Felizes os pobres (?!)

Revisitar… O Magistério O assunto é extremamente delicado. Não deve, todavia, deixar de se trazer à luz do dia. A época de crise económica que vivemos, as dificuldades crescentes de muitas famílias, a multidão imensa dos deserdados e famintos, que vivem ao nosso lado, diante da nossa porta, às vezes ao abrigo dos nossos telheiros… exige que repensemos, mais uma vez, nós, os presbíteros, o uso dos bens materiais.

Tal aprendizagem adquire-se, exactamente, pela proximidade fraterna às populações que servimos e por uma visão de fé sobre a nossa missão. Assim no-lo diz o decreto conciliar Presbyterorum Ordinis, do Vaticano II. “Pela amistosa e fraterna convivência entre si e com os demais homens, podem os presbíteros aprender a cultivar os valores humanos e a estimar os bens criados como dons de Deus”. (…) “É preciso, porém, que interpretem à luz da fé todos os bens que lhes advêm, para que sujeitem o uso desses bens à plena conformidade com a vontade de Deus, e rejeitem tudo aquilo que for prejudicial à sua missão” – PO 17.

Fora de questão os bens destinados à missão da Igreja, a administrar de forma rigorosa e transparente, com a ajuda de gente competente, para esses fins explícitos. Para os bens que adquirimos, são essencialmente duas as aplicações legítimas. “…empreguem-nos os presbíteros, da mesma forma que os bispos, em primeiro lugar, para a sua honesta sustentação e desempenho dos deveres do próprio estado; os que sobejarem devem aplicá-los em proveito da Igreja ou em obras de caridade. Deste modo, não possuam os cargos eclesiásticos para lucro, nem empreguem os rendimentos deles provenientes para aumento do próprio património familiar” – PO 17.

E remata este parágrafo conciliar com um veemente conselho: “Por isso, os sacerdotes, sem apegarem de qualquer forma o coração às riquezas, evitem sempre toda a ambição e abstenham-se cautelosamente de qualquer espécie de comércio”.

Também nesta questão, muitas poderão ser as palavras que se digam sobre uma Igreja serva e pobre, sobre um estilo de vida sóbrio, sobre a obrigação da caridade… De nada valerão, não terão qualquer eco no coração dos fiéis, não produzirão nenhum efeito de partilha fraterna, sem a luz do testemunho. Aqui também faz sentido o adágio popular: “Candeia que vai à frente, alumia duas vezes”!

Urge que nos rendamos à evidência do despojamento de Jesus Cristo, para sabermos que “o trabalhador tem direito ao seu salário”, mas que também “o que acumulamos não é nosso, mas dos pobres”! Também por esta via o mundo acreditará na verdade do Evangelho.

Querubim Silva