As religiões têm de dialogar para se conhecerem mais

Escola Profissional de Aveiro promoveu conferência inter-religiosa Faranaz Kheshavjee, investigadora em assuntos islâmicos, Joshua Ruah, médico e antigo líder da comunidade judaica portuguesa, Anselmo Borges, padre católico e professor de Filosofia, e D. Ximenes Belo, bispo e Nobel da Paz em 1996, debateram as relações entre religiões e sublinharam a necessidade de cada um conhecer a sua própria religião e a dos outros. O encontro aconteceu na tarde de 15 de Abril, no Centro Cultural e de Congressos de Aveiro, no âmbito do Ano Europeu para o Diálogo Intercultural, tendo como principais destinatários os alunos e professores da Escola Profissional de Aveiro. Antes da iniciativa, a Escola Profissional de Aveiro homenageou o antigo administrador apostólico de Dili pelos “altos serviços prestados ao povo de Timor em particular e à Humanidade em geral”.

“O judeu e o muçulmano estão na nossa identidade”

Para Faranaz Kheshavjee, portuguesa e muçulmana xiita, há uma “grande barreira” no diálogo entre religiões, que se resume na palavra “desconhecimento”. Primeiro, há um “profundo desconhecimento entre crentes”. Para essa situação tanto contribui o facto de os manuais escolares não contemplarem o património religioso do país como a ausência da teologia das escolas oficiais, recusada pela filosofia moderna. “O conhecimento sobre Deus é visto como não-ciência”, afirmou. Em segundo lugar, há uma tendência na sociedade ocidental para considerar qualquer sociedade teísta como “civilizacionalmente inferior”.

Para alterar este panorama, a investigadora em assuntos islâmicos defendeu duas mudanças: que haja um maior conhecimento religioso; e que as comunidades religiosas procurem uma ética transversal comum para o bem e para a dignidade humana. Talvez assim o judeu e o muçulmano deixem de ser “o outro, o mouro, os infiéis”, para serem assumidos como “referências na nossa identidade nacional”.

“As religiões devem fazer baixar a agressividade”

Joshua Ruah defendeu que a “transformação das sociedades nem sempre é evolução”. “Por vezes, pioram”, afirmou, “quando as pessoas são menos respeitadas e têm menos condições de vida”. É o que está a acontecer neste início de séc. XXI, quando “todos pensavam que o ano 2000 iria ser o ano da mudança”. Joshua Ruah, judeu, apontou como principal exemplo desta evolução negativa as tensões “étnico-político-religiosas”, que, além de guerras no terreno, criam uma atmosfera de agressividade latente. Para o antigo presidente da comunidade israelita portuguesa, o papel das religiões na “baixa de agressividade” é “importante”, sem ser “determinante”, por haver outros factores, como a política e a globalização.

Para ultrapassar a agressividade, sublinhou que é importante “considerar o outro igual a nós próprios”, reafirmou a ética mínima inter-religiosa e repudiou o proselitismo: “Eu não posso ter a veleidade de converter o outro ao meu credo, mas posso aceitar que o outro se converta ao meu credo ou a outro”.

“Se as religiões dialogarem, vêem mais”

Anselmo Borges fez uma abordagem mais filosófica da questão. Começou por definir religião como “ligação ao mistério e à unidade de tudo”, como “procura de salvação”. Logo, “se é isso, não tem nada a ver com o mal”. A violência é “blasfémia”; o mal é o “anti-religioso”. Neste contexto, o fundamentalismo é uma ilusão, “porque não é possível possuir o fundamento”. “Nós andamos no mistério, mas não o possuímos; não possuímos o fundamento”, afirmou. “Por isso, precisamos de diálogo, não só por causa da paz, mas para nos aproximarmos do mistério”, defendeu o padre católico e professor de Filosofia na Universidade de Coimbra. “As religiões são caminhos à procura do cimo da montanha. Uns têm uma perspectiva, outros têm outra. Se dialogarem uns com os outros, vêem um pouco mais”.

Anselmo Borges afirmou-se partidário do “estudo crítico das religiões” e alertou para os perigos da leitura ingénua “dos textos chamados sagrados”. Por fim, defendeu separação Igreja/Estado e neutralidade religiosa deste último.

“Procurai praticar o diálogo na vida”

D. Ximenes Belo fez uma intervenção testemunhal. A primeira experiência de diálogo inter-religioso viveu-a quando, sendo seminarista, teve de passar uns tempos no hospital. O enfermeiro cabo-verdiano era protestante, mas muito atencioso, pelo que a experiência foi muito positiva. Como bispo, vivendo numa sociedade multi-religiosa (a constituição indonésia, que chegou a vigorar em Timor, referia cinco religiões), praticou “o diálogo na vida, [mas] não o diálogo apologético”. Fê-lo participando nas grandes festas das outras religiões. “Eu frequentava as festas do Ramadã e eles [muçulmanos] as nossas da Páscoa e do Natal. O mesmo aconteceu com budistas e hinduistas”, afirmou. O Nobel da Paz em 1996, actualmente a residir em Mogofores, aconselhou a “conhecerem as coisas positivas e belas da religião”, primeiro, “da própria”, depois, “das religiões dos outros nossos irmãos”. Aos alunos deixou mais dois concelhos: “Aumentai a vossa cultura” e “procurai praticar o diálogo na vida”.