A verdade devolve a esperança

A habitual tendência dos portugueses para o pessimismo não é congénita, não é hereditária. Muitas épocas da nossa história revelam a ousadia, fruto do optimismo, da esperança, da consciência do valor, da vontade de vencer, de sucessivas gerações, mesmo em meio de condições adversas, mesmo em épocas de grave crise.

Tenho para mim que o clima depressivo em que muitos hoje nos movemos resulta não apenas das circunstâncias adversas da economia, do mal estar social, da carestia de vida, da insegurança crescente…, mas sobretudo da frustração resultante de uma ilusão semeada de que, em contraste com estas condições negativas, vivemos num reino de maravilhas.

Na realidade a mentira política de que tudo está no bom caminho, de que as melhorias são sensíveis, de que o crescimento é um facto, o desemprego um fantasma passado…, fazem sorrir por um instante, para depois nos mergulharem numa realidade nua e crua, negra e pesada. A desilusão prostra mais do que as dificuldades!

Em verdade, semeia-se a imagem de um mundo vanguardista – tecnológico, científico, cultural(?!…) -, que contrasta com a verdadeira miséria de um crescente número de portugueses. Custa-me a entender que o não saibam os responsáveis da governação: cresce de dia para dia o número dos que procuram o pão indispensável à subsistência, as migalhas para matar a fome, os cêntimos para pagar a água, a luz ou o gás; dos que mendigam uns euros para poderem continuar a tomar os medicamentos indispensáveis; dos que buscam o apoio de uma instituição para prestação dos cuidados mínimos, sem recursos para os compensarem…

Como é possível ignorar esta realidade? Como é possível considerar aceitáveis, normais, os gastos desmedidos em empreendimentos megalómanos, os salários escandalosos de atletas, gestores, políticos, a plêiade de parasitas sociais, oportunistas coleccionadores de reformas ou pluralidade de ocupações? É com a redução dessas diferenças abissais que diminui o défice orçamental?… Ou é ainda com o sacrifício, subtil, de mais uns cêntimos àqueles que nada têm?

“Eu ouvi o clamor do meu povo” – diz o Senhor. E os ouvidos da Providência nunca se fecharão ao clamor dos pobres! Já muitas civilizações caíram de podres, pela luxúria de uns poucos em detrimento da multidão; já muitos sistemas políticos ruíram, pela incontida revolta da fome!…

A renúncia quaresmal também é para os grandes! Muito poucos desses terão noção do que é essa proposta de conversão do Evangelho. Mas a voz de Deus ecoa também nas consciências, mesmo quando se não conheceu Aquele que “se fez pobre, para nos tornar ricos”. E sempre o testemunho dos fiéis poderá ser um espinho cravado nessas consciências, a clamar por justiça!

Precisamos de uma Páscoa libertadora no nosso País: para os pobres, devolvendo-lhes a consciência da sua dignidade e o sentido do seu vigor; para os ricos, o choque da verdade, que lhes mostre os seus “pés de barro” e os faça descer dos seus tronos, antes que os apeiem.