No centenário do nascimento de Mons. Raul Duarte Mira Neste dia em que exactamente ocorre o primeiro centenário do nascimento de Mons. Raul Duarte Mira na vila do Luso, a Diocese de Aveiro, de cujo clero ele foi um membro destacado, não podia deixar de estar presente nas respectivas comemorações, que esta Paróquia, consciente do mérito do seu ilustre conterrâneo e do carinho com que se guarda a sua memória, houve por bem e por justiça promover e levar a efeito. Na impossibilidade de estar presente, o bispo de Aveiro, D. António Francisco dos Santos – nesta ocasião ocupado em trabalhos inadiáveis – pediu-me que viesse aqui para o representar. Aceitei o encargo, embora sabendo de antemão que o homenageado era merecedor de algo mais. Mas desempenho esta missão com grande aprazimento, porque, tendo sido seu discípulo e mantendo por ele grande consideração e penhorada estima, em parte tenho também continuado as suas pegadas na mesma galeria de serviço que ele, como vigário-geral, tão hábil e previdentemente desempenhou.
Mons. Raul Duarte Mira, quando jovem, sonhou e abraçou o belo ideal do sacerdócio, sem quaisquer dúvidas. Decerto que, então, Deus o atirava para um futuro cor de ouro; nessa altura, porém, como acontece com todos nós, desconhecia as encruzilhadas nos destinos da vida. Mas estava por tudo, confiado na presença e protecção de Deus, mesmo que nós não tenhamos disso consciência por mera distracção. Por isso, em face do convite de alguém a insinuar-lhe que deixasse o Seminário e que ingressasse na Universidade de Coimbra para cursar Medicina – não lhe faltariam as ajudas económicas – ele logo replicou negativamente, sem hesitação. Se aceitasse o convite, não seria feliz. «Quero ser padre, com plena autonomia do meu espírito» – foi a resposta pronta.
As suas primeiras tarefas de pastor de almas decorreram no extremo sul da Diocese de Coimbra, «nas margens belas do belo Zêzere» – segundo ele haveria de evocar, encantado com as paisagens ímpares que se lhe gravaram para sempre. Posteriormente, a partir de 1937, desempenhou o múnus pastoral nas terras da Ria e do Vouga, em Aveiro, onde se manteve até 1957. Como logo se notou o invulgar valor do então Padre Raul Mira, o Santo Padre Pio XII, uma vez informado, em 27 de Fevereiro de 1947 agraciou-o com a dignidade de Prelado de Honra, podendo usar o título de Monsenhor.
Em 4 de Abril de 1956, ocorreu o vigésimo quinto aniversário da ordenação sacerdotal de Mons. Raul Duarte Mira. Diante da proposta dos seus conterrâneos em lhe prestarem uma justa homenagem, ele opôs-se terminantemente, porque desejava passar o dia em oração pessoal, sem distracções que o perturbassem. Contudo, ao deslocar-se à igreja matriz do Luso no dia 12 desse mês, quinta-feira, para celebrar a Eucaristia comemorativa do dia da Missa Nova, que fora no mesmo templo, ele teve a surpresa de um grupo de sacerdotes amigos que solenizaram a liturgia. Foi uma atitude inesperada e afectuosa, que comoveu o aniversariante e que ele, no futuro, havia de recordar com reconhecimento. Há pequenas coisas que jamais esquecem.
Passados meses, precisamente em 17 de Janeiro do ano seguinte, efectuou-se em Aveiro uma especial manifestação de simpatia, não apenas para recordar a referida data festiva, mas também para lhe agradecer o exemplo do desprendimento sem condições, da dedicação sem fronteiras, da caridade sem artificialismos, do trabalho em profundidade, da disponibilidade sempre pronta, do sacrifício sem limites, que Mons. Raul Mira manifestara como sacerdote do presbitério aveirense, como pároco da freguesia da Glória, como vigário-geral da Diocese, como vice-reitor e reitor do Seminário de Santa Joana Princesa, como assistente religioso de movimentos da Acção Católica e como professor de Educação Moral e Religiosa no Liceu de Aveiro. Houve a consciência de que ele também era credor de muito da formação dos novos sacerdotes – nos quais eu me incluo – pelo seu exemplo de vida, pela sua larga erudição, pela sua invulgar cultura, pela sua delicadeza de maneiras, pelos seus atributos de educador, pela sua bondade natural e pela sua humildade sem dissimulações – tudo aliado às virtudes cristãs e sacerdotais. Como era de pressupor, não foi esquecida, mas antes foi louvada a sua labuta constante e cansativa em prol da construção do magnífico edifício do novo Seminário que, projectado com rasgada visão, ficou a atestar a beleza nas suas inconfundíveis linhas arquitectónicas.
Além disso, a homenagem significava outrossim uma despedida, porque, na linha das suas aspirações, manifestadas uma ou outra vez, Mons. Raul Mira oferecera-se para a pastoral missionária, acompanhando D. Francisco Nunes Teixeira, bispo de Quelimane, em Moçambique, para colaborar nos trabalhos da sua Diocese. Se Aveiro iria sentir na saudade a sua falta, Quelimane iria ganhar com o seu dinamismo zeloso e solícito.
Desta maneira, após os dezoito anos de actividade na restaurada Diocese, no exercício dos mais altos cargos, deixando o exemplo de um dos seus maiores cabouqueiros, ao lado de D. João Evangelista de Lima Vidal, seguir-se-ia um período de sete anos de pastoral em terras de Moçambique, durante os quais continuou a dar provas da sua conhecida generosidade e dos dotes da sua rica personalidade; aí permaneceu até 1964, regressando neste ano à sua terra natal, onde lhe foram confiados diversos trabalhos pastorais. Contudo, apesar de ausente, sem ligação directa à comunidade cristã de Aveiro, o bondoso sacerdote continuaria a sentir e a viver os seus problemas, contribuindo mesmo com os seus donativos, além dos seus conselhos e das suas orações. A Diocese jamais esquecerá a dívida de gratidão a quem tanto trabalhou por ela, numa abnegação inestimável.
Mons. Raul Duarte Mira faleceu há quase vinte anos. Do além perene de Deus, o seu exemplo continua a falar-nos e a ensinar-nos, quiçá numa presença mística de memória, nostálgica mas jubilosa. A celebração do centenário do seu nascimento significa isto mesmo.
Terminando esta minha mensagem, afirmo que efectivamente a sua vida desmentiu, sem qualquer sombra de dúvida, a amargurada confissão que Antero de Quental penosamente proferiu nos derradeiros anos: – «Cheguei à morte e a vida não vivi.» Pelo contrário, ele poderia com verdade atestar, como S. Paulo (1Timóteo, 4, 7-8): – «Lutei o melhor que pude pela causa do Evangelho de Cristo, percorri o meu caminho e guardei a fé; agora só me resta receber a merecida recompensa, que o Senhor, justo Juiz, me dará no dia marcado; e não apenas a mim, mas também a todos aqueles que tiverem esperado com amor a sua vinda.»
* Texto proferido no centenário do nascimento de Mons. Raul Duarte Mira, na paróquia do Luso, no dia 3 de Maio de 2008
