As vocações ao serviço da Igreja-missão

Em plena Semana de Oração pelas Vocações (6 a 13 de Abril), publicam-se nesta página a mensagens do Papa Bento XVI (excertos) e de D. António Francisco

Caros irmãos e irmãs!

Aos Apóstolos Jesus ressuscitado confiou o mandato: “Ide, pois, ensinai todas as nações, baptizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28, 19) e assegurando: “Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo” (Mt 28, 20). A Igreja é missionária no seu conjunto e em cada um dos seus membros. Se, graças aos sacramentos do Baptismo e da Confirmação, cada cristão é chamado a testemunhar e a anunciar o Evangelho, a dimensão missionária está especialmente e intimamente ligada à vocação sacerdotal.

Precisamente por terem sido enviados pelo Senhor, os Doze receberam o nome de “apóstolos”, chamados a percorrer os caminhos do mundo anunciando o Evangelho, como testemunhas da morte e ressurreição de Cristo. Escreve São Paulo aos cristãos de Corinto: “Nós – isto é, os Apóstolos – pregamos a Cristo crucificado” (1Cor 1, 23).

O primeiro entre todos, chamado pelo Senhor para ser um verdadeiro Apóstolo, é, sem dúvida, Paulo de Tarso. A história de Paulo, o maior missionário de todos os tempos, descreve, em muitos aspectos, qual o sentido entre a vocação e a missão. Acusado pelos seus adversários de não ter sido autorizado para o apostolado, ele mesmo, repetidas vezes, apela à vocação que recebeu directamente do Senhor (cf. Rm 1, 1; Gal 1, 11-12.15-17).

O que “impeliu” os Apóstolos no início e no decorrer dos tempos foi sempre “o amor de Cristo” (cf. 2Cor 5, 14). Como fiéis servidores da Igreja, dóceis à acção do Espírito Santo, muitos missionários, ao longo dos séculos, seguiram o exemplo dos primeiros discípulos.

Entre as pessoas que se dedicam totalmente ao serviço do Evangelho estão, de modo particular, muitos sacerdotes chamados para anunciar a Palavra de Deus, administrar os sacramentos, especialmente a Eucaristia e a Reconciliação, dedicados ao serviço dos mais débeis, dos doentes, dos que sofrem, dos pobres e dos que passam por momentos difíceis, em regiões da terra onde ainda hoje existem multidões que não tiveram um verdadeiro encontro com Cristo. Para estes, os missionários levam o primeiro anúncio do Seu amor redentor. As estatísticas testemunham que o número dos baptizados aumenta cada ano, graças à acção pastoral destes sacerdotes, inteiramente consagrados à salvação dos irmãos.

É preciso agradecer a Deus pelos numerosos sacerdotes que tiveram de sofrer até ao sacrifício da vida por servir a Cristo […]; trata-se de comoventes testemunhos que poderão inspirar muitos jovens a seguirem, por sua vez, a Cristo e gastarem a sua vida pelos outros, encontrando precisamente assim a vida verdadeira.” (Exort. ap. Sacramentum caritatis, 26). Desta forma Jesus, através dos seus sacerdotes, torna-se presente entre os homens de hoje, até às mais distantes extremidades da terra.

Não são poucos os homens e as mulheres que, desde sempre na Igreja, movidos pela acção do Espírito Santo, escolheram viver radicalmente o Evangelho, professando os votos de castidade, pobreza e obediência.

Diante destes apóstolos do nosso tempo, o Servo de Deus Paulo VI, pôde dizer: “Graças à sua consagração religiosa, eles são por excelência voluntários e livres para deixar tudo e ir anunciar o Evangelho até às extremidades da terra. Eles são empreendedores, e o seu apostolado é muitas vezes marcado por uma originalidade e por uma feição própria, que lhes granjeiam forçosamente admiração. Depois, eles são generosos: encontram-se com frequência nos postos de vanguarda da missão e a arrostar com os maiores perigos para a sua saúde e para a sua própria vida. Sim, verdadeiramente a Igreja deve-lhes muito!” (Exort. ap. Evangelii Nuntiandi, 69).

Para que a Igreja possa continuar a missão que lhe foi confiada por Cristo e não faltem os evangelizadores que o mundo necessita, será oportuno que, nas comunidades cristãs, nunca falte uma constante educação na fé das crianças e dos adultos; é necessário manter vivo nos fiéis um sentido activo de responsabilidade missionária e de participação solidária com os povos da terra. O dom da fé chama todos os cristãos a cooperarem na evangelização. Que esta consciência seja alimentada através da pregação e da catequese, pela liturgia e por uma constante formação na oração; que seja incrementada com o exercício do acolhimento, da caridade, do acompanhamento espiritual, da reflexão e do discernimento, como também com a elaboração de um plano pastoral, do qual faça parte integrante o cuidado das vocações.

As comunidades cristãs, que vivem intensamente a dimensão missionária do mistério da Igreja, jamais serão levadas a fechar-se em si mesmas.

BENEDICTUS PP. XVI

1. A presente mensagem do Santo Padre Bento XVI sobre “as Vocações ao serviço da Igreja – Missão” convida-nos e ajuda-nos a preparar condignamente a próxima Jornada Mundial de Oração pelas Vocações, a celebrar no dia 13 de Abril de 2008.

