“Temos muitos problemas, algumas soluções e outros tantos sonhos”

P.e Manuel Joaquim Rocha presidente da direcção do Centro Social Paroquial da Vera Cruz Na semana em que morre o fundador do Centro Social Paroquial da Vera Cruz, o P.e Manuel Fernandes (ver pág. 3), damos a conhecer esta instituição com presença marcante na cidade de Aveiro.

CORREIO DO VOUGA – O Centro Social Paroquial responde às necessidades da população?

P.E MANUEL JOAQUIM ROCHA – É sempre difícil respondermos com um sim ou um não a perguntas como esta, tanto pela diversidade das respostas como pela variedade das necessidades. No entanto, uma coisa é certa: um Centro Social Paroquial e, no nosso caso concreto, começou por ser uma resposta a uma necessidade da população da paróquia: as famílias não terem onde deixar os filhos. Isto foi há 36 anos! À medida que o tempo evolui, a vida “complica” se, outras necessidades foram surgindo e outras respostas foram sendo tentadas, quer pelos problemas detectados em determinados públicos que não, apenas, o “abrigo” das crianças quer, também, pelas políticas dos governos. E assim foram surgindo as várias valências que compõem o “jardim” que é o nosso Centro Social Paroquial, quer na área pedagógica e tradicional quer na área social propriamente dita. Agora saber se respondem ou não às necessidades das populações não sei; é, pelo menos, dentro das condicionantes que nos rodeiam e “apertam” o objectivo por que lutam, quer a Direcção quer cada um dos funcionários desta Instituição. Disso não tenho dúvidas…. Com mais um pequeno acrescento que marca a forma da resposta: competência, amor e sinal visível da Igreja no meio dos problemas.

Qual a relação do Centro com a Paróquia da Vera Cruz? A paróquia sente-o como seu? Há abertura? Actividades conjuntas?

Põe-me uma questão difícil e que tem merecido a atenção das várias direcções por que tem passado este Centro, particularmente depois que assumi (por obrigação dos Estatutos) as funções de Presidente da Direcção. Em virtude de factores vários e com certeza válidos, o Centro Social foi-se independentizando da Paróquia, embora os Estatutos não o permitam. Foi essa pelo menos a sensação que fui tendo: são duas realidades paralelas, que apenas se cruzam no nome – aliás em sinal de respeito pela própria maternidade do Centro. Determinados momentos houve em que a paróquia soube responder com abnegação e amor a alguns projectos; lembro-me, por exemplo, do novo edifício P. Fernandes em houve que várias iniciativas para ajudar na sua construção, mas essa não era a realidade diária. Depois que vim, também não se fez muito por essa aproximação, mas fomos dando alguns passos: as reuniões da Direcção são avisadas na Igreja, como outro serviço qualquer da Paróquia, um membro da Direcção do Centro faz parte do Conselho Económico da Paróquia e outro do Conselho Fiscal e tem representação no Conselho Pastoral Paroquial. Quero acrescentar que há algumas pessoas que partilham do que é seu para uma ou outra criança com mais necessidade e o Cortejo da Paróquia do ano passado já foi feito para ajudar o Centro e a sua nova Creche, bem como o deste ano. Com estas iniciativas concretas, penso que a resposta à sua pergunta ainda não está completa.

O Centro Social tem sonhos para o futuro?

É célebre a frase da poesia de Gedeão que o sonho comanda a vida e, quando se deixa de sonhar,… morre-se. Mas também é verdade que há sonhos bonitos que acabam em pesadelos. Tudo isto para lhe dizer que os tempos são mais de pesadelos que de sonhos… Mas vamos continuando a sonhar e o nosso sonho de agora é a nova Creche da Vera e do Cruz. Depois… depois se verá. Não queremos substituir ninguém, a começar pelo Estado, mas não deixaremos de estar atentos às necessidades sentidas, procurando as respostas mais adequadas e sublinhando em cada uma delas a vertente social, marca fundamental e razão de ser de Instituições da Igreja como esta.

No seu entender, quais as principais lacunas no campo social na sua paróquia?

A Paróquia da Vera Cruz tem respostas sociais interessantes, quer a nível do nosso Centro quer de outras instituições públicas ou privadas para os diversos problemas que afligem as suas populações: falo nas várias camadas etárias da população, desde as crianças aos mais velhos. Está em fase adiantada a construção de um Lar para idosos. No entanto, sabemos que temos uma população envelhecida, quer no Rossio quer na Beira Mar, a necessitar de acompanhamento, temos zonas degradadas (com tudo o que isso significa), sobretudo em Sá/Barrocas, a necessitar de um novo reordenamento da zona e de casas novas com rendas sociais; temos muita gente nova mas desenraizada, que aqui vive por interesses profissionais, a necessitar de um sítio de encontro e convívio, como na Forca. Como vê, problemas temos muitos, algumas soluções e outros tantos sonhos, que se vão mitigando com o trabalho esforçado de um bom grupo de Vicentinos/as, de uma Equipa que visita os doentes e velhinhos, de uma Escola de Pais atenta aos problemas da educação e de um Centro Social que continua atento ao meio onde está inserido.

Paróquia da Vera Cruz mobiliza-se para financiar construção da creche

A paróquia da Vera Cruz promove, no dia 20 de Abril, um cortejo de oferendas com vista à angariação de financiamento para a construção da Creche da Vera e do Cruz que o Centro Social Paroquial está a levar a cabo. As dádivas poderão ser deduzidas no IRS mediante recibo que a paróquia passará.

Números

do Centro Social

389

crianças que o Centro acolhe na Creche, no Pré-Escolar e no ATL. A estes utentes há que acrescentar as mulheres da casa Vera Vida, os imigrantes apoiados pelo CLAII, as famílias apoiadas pelo centro Entre Laços, entre outros serviços.

80

número de colaboradores do CSPVC.

1 735 000

orçamento do CSPVC em Euros. Actualmente está em construção a Creche da Vera e do Cruz, para 66 crianças. A inauguração será em Setembro de 2009. O orçamento desta obra é de 716 mil euros (financiamento de 413 mil euros pelo Estado e de 302 mil euros pelo próprio Centro Social).

História do Centro Paroquial e Social da Vera Cruz

1971 – (6 de Fevereiro) Nasce o Centro Social e Paroquial da Vera Cruz (CSPVC), para dar resposta aos pais que não tinham onde deixar os filhos durante o dia. Lidera o processo o P.e Fernandes e P.e Paulino (já falecidos). Começa com um jardim-de-infância, juntando-se mais tarde a creche.

1977 – Surge o ATL.

1992 – Inicia-se a construção do edifício-sede.

1997 – (22 de Dezembro) Inauguração da sede. O CSPVC conta 360 crianças (145 crianças no pré-escolar, 85 na Creche e 230 no ATL).

1998 – A instituição é pioneira na implantação do núcleo distrital da REAPN (Rede Europeia Anti Pobreza) em Aveiro.

1999 – A instituição vira-se para as mulheres em situação de particular fragilidade económica, social e cultural, criando a empresa de inserção Puro Linho.

2001 – O CSPVC integra o Conselho Local de Acção Social, contribuindo para o Plano de Desenvolvimento Social do Concelho de Aveiro.

Celebra um acordo atípico com o Centro Distrital de Segurança Social e cria o Entre Laços, um Centro de Apoio Familiar e Aconselhamento Parental (CAFAP), destinado a prestar apoio a crianças e jovens em risco.

2002 – Cria o GAC (Gabinete de Acção Comunitária) dirigido preferencialmente aos imigrantes (apoio alimentar, em vestuário e calçado, apoio jurídico, aulas de língua portuguesa, etc.).

O CSPVC é reconhecido como entidade formadora pelo INOFOR.

2003 – Inauguração do primeiro CLAI de Aveiro, mediante um protocolo com o Alto Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas. Posteriormente passou a CLAII da segunda geração, juntando em 2007 uma UNIVERA (Unidade de inserção na vida activa).

2005 – Começa a funcionar no primeiro dia da Primavera a Vera Vida, casa que acolhe mulheres vítimas de violência doméstica. A casa dispõe de habitações para 16 mulheres e seus filhos.

(12 de Maio) A Câmara Municipal de Aveiro concede ao CSPVC a Medalha de Mérito Social.

2008 – (23 de Janeiro) Bênção e lançamento da primeira pedra da Creche da Vera e do Cruz, com o Bispo de Aveiro e o Ministro da Solidariedade.