Uma eixense, esposa e mãe

No Dia Internacional da Mulher No dia 5 do passado mês de Janeiro, ocorreu o quinquagésimo aniversário do falecimento do inesquecível aveirense D. João Evangelista de Lima Vidal. Por tal motivo, para celebrar o «Dia Internacional da Mulher», ocorre-me rememorar a mãe do saudoso Arcebispo-Bispo de Aveiro.

D. Umbelina Elisa de Lima nasceu na Vila de Eixo em 1846. Os seus antepassados e parentes foram os Gonçalves, os Figueiredos e os Limas. Em 1872, na velha igreja da Vera-Cruz – que existiu no largo que hoje tem o nome de Maia Magalhães – casou com Norberto Ferreira Vidal, natural de Vagos. De tal enlace nasceram seis filhos: – Augusto Belchior, João Evangelista, Carlos, Maria Máxima, Zulmira e Umbelina Celeste. Entretanto, em 1886 faleceu o marido, com apenas trinta e um anos de idade; dele ficou a lembrança de ser um homem sério e um cavalheiro em toda a extensão da palavra.

A viúva, ainda tão nova, defrontou-se sozinha com a responsabilidade da casa, com o infortúnio da pobreza e com a educação dos filhos e das filhas – a mais nova das quais contava três anos. D. Umbelina Elisa era uma autêntica senhora; ao olhar para o seu retrato, tem-se a impressão de ver alguém que à decisão aliava a fortaleza e à elegância a simplicidade. Juntava as qualidades tradicionais da família ancestral ao carácter do marido. Nem as desventuras lhe retiraram o ar distinto do sangue que herdara e as maneiras senhoris do nome que recebera.

Com a vida, os pais transmitem aos filhos muito de si e do seu temperamento; assim naturalmente aconteceu com os Lima Vidal. Contudo, como educadora, a mãe moldou-os nos valores da fé cristã, do amor de Deus e da caridade para com os outros, sobretudo os mais necessitados. Podia esta família viver em extremas dificuldades económicas; mas D. João Evangelista tanto queria ao seu lar e ao seu ambiente familiar que, pelos anos além, proclamaria que não havia outra coisa no mundo mais sumptuosa. E outrossim recordaria o berço alindado com a branca colcha rica de bordados, com as rosas frescas que o enchiam de perfume, com os sorrisos, os beijos, as meiguices e a ternura suave e delicada da mãe.

Como eu pessoalmente recordo tantas e tantas confidências de D. João Evangelista… Mais do que uma vez lhe ouvi dizer que a mãe, como catequista e testemunha do sobrenatural, andava sempre à espera de pôr nos lábios inocentes das suas crianças o Nome sagrado de Deus, de Jesus e da Virgem Maria. Pode dizer-se que ela, como devem ser todas as mães, era uma doutora e mestra, cuja cátedra era o regaço e cujos alunos eram os filhos. Santo Agostinho poderia não estar seguro do que afirmava e S. Tomás de Aquino poderia gastar muita tinta para chegar a uma conclusão; as mães, essas são como que infalíveis nestes seus ensinamentos. Conforme escreveu D. João Evangelista, «não pode ser uma quimera quem alcança semelhantes vitórias; nem outro, senão o Senhor Deus, poderia conseguir um tal sacrifício da vaidade das mães.»

Ao longo da sua vida, D. Umbelina Elisa, animada e resoluta, foi quem encaminhou e estimulou o filho a seguir corajosamente o seu projecto do sacerdócio e do episcopado, desde o encontro fortuito no Verão de 1887 com o Bispo de Coimbra, D. Manuel Correia de Bastos Pina, até ao dia da sua morte, que aconteceu em Abril de 1919. Numa página de íntimas memórias, D. João Evangelista de Lima Vidal deixou-nos uns traços de elogio à mãe, em que recordou o bem que dela carinhosamente havia recebido ao longo da vida, não apenas com os conselhos em palavras certeiras mas também com os momentos de companhia afectuosa, quando a solidão o assoberbava e quando a multidão o afligia.

Ao lado de um grande filho esteve sempre uma grande mãe!