Levou-nos “sobre asas de águia”

À Luz da Palavra – XI Tempo Comum – Ano A A liturgia deste domingo dá-nos a conhecer a ternura de Deus para com o seu Povo, que Ele quer cuidar e salvar. E fá-lo de tal modo que, na palavra escrita, se revela o amor divino com entranhas de compaixão, o que muito o aproxima do modelo materno. A tradição bíblica e cristã diz-nos que o amor de Deus e, portanto, o de Jesus, é um amor caracterizado, particularmente, pelos atributos do amor materno. “Deus é Pai e Mãe”, afirmava João Paulo I.

No evangelho, Mateus apresenta-nos Jesus cheio de enternecimento e preocupação, porque o povo de Israel, a quem foi enviado, andava exausto e alquebrado, como “ovelhas sem pastor”, porque era grande a “seara”, isto é, o número de pessoas a evangelizar e poucos os que se dispunham a trabalhar ao jeito dele nesta seara. Mas não tinha Deus enviado tantos profetas a Israel, antes de Jesus? Não existiam tantos doutores da Lei que ensinavam, tantos fariseus, peritos na prática escrupulosa desta Lei, e tantos sacerdotes, que, continuamente, ofereciam orações e sacrifícios no templo? Apesar disto, Jesus constata que o povo não está satisfeito, robustecido, alimentado, porque lhe falta uma outra atenção: a do cuidado prodigalizado por Jesus, repassado de entranhas maternas como as de seu Pai/Mãe. A mãe é a alavanca da família! Tudo faz gratuitamente e com muita ternura. Não contabiliza as horas de trabalho, de dedicação, de falta de descanso, de doação, sempre que é preciso estar e cuidar. É assim o amor de Deus e o de Jesus. É este o meu jeito de me dar no serviço à comunidade humana e cristã? Face às pessoas de hoje que andam abatidas, estafadas, mal-humoradas, descontentes, infelizes, sou uma gota de bálsamo e desperto nelas a coragem e a confiança na vida?

A primeira leitura conta-nos, em linguagem materna, como Deus transportou “sobre asas de águia” o povo que padecia e se lastimava no Egipto, sob a opressão do faraó. Deus como que o carregou ao colo e, qual mãe carinhosa, fez dele um povo santo, um povo especial, estabelecendo com ele uma aliança de amor. É esta recordação que Jesus evoca. É este gesto materno que Ele quer repetir com os seus contemporâneos. É este movimento que Jesus pretende imprimir nos seus discípulos e discípulas, de ontem e de hoje. Já aprendi este jeito de amar de Jesus? Como o manifesto no meu dia-a-dia?

A segunda leitura insiste em que Deus nos deu uma grande prova de amor gratuito, ao entregar o seu Filho à morte, apesar de sermos pecadores. Éramos seus inimigos, e Ele reconciliou-nos consigo pela morte de Jesus. Este é efectivamente o maior certificado do seu amor: como a mãe que, da sua vida, dá vida ao ser que cresce no seu seio, sem perder a sua própria vida, assim Deus, pelo seu Filho, nos dá a sua vida, sem se esvaziar, tornando-nos, deste modo, seus amigos, isto é, reconciliados consigo. Já experimentei em mim mesmo as entranhas do amor materno de Deus, amor que Jesus viveu e testemunhou junto do seu povo? Sou também capaz de me enternecer diante dos irmãos e irmãs, que andam cansados e desiludidos da vida, e de ser generoso/a para lhes dar de graça, a graça da vida que, incansavelmente, recebo de Deus?

Domingo do XI do Tempo Comum: Ex 19,2-6a; Sl 100 (99); Rm 5,6-11; Mt 9,36-10,8

Deolinda Serralheiro