Ano Paulino, uma proposta pastoral

Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa A Igreja Católica vive o “Ano Paulino” entre 29 de Junho de 2008 e de 2009, por convocação de Bento XVI. Os Bispos portugueses escreveram uma nota pastoral realçando a importância da pessoa de Paulo para todos os cristãos e apontando propostas para a vivência deste ano.

O Correio do Vouga publica hoje a primeira parte da nota pastoral, com uma particularidade: acrescenta-lhe pequenos apontamentos e perguntas para reflexão, que, com certeza, serão úteis para todos os leitores. A segunda e terceira partes da nota serão publicadas nas edições de 18 e 25 de Junho. J.P.F.

1. O Papa Bento XVI proclamou um “Ano Paulino” (1), para celebrar os 2000 anos do nascimento de São Paulo, com início na Solenidade dos Apóstolos Pedro e Paulo, a 29 de Junho de 2008, e a terminar um ano depois. Este Ano Paulino coincide, no tempo, com uma outra proposta feita pelo Santo Padre a toda a Igreja: a convocação de um Sínodo(2)sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja (3). Esta simultaneidade sugere-nos a convergência dos dois temas nas propostas pastorais. Paulo, grande Apóstolo da Palavra, pode ser o nosso guia para descobrirmos, mais profundamente, o lugar da Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja. Basta pensar que ele é o autor sagrado mais frequentemente lido na Liturgia (4).

A Palavra de Deus é o Verbo eterno de Deus, a mensagem do coração de Deus que Ele quer comunicar aos seres humanos. A Palavra revelada é apenas o meio sacramental, expressão do mistério da encarnação, que nos pode levar a escutar a Palavra viva de Deus. Paulo tem uma consciência muito profunda dessa origem divina da Palavra. As suas principais cartas antecedem cronologicamente os outros escritos do Novo Testamento (5). Paulo confessa que o Evangelho que anuncia o recebeu directamente de Jesus Cristo, tendo sido confirmado pelos outros apóstolos. Aos Gálatas (6) ele escreve: “Com efeito, faço-vos saber, irmãos, que o Evangelho que por mim foi anunciado não o conheci à maneira humana; pois eu não o recebi nem aprendi de homem algum, mas por uma revelação de Jesus Cristo” (Gal 1,11-12). Com Paulo, a Igreja pode fazer esta descoberta da Palavra viva, a que Deus quer dirigir ao Seu povo, Palavra que brota do coração de Deus.

Paulo pode guiar-nos em todos os caminhos de escuta da Palavra: na celebração da Páscoa; na evangelização, como primeiro anúncio de Jesus Cristo; no aprofundamento da fé, em processo catequético; na fidelidade a Deus, vivendo segundo as exigências da Palavra; no fortalecimento da esperança, pois toda a Palavra de Deus nos abre para o horizonte da eternidade.

Paulo e a nova fronteira da evangelização

2. Paulo protagonizou, na sua experiência de Apóstolo, o alargamento do horizonte dos destinatários do Evangelho, problema actual na relação da Igreja com a sociedade. A Igreja primitiva viveu dramaticamente este problema: o Evangelho era destinado aos judeus e os novos discípulos de Jesus deviam sujeitar-se à circuncisão (7)e obedecer às normas legais do povo judaico, ou era também para os pagãos que, uma vez convertidos a Cristo, ficavam a pertencer ao Povo de Deus, obedecendo apenas às exigências do Espírito e não a leis especificamente judaicas? Paulo, nascido judeu, formado na escola do Mestre Gamaliel (8), que nunca renegou o seu amor e a sua pertença ao Povo de Israel, ao verdadeiro Israel de Deus (cf. Rom 9,1ss), é o grande protagonista deste alargamento do horizonte da evangelização. Identifica aí a sua graça própria: “A mim, o menor de todos os santos, foi dada a graça de anunciar aos gentios a insondável riqueza de Cristo” (Ef 3,8), de tal modo que aqueles que se convertem a Cristo são “concidadãos dos santos, membros da casa de Deus” (2,19).

Este alargar do horizonte do anúncio do Evangelho é o desafio feito à Igreja por João Paulo II, lançando-a para uma nova evangelização. É que a Igreja também hoje corre o risco de limitar o anúncio de Jesus Cristo àqueles que continuam no seu redil, compreendem a sua linguagem e conhecem as suas leis, e tem dificuldade em anunciar Jesus Cristo a uma sociedade cada vez mais secularizada.

As sociedades contemporâneas, apesar de muito diferentes das sociedades do Império Romano do século I, têm traços comuns: estão profundamente marcadas pelo hedonismo (9) e pelo materialismo (10), reduzindo o problema de Deus ao arbítrio e à decisão humana, fiel a ritos, mas incapaz de reconhecer o Deus vivo e transcendente. Por outro lado, em ambas se notam sintomas de insatisfação, que pode transformar-se em abertura à surpresa vivificante do anúncio de Jesus Cristo. Paulo teve desilusões e s-cessos (11)e pode inspirar a Igreja actual a discernir, nos anseios dos homens e mulheres do nosso tempo, aberturas à Palavra de Deus. Ela é chamada a ler, nas buscas e inquietações humanas, os “sinais dos tempos”, indicativos da necessidade e do desejo da salvação (cf. G.S. nn. 4 e 11) (12).

