Uma linguagem que todos entendam

À Luz da Palavra – Domingo de Pentecostes Celebramos a solenidade do Espírito Santo, exactamente 50 dias após a Páscoa; e, por isso, se chama também domingo de “Pentecostes”. Esta festa fazia já parte do calendário judaico, e era celebrada como festa da ceifa do trigo, tornando-se mais tarde a festa da Lei. Nós celebramos o dom do Espírito Santo, que dá vida, transforma, constrói a nova comunidade.

No evangelho, João apresenta-nos Jesus ressuscitado no meio dos seus discípulos a desejar-lhes a paz: “A paz esteja convosco”; e, logo de seguida, comunica-lhes o Espírito Santo, dizendo: “Àqueles a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes serão retidos”. É pelo perdão dado e recebido que alcançamos a paz. O Senhor Jesus deixa no meio do seu Povo mais um sinal do seu amor: o dom da reconciliação, que é também um fruto do Espírito Santo. Só pelo perdão e reconciliação a nova criação, inaugurada com a ressurreição do Senhor, pode ser projectada até à última vinda de Cristo, sem se destruir nem anular. O mundo em que vivemos é um vulcão de ódios e de antagonismos. A nível de conflitos entre povos, nações e religiões, e também entre grupos sociais e familiares. A minha forma habitual de estar entre as pessoas é construtora de paz ou de divisão? Tendencialmente sei perdoar e aceito o perdão?

Na primeira leitura, Lucas relata-nos o facto maravilhoso da descida do Espírito Santo sobre a comunidade reunida em oração. Nesse dia, os discípulos do Senhor, em número de cerca de 120 pessoas, homens e mulheres, estavam reunidos no mesmo lugar, quando, no meio de um turbilhão, viram aparecer uma espécie de línguas de fogo, que se iam dividindo, e poisou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas. Esta manifestação de Deus, ou teofania, através do vento e das línguas de fogo, evoca o poder de Deus, comunicando aos discípulos do Senhor o dom de falar uma linguagem nova, que todos serão capazes de entender, e prefigura a universalidade da mensagem cristã. E, por esta razão, a festa do Pentecostes proclama a nova lei do Espírito, a do Amor, no novo Povo de Deus. A Igreja, de que faço parte, é este espaço de comunhão, de liberdade e de fraternidade? Sou capaz de acolher a todos sem distinção?

Na segunda leitura, Paulo afirma que a linguagem do amor, aquela que provém do Espírito Santo, seja ela falada, escrita ou gestual, é uma linguagem entendida por todos, qualquer que seja a sua língua e cultura. É a linguagem que une as pessoas, diferentes em dons e carismas, na unidade de um só Corpo, o de Cristo, porque é o mesmo Espírito que distribui os seus multiformes dons, em ordem ao bem comum. Porém, cada um de nós, que gosta de ser original, tem dificuldade em aceitar o outro ou a outra na sua diferença, ainda que esta seja uma mais valia para a comunidade humana ou cristã. Persevero na oração e na escuta da Palavra, para que o Espírito Santo se manifeste em mim como dom da aceitação mútua e do amor fraterno, refazendo em nós a unidade no meio da diversidade? Sinto-me a ser parte integrante da minha comunidade cristã e a tomar parte nas suas decisões?

Domingo de Pentecostes: Act 2,1-11; Sl 104 (103); 1 Cor 12,3b-7.12-13; Jo 20,19-23

Deolinda Serralheiro