À Luz da Palavra – 4º Domingo do Tempo Comum – ANo A A liturgia diz-nos que Deus escolhe as pessoas, que, na sociedade, são pobres e humildes para com elas construir o seu projecto de amor sobre nós, isto é, o seu “Reino”. Na verdade, Deus não faz acepção de pessoas, mas toma o partido dos excluídos. Exactamente porque Deus ama todas as pessoas e as quer libertar e salvar, toma o partido daquelas que, dada a sua condição económica e social, estão excluídas dos bens religiosos, culturais e sociais. Nesta perspectiva, a Bíblia apresenta-nos uma mensagem revolucionária, que ganha mais ênfase com a palavra e o gesto de Jesus de Nazaré.
Na primeira leitura, o profeta denuncia a violência dos poderosos sobre os mais fracos e a degradação dos costumes religiosos, que se instalara em Judá, e garante aos mais humildes, que agora se vêem espezinhados pelos grandes da terra, que, se procurarem o Senhor, nele encontrarão protecção. O profeta apela-nos à conversão da mente e do agir. Estou disposto/a a esta conversão? A renunciar à lógica da imposição, da prepotência, do orgulho, do autoritarismo e da auto-suficiência, na minha relação com Deus e com as outras pessoas? Situo-me do lado dos que “escravizam” ou dos que libertam?
A terceira leitura apresenta-nos a carta magna do “Reino”: as bem-aventuranças. O evangelista mostra o Mestre a dirigir-se às multidões e, em especial, aos seus discípulos. Jesus proclama solenemente a revolução que Ele vem trazer à terra. Doravante, os felizes ou bem-aventurados são aqueles e aquelas que aos olhos do mundo, e segundo os seus critérios, são realmente desgraçados e tristes, são infelizes. Esta carta magna traz-nos, ainda, uma outra mensagem: é que os pobres e infelizes, os que choram e têm fome… podem, desde aqui e agora, começar a saborear a bem-aventurança de Jesus, através da imensa solidariedade humana e social que tantos homens e mulheres de boa vontade vão semeando nos seus caminhos. É certo que esta alegria é passageira. Contudo, é urgente que a solidariedade humana aconteça, porque só ela pode revelar aos mais pobres e infelizes o amor preferencial de Deus para com eles e, ao mesmo tempo, ser portadora da esperança e do anúncio dos novos e definitivos tempos, inaugurados por Jesus. Que impacto tem em mim esta página do evangelho? Costumo ser solidário/a como Deus?
Na segunda leitura, Paulo recorda aos Coríntios, e a nós também, a nossa própria condição: Não há, entre nós, muitos sábios, naturalmente falando, nem muitos influentes, nem muitos de “sangue azul”. Porém, Deus escolheu-nos para manifestar ao mundo que também aqueles que parecem vis e desprezíveis, aos olhos do mundo, têm valor diante dele. Não se trata de valorizar a pobreza em si mesma, ou de apresentar Deus como o lidere de um sindicato da classe operária, a reclamar o poder para as classes desfavorecidas. Trata-se, sim, de revelar o verdadeiro rosto de um Deus que se solidariza com os pobres, com os humilhados, com os ofendidos, com os explorados, e que a todos oferece a salvação. É este o Deus que eu adoro e sirvo? Como O testemunho no meu viver quotidiano?
Leituras do 4º. Domingo do Tempo Comum: Sf 2,3;3,12-13; Sl 146 (145); 1 Cor 1,26-31; Mt 5,1-12
Deolinda Serralheiro