O evangelizador possuído por Jesus Cristo

3. Paulo revela-nos, no testemunho da sua vida, o dinamismo sobrenatural da evangelização: a força que brota do encontro com Cristo ressuscitado. Tudo começou na sua conversão, com a revelação pessoal de Jesus Cristo, afirmando uma verdade perene: só quem se converte a Jesus Cristo pode ser evangelizador.

Para Paulo tudo começou na estrada de Damasco (13), onde Cristo ressuscitado se lhe manifesta e lhe faz o chamamento de pôr todo aquele zelo com que perseguia os cristãos, com os quais Jesus Se identifica, ao serviço do Evangelho, a boa-nova da salvação. “Quem és Tu, Senhor?” “Eu Sou Jesus a Quem tu persegues” (cf. Act. 26,12-16). Paulo nunca mais duvidará que o Evangelho que anuncia o recebeu naquele momento. Ele próprio o confessa aos cristãos de Corinto (14):“Transmiti-vos em primeiro lugar o que eu próprio havia recebido: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras, e foi sepultado; que foi ressuscitado ao terceiro dia, segundo as Escrituras, e apareceu a Cefas (15), depois aos doze (…). Depois disso, (…) apareceu-me também a mim” (1Cor. 15,3-8). Paulo considera esta a sua graça própria, a escolha misericordiosa de Deus: “Pela graça de Deus sou o que sou; e a graça que me foi dada não foi estéril” (1Cor. 15,10).

Continua na próxima semana

Perguntas para reflexão

1. O que pode descobrir a Igreja com Paulo? O “grande Apóstolo da Palavra” pode ser guia para quê? (Parágrafos 1 e 2)

2. Paulo alargou “o horizonte dos destinatários do Evangelho”. Em que consistiu, na sua época, este alargamento? (Parágrafo 4)

3. Qual o desafio feito à Igreja por João Paulo II? (Parágrafo 5)

4. Que traços comuns há entre as sociedades contemporâneas e as sociedades do Império Romano do século I? (Parágrafo 6).

5. Onde se deu o encontro de Paulo com Cristo? (Parágrafo 8)

Notas

1. Bento XVI proclamou o “Ano Paulino” no dia 28 de Junho de 2007, quando se deslocou à Basílica de São Paulo Fora dos Muros, em Roma, para celebrar as Vésperas da Solenidade dos Apóstolos Pedro e Paulo. O anúncio foi sublinhado com uma salva de palmas por parte dos fiéis …

2. Do grego synodos (syn, “com” + hodós, “caminho”), deu em latim synodus, “assembleia”, “reunião”. Tratando-se do Sínodo dos Bispos (a outra modalidade é a dos sínodos diocesanos, como o de Aveiro), refere-se à assembleia dos bispos que, escolhidos de diferentes partes do mundo, se reúnem em determinados tempos para ajudar o Papa com o seu conselho. O último sínodo, o 11.º, foi sobre a Eucaristia e terminou no dia 23 de Outubro de 2005. Dele resultou a exortação apostólica “Sacramentum Caritatis”. O Papa actual quer que o Sínodo seja um verdadeiro instrumento de consulta e colaboração entre os bispos.

3. O 12.º Sínodo foi convocado para Roma, entre 5 e 26 de Outubro de 2008, com o tema “A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja”.

4. Habitualmente a segunda leitura da Eucaristia dominical é retirada das Cartas de São Paulo.

5. Os escritos de São Paulo são os mais antigos do Novo Testamento. O mesmo é dizer que são os escritos cristãos mais antigos. É consensual que as Cartas aos Tessalonicenses foram escritas nos anos 50 e 51, seguindo-se as Cartas aos Coríntios, aos Gálatas e aos Romanos (anos 57-58) e as Cartas aos Colossenses, aos Efésios e a Filémon (anos 61-63). Os primeiros escritos não paulinos são a 1.ª Carta de Pedro (ano 64?) e o Evangelho de Marcos (ano 70).

6. Habitantes da Galácia, província do Império Romano na Ásia Menor (no centro da actual Turquia). Paulo visitou esta região na primeira (Act 14,1-21) e segunda (Act 16,1-7) viagens missionárias que empreendeu.

7. Operação que se devia fazer a todos os varões aos oito dias do nascimento (ou a quando da conversão ao judaísmo). A circuncisão é instituída em Gn 17 como sinal da aliança entre Deus e Abraão e a sua descendência.

8. Um dos célebres doutores da Lei do séc. I. d.C. Gamaliel era neto de outro doutor importante, Hilel. Deve-se a Gamaliel a libertação dos apóstolos do sinédrio (Act 5,34-39). São Lucas refere que Gamaliel educou Paulo no farisaísmo (Act 22,3), mas as cartas não o nomeiam. Segundo uma lenda recolhida por S. Clemente, Gamaliel converteu-se secretamente ao cristianismo.

9. Enquanto corrente filosófica com origem na Grécia antiga, o hedonismo (“hedoné”, em grego, significa prazer) defende que o prazer individual e imediato é o maior bem. Na actualidade, é um estilo de vida difuso que preconiza que a realização humana só se alcança na busca dos prazeres.

10. Enquