BASÍLIO DE OLIVEIRA*
Fez, no dia 16 de Abril de 2008, 130 anos que, no muito antigo e nobre lugar de S. Romão, freguesia de Santo André de Vagos viu a luz do dia o Padre Manuel de Oliveira Júnior que foi Presidente da Câmara Municipal de Vagos, primeiro Pároco da freguesia de Santo André e um grande benemérito da freguesia de Santo André e do concelho.
Quem teve a felicidade de conviver de perto com o Padre Oliveira Júnior jamais se esquecerá das qualidades de honradez, lealdade, seriedade, bondade e amor ao seu semelhante que durante a sua longa vida (94 anos) nunca deixaram de ornar a sua bela alma.
Sem em nada prejudicar os muitos afazeres eclesiásticos, conseguiu sempre tempo para dar aos interesses do seu concelho, a começar pela vila de Vagos, que muito amava, to-da a colaboração que lhe era pedida.
Com que solicitude trabalhou para que Vagos tivesse aquela ma-ravilhosa casa que durante dezenas e dezenas de anos foi os Paços do Concelho, mais conhecida pelo Palacete do Visconde de Valdemouro!… Coube-lhe a honra, como Presidente da Câmara, de assinar a escritura de compra.
Com que carinho falava na sua Banda de Música de que era sócio contribuinte, defendendo-a e elogiando-a em quaisquer circunstâncias! Os Bombeiros de Vagos mereceram-lhe sempre igual afeição.
Nunca recusou o seu contributo aos negócios da Administração Pública sempre que para tal foi solicitado, considerando-se um expropriado a bem de todos.
Apesar de o concelho não ser rico e as dificuldades económicas, na altura, serem enormes (estamos em 1925-1930), não descuidou como Vice-Presidente e Presidente da Câmara os interesses do concelho e do povo em geral na construção de caminhos, fontes, pontes, estradas e escolas.
Com que entusiasmo o ouvimos falar da construção da Escola da Gafanha da Boa Hora, em que os adobes, construídos em Vagos, à falta de estrada ou caminho condigno (o senhor Padre Alírio de Melo, então pároco de Vagos, ia para lá a cavalo), tiveram de ir para a Gafanha de barco moliceiro.
Já muito idoso, ainda jogou a sua influência política para que a sua terra, S. Romão, tivesse uma estrada alcatroada que a ligasse ao mundo, libertando os seus habitantes do isolamento em que viviam, e viesse também a ter luz eléctrica, melhoramentos de que ainda usufruiu durante bastante tempo.
Como sacerdote, foi sempre com toda a sua humildade um exemplar cumpridor dos seus deveres sacerdotais. Com verdade, ninguém poderá dizer que algum dia ele se tenha deixado dominar pelo pecado da preguiça. Trabalhou imenso para que fosse possível a criação da freguesia religiosa de Santo André, acontecimento que se concretizou em 29 de Junho de 1956.
Pelo seu zelo apostólico foi possível dinamizar o povo de S. Romão e levá-lo nos anos 1929 e 1930 a lançar-se na construção da capela de S. Romão.
Com que entusiasmo garantiu a D. João Evangelista de Lima Vidal, na altura Bispo de Aveiro, o terreno necessário para a construção da residência paroquial que adquiriu a expensas suas e que hoje grande parte está destinado à construção do futuro Centro Social Comunitário e onde se encontra a Residência Paroquial.
As obras materiais nunca impediram o seu zelo sacerdotal de olhar pela educação catequética das crianças, instrução religiosa dos adultos, assistência moral e espiritual a doentes e velhinhos e a orientação em férias dos muitos estudantes e seminaristas do concelho de Vagos, um bom número dos quais chegou ao doutoramento, ao sacerdócio e ao episcopado, que exercem funções de relevo na sociedade portuguesa e que muito honram o nosso concelho.
A sua caridade verdadeiramente evangélica e as necessidades tremendas do seu tempo levaram-no a fundar no concelho de Vagos a chamada “Caixa dos Pobres”, quando ainda não se falava nas Conferências de S. Vicente de Paulo e outras obras de beneficência, Caixa que tanta dor minorou entre o povo menos favorecido de bens materiais.
O mesmo povo, em tempos, altamente desfavorecido, no aspecto cultural, sempre encontrou no Padre Oliveira o amigo, o conselheiro, o protector, o pai, de cujos conselhos e orientação tanto carecia e de que auto beneficiou durante mais de 50 anos.
E a pena que lhe causava o analfabetismo dos seus conterrâneos levou-o a tornar-se Mestre-Escola, fundando um Centro de Instrução Primária, na sua terra, por onde muitos rapazes passaram, incluindo D. Manuel dos Santos Rocha, de Calvão, de saudosa memória, que foi Bispo de Beja.
O Padre Oliveira Júnior transformou a sua própria casa numa Escola Primária.
Amigo do esplendor litúrgico (era de facto grande cultor da Liturgia Católica que estudava a preceito) punha todo o seu zelo e entusiasmo cristãos na exactidão e rigor das cerimónias religiosas da Semana Santa, que com tanto esplendor se realizavam na velha igreja de Vagos.
Aquando da implantação da República, obedecendo a ordens que cumpria zelosamente, de administradores políticos concelhios menos escrupulosos, sofreu as amarguras do desterro, sendo obrigado a deixar a sua terra, as suas gentes, o seu concelho, passando a viver durante algum tempo, desterrado na vila de Ovar, onde granjeou muitos amigos e irradiou simpatia.
Esta a vida e a obra do sacerdote que faleceu em 5-8-1970 e que a Câmara Municipal de Vagos e a Junta de Freguesia homenagearam perpetuando a sua memória com um monumento implantado junto à casa onde nasceu.
* Intervenção proferida por Basílio de Oliveira, sobrinho do homenageado, na altura da inauguração do monumento em São Romão, freguesia de Santo André-Vagos
