Clausura – moeda com duas caras

CARMELITAS DESCALÇAS DO CARMELO DE CRISTO REDENTOR

Um destes dias recebemos no convento a visita duma Senhora acompanhada do seu filho que, por aqueles dias ia fazer a sua primeira comunhão. A criança insistiu com a mãe para que pedisse à “chefe” para deixar as “senhoras” irem à sua festa. A mãe perguntou-lhe: “Mas quem é a chefe?” Ao que a criança terá respondido: “É a que anda à solta”.

Este episódio cheio de inocente humor retrata bem o que muitos pensam acerca da Clausura. O raciocínio é simples: umas grades, as Irmãs atrás delas, logo as Irmãs estão presas… Será que as Irmãs estão presas atrás das grades? Não será antes que encontraram o caminho para a plenitude da liberdade atrás delas? Deixo isto à consideração do amigo leitor…

Dito em poucas palavras e como quem sabe o texto de cor, direi que a clausura é essa estrutura externa com que a Igreja demarca a vida das monjas contemplativas e que se encontra recolhida nos documentos conciliares como Perfectae Caritatis, o Direito Canónico e recentemente no documento Verbi Sponsa. Neste documento, afirma-se que: «a clausura constitui uma maneira particular de estar com o Senhor, de partilhar o «aniquilamento de Cristo, através de uma pobreza radical que se exprime na renúncia não só às coisas, mas também ao espaço, aos contactos, a tantos bens da criação», unindo-se ao fecundo silêncio do Verbo na cruz. Assim se compreende que «o retirar-se do mundo para se dedicar, na solidão, a uma vida mais intensa de oração seja apenas uma forma particular de viver e exprimir o mistério pascal de Cristo», um verdadeiro encontro com o Senhor Ressuscitado, num itinerário de contínua ascensão para a casa do Pai» (VS 3).

Assim falamos da clausura desde o direito que rege a Igreja, com as suas normas, ou desde a Teologia, a ciência que orienta, desde a sabedoria da fé, as atitudes dos cristãos. Escritos com muitos matizes não faltam. Mas acredito que o leitor continue a perguntar-se: para isto são necessárias as grades?

A clausura é como uma “moeda com duas caras”, a que é vista desde fora, isto é, a que todos vêem, e a que é vista desde dentro, isto é, a que vivemos nós que estamos dentro do Carmelo. É como carmelita, portanto desde de dentro, que vou tentar dizer-lhe onde se encontra o sentido da clausura e o que contribui para que as Irmãs encerradas no convento, por opção de vida, estejam mais próximas ou mais afastadas da vida de todos.

Nós, as Carmelitas, aprendemos a olhar a Clausura com Santa Teresa de Jesus. Ela usa a imagem belíssima da metamorfose do bicho-da-seda, para explicar às suas Irmãs o que é a clausura das carmelitas. Para a Santa, cada um de nós é um bicho-da-seda, com os nossos próprios egoísmos. No trabalho que o bicho-da-seda faz para ir construindo à sua volta o casulo, Teresa vê o esforço pessoal para nos libertarmos de tais egoísmos e assumirmos atitudes cristãs. Desta forma, torna-se fácil de entender que a clausura é para a carmelita o que a construção do casulo é para o bicho-da-seda. É aí que o bicho feio e peludo se converte numa borboleta branca muito bonita!

O construir o casulo, que é o mesmo que fabricar a seda, é capacidade e direito de todos, contudo, nós carmelitas, que dedicamos toda a nossa vida à oração, temos formas materiais e estáveis que expressam o nosso casulo. Formas que, com o passar do tempo, podem perder o sentido, se o bichinho não se transforma numa linda borboleta, branca e graciosa! Santa Teresa, com a sua determinação, estimula-nos a não perder tempo: “eia, pois, filhas minhas!, dai-vos pressa a fazer este trabalho de nos libertar-mos das coisas da terra”… Na verdade, de nada vale a clausura se dentro dela as pessoas não trabalham na sua própria clausura, numa tensão constante para alcançar a escala de valores que a própria Santa nos propõe: a generosidade, a liberdade, a humildade e a alegria na austeridade.

A clausura no abstracto não existe. O que existe são homens e mulheres que a vivem, a entendem e fazem das suas vidas expressão concreta da clausura. O maior paradoxo da clausura é que sendo um lugar fechado, e no nosso caso com grades, “abre” a uns horizontes infinitos, à contemplação das mais belas paisagens, impossíveis de serem vistas fora dela.

A clausura é ainda o espaço fechado-aberto para a convivência das Irmãs, que estão diariamente em relação, o que exige que desenvolvam todas as suas capacidades individuais e as ponham ao serviço da comunhão. Uma convivência que, quando é humanizadora e está repleta de fé, esperança e amor, é capaz de saltar fora dos muros do convento e comunicar a vida e a alegria que se vive dentro.

Na realidade, a clausura é como o “fechar” a porta de casa, quando a família se reúne e se cria o espaço de intimidade no lar. O mais importante é que no dia seguinte, ao sair de casa, os membros da família levem a todos aqueles que encontrarem a riqueza divino-humana que a vida familiar comporta. Nós, no Carmelo, não sairemos de casa, é verdade, mas estamos chamadas a acolher todos os que nos vêm visitar e umas às outras, de tal maneira que se realizem em nós as palavras da Santa Madre Teresa: “Minhas filhas, quanto mais santas, mais conversáveis, afáveis no trato com vossas irmãs. E assim, tudo o que possais sem ofensa de Deus, procurai com todas as pessoas que falarem convosco que amem a vossa conversa e desejem a vossa amizade”.

Definir o sentido de clausura e falar das suas formas concretas de expressão passa pelo coração, lugar onde cada um decide dar tudo e dar-se a si mesmo ou reservar-se para si mesmo, viver no esforço de ser outro Cristo ou passar pela vida como se nada fosse.

Nós estamos em caminho e pedimos-lhe perdão, caro amigo leitor, se não chegarmos a ser a bonita borboleta branca. Contudo apraz-me dizer-lhe que nas nossas clausuras, que também são as suas, porque pertencem à Igreja, se encontram mulheres de estatura única, mulheres como: Teresa de Jesus, Teresinha do Menino Jesus, Edith Stein, Isabel da Trindade, Maravilhas de Jesus, Cândida da Eucaristia, entre outras, junto das quais e com as quais esperamos achar graça aos olhos de Deus.