Desde o início do seu ministério apostólico, o Santo Padre Bento XVI, retomando uma já longa tradição, sublinhou a importância do ambiente e destacou o sentido em que a vocação deve ser acolhida e em que esta Jornada vocacional deve ser vivida.

Exige-se também aqui um olhar novo e diferente. É neste olhar novo e atento para a Igreja Mistério, Comunhão e Missão, que a vocação deve ser entendida por aqueles que sentem o chamamento e identificam a voz de Deus e pelas famílias e comunidades onde Deus chama.

As mensagens do Santo Padre para este Dia Mundial de Oração pelas Vocações constituem uma tríade que deve ser recebida, lida e entendida na sua unidade e na sua complementaridade. A teologia da vocação tem necessariamente de ser compreendida a esta luz, verdadeira luz de esperança, que brota do amor infinito de Deus que, pela Igreja – Mistério, Comunhão e Missão, nos chama a ser servidores da sua alegria, testemunhas da sua bondade e apóstolos do nosso tempo.

2. Missionária na sua essência, no seu conjunto e em cada um dos seus membros, a Igreja sabe que o imperativo de viver, testemunhar e anunciar o Evangelho é de todos os cristãos desde o Baptismo e sobretudo desde a Confirmação. Para compreendermos o dinamismo, a génese e o percurso de cada vocação, devemos mergulhar neste oceano imenso de graça e de santidade, de mistério e de comunhão, de serviço e de missão, onde se desenvolvem a vida e o testemunho cristão de cada um de nós.

O mistério de amor de Deus pela humanidade e as promessas divinas feitas ao povo de Israel concretizaram-se, cumpriram-se e “realizaram-se plenamente em Jesus Cristo”, que escolheu discípulos para continuarem a sua missão.

A vocação tem sempre esta génese e evoca em permanência esta história: é dom de Deus e é olhar efectivo e afectivo de amor e de compaixão redentora para com o povo.

O sacerdote, o(a) consagrado(a) e o(a) missionário(a) são sinal desta aliança divina e são caminho profético de libertação e de salvação de pessoas e de povos que reencontram Deus e redescobrem o sentido da Vida e da História. Vivendo como discípulos de Jesus, o Mestre, e dóceis ao Espírito Santo, eles sentem-se enviados em missão, em discretos e anónimos trajectos ou em percursos novos e corajosos junto de quem sofre e de quem trabalha pelas causas justas e urgentes de um mundo em busca de Deus, de dignidade e de esperança.

Nunca nos faltou no exemplo de Jesus e na vida da Igreja o lugar e o tempo dados à oração e à contemplação ,como formas imprescindíveis a preceder e a acompanhar a vocação a uma vida activa ou a fundar o carisma e a missão da própria vocação à vida contemplativa. Este é um dom inesgotável de graça e de bênção a que devemos incessantemente recorrer. Lembra-nos o Santo Padre que “somente num terreno espiritualmente bem cultivado brotam as vocações para o sacerdócio e para a vida consagrada”.

3. A oração, a alegria de ser chamado, a coragem de chamar, a disponibilidade confiante para trabalhar na pastoral juvenil e vocacional, a vida cristã das famílias, o ambiente formativo dos Seminários e das Congregações e Institutos Religiosos e o acolhimento e compromisso apostólico das comunidades e instituições cristãs são alguns dos inúmeros momentos, meios e mediações de uma verdadeira e criativa pedagogia da vocação.

O exemplo de S. Paulo e o “discurso missionário” de S. Mateus, que o Santo Padre refere na Mensagem, falam-nos de uma verdadeira cultura da vocação respaldada na simplicidade, na verdade, na confiança, na conversão e na coragem, características tão próprias dos jovens de hoje e de sempre.

São múltiplos e “comoventes os testemunhos que poderão inspirar muitos jovens a seguirem Cristo e a gastarem a sua vida pelos outros”, diz-nos Bento XVI. Sentimos todos igualmente que são muitos, generosos e criativos, os testemunhos daqueles que se decidem hoje a trabalhar com alegria na pastoral vocacional nos seus âmbitos mais diversificados e nas suas expressões mais belas. Também isso nos diz que a hora que vivemos é uma hora de Deus que, em jeito de vigília, anuncia manhãs de esperança.

4. Pede-nos o Santo Padre que a sua Mensagem, dirigida a todas as comunidades eclesiais, possa suscitar “subsídios de oração e encorajar o empenho de todos os que trabalham com fé e generosidade ao serviço das vocações”.

Foi nesta Mensagem que se inspirou, com dedicação e alegria, o Secretariado Diocesano de Pastoral Juvenil e Vocacional de Aveiro, a pedido da Comissão Episcopal Vocações e Ministérios, para elaborar este Guião a multiplicar pelas dioceses, comunidades e movimentos e grupos apostólicos de todo o País. Esta referência de justa gratidão é também um sinal da comunhão e da partilha que a Comissão Episcopal Vocações e Ministérios tem procurado incentivar e promover entre as dioceses.

5. Que Nossa Senhora, a Estrela da Esperança, nos ensine a “implorar do Senhor o florescimento de novos apóstolos” e a trabalhar nesta missão da pastoral vocacional com alegria e com generosidade.

+António Francisco dos Santos

Bispo de Aveiro e Presidente da Comissão Episcopal Vocações e Ministérios