Imposto pesado sobre os mais pobres. Sempre eles.

Uma pedrada por semana Aumenta o preço dos alimentos, instalou-se a crise alimentar. Se todos somos afectados, de algum modo, os mais pobres são sempre os mais atingidos.

Estava a começar a minha vida de bispo, em Lisboa. Estávamos em pleno PREC e tudo parecia insegurança. A minha mãe, que vivia na Beira, via e ouvia as notícias e no seu coração aumentavam preocupações. Logo que encontrou alguém lá da terra que ia para a capital, mandou-me uns pães. Sabe-se lá se eu teria onde comprar, ou se o haveria a vender…O seu gesto, sempre as mães, comoveu-me. Telefonei logo a sossegá-la…”Não se preocupe, que a fome não começa pelos bispos…”

Apesar das dificuldades, que eu também já sentia, outros estavam bem piores. O Patriarca dissera-me, sem rodeios “Ordenado não há, mas a sopa sempre chegará para todos nós” E foi assim à volta de três anos…

Fico sempre inconformado quando vejo a situação dos mais pobres, normalmente com mais filhos, com mais bocas abertas…mas muitos deles com menos resposta…

Dizem os jornais que a crise alimentar se instalou e ameaça 100 milhões. Que em 37 países a fome já provoca distúrbios e até mortes na luta pela sobrevivência.

A primazia e a prioridade têm de ser as pessoas. Não o material bélico, nem os gastos com os jogos de poder, nem os orçamentos, nem a obediência a normas que levam meses, senão anos, a mudar…

No mundo há que chegue para todos. Agora é que os grandes correm, envergonhados. Chegam sempre tarde e depois de muita gente ter morrido.

Os pobres, sempre eles. É por eles que chega a fome e a morte se antecipa. Onde está o progresso?

António Marcelino