Isabel Alçada, Coordenadora do Plano Nacional de Leitura Isabel Alçada, coordenadora do Plano Nacional de Leitura esteve no Centro Universitário Fé e Cultura, na noite 7 de Abril, para falar do Plano que dirige e que pretende pôr os portugueses a ler mais, a começar pelas crianças.
Conhecida por ser co-autora da colecção infanto-juvenil “Uma Aventura”, Isabel Alçada falou do amor pelos livros e pela leitura como “prazer não imediato”, de “natureza mais aprofundada”, mas sublinhou que “marcam mais as pessoas do que os livros” – ideias para conhecer neste Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor, que hoje se celebra.
Descentralização
Para ler é preciso ter acesso aos livros. Esta é a primeira certeza. Por isso o PNL apoia-se na Rede de Bibliotecas Escolares, lançada dez anos antes, e atribuiu fundos para que as escolas (ou os agrupamentos escolares) comprassem livros. Não fez uma compra centralizada – em que os livros poderiam ficar mais baratos – porque pretendeu dar protagonismo e responsabilidade às escolas.
Escolha
O PNL seleccionou vários títulos para a mesma idade, para que possam escolher. Se não gostam de um, podem ler outro. Se não gostam de ficção, podem ler ciência. Ofereci uma história ao meu neto e ele perguntou logo: “Mas isto é verdade?” Como era ficção, tive que dizer que não era propriamente verdade. “Se não é verdade, é mentira”, respondeu-me, recusando-se a ler. Mas já leu depois um livro sobre o corpo humano. A esperança do PNL é que um livro leve a outros e assim se vá alargando o leque.
Prática habitual
Antes do PNL, de forma geral, os livros não entravam na sala de aulas como prática de leitura habitual. Só se estudava pelo manual. Agora há uma diversidade de obras oferecidas aos educadores.
Até aos 10 anos
Os hábitos e competências de leitura adquirem-se até aos 10 anos. É como com a natação, os patins ou a bicicleta. Depois desta idade é muito mais difícil. O PNL quer criar “free readers” [leitores livres], isto é, pessoas capazes de ler e que procuram ler por sua própria iniciativa.
Vivências
Por outro lado, só as vivências e a idade permitem atribuir significado. Há obras muito boas, como “Amor em tempos de cólera”, de Gabriel Garcia Marquez, a que um adolescente ou jovem ainda não atribui valor.
Sala de aulas
A prática da leitura intensifica-se na sala de aulas, com a orientação do adulto. Em casa é mais difícil. Mesmo que apeteça ler, é mais fácil ocupar o tempo com um jogo, o computador ou a tv. No entanto, é necessário envolver as famílias (que reforçam as práticas), as associações, autarquias, empresas, etc. A sociedade civil – nomeadamente bancos e fundações – bem como as autarquias têm-se envolvido.
Leitura obrigatória
Graças ao PNL, no 1.º ciclo as crianças têm de dedicar uma hora por dia à leitura. O mesmo se passa no pré-escolar (os educadores lêem para as crianças). No 2.º ciclo tem de haver pelo menos uma hora de leitura por semana. As crianças inglesas chegam ao 2.º ciclo com 200 livros lidos.
Diversidade
Os títulos indicados pelo PNL são diversificados em autores, estilos e ilustrações, de modo aos professores poderem escolher. A lista do PNL rejeita livros incorrectamente escritos, livros com incorrecções científicas, livros com mensagens incorrectas ou duvidosas. Temos o dever, como educadores, de rejeitar para os filhos dos outros o que rejeitaríamos para os nossos.
Prática
A melhor forma de promover a leitura é ler, praticar a leitura com o acompanhamento do professor: “ora leio eu, ora lês tu”, e o professor faz perguntas sobre o que se leu. É muito mau fazer-se “esperoterapia”, ou seja, esperar que uma criança um pouco atrasada nas suas competências adquira com o tempo a capacidade e o gosto de ler.
Médicos promovem a leitura
Tem havido iniciativas muito positivas, como convidar os pais ou os avós para ler na aula. Numa escola de Évora, instituiu-se o “quarto de hora de leitura”, em que até os funcionários param para ler. Os médicos de Clínica Geral associaram-se ao PNL com o projecto “Ler + dá saúde”. Nas consultas, perguntam às crianças se já estão a ler e recomendam livros. Há o desejo de oferecerem um livro sempre que a criança vai à consulta (como se faz nos Estados Unidos).
Prazer não imediato
O prazer da leitura não é um prazer fácil. É de natureza mais aprofundada. Na sala de aulas temos de mostrar que mesmo quem não gosta tem de ler. A criança tem de perceber que nem tudo na vida é prazer e que há coisas intelectualmente bem feitas. Se o professor for claro, o aluno entende: “Isto é para gostar. Isto é para se esforçar”. Nós temos de achar que é educativo, eles têm de achar que é engraçado.
Pessoas antes dos livros
Os meus livros preferidos? Marcam mais as pessoas do que os livros. As pessoas estão primeiro. Marcou-me muito o meu pai, que era um grande leitor. Dava-nos livros quanto estávamos doentes. Lia-nos alto. Gostávamos de ouvir a voz dele. E líamos se ele não estivesse connosco. Um dia surpreendeu-me a ler o “Crime do Padre Amaro” (de Eça de Queirós). Perguntei-lhe se o livro era para a minha idade. “Se estás perceber, é” – foi a resposta dele. Marcou-me muito, também, a professora Alice Gomes.
