros!…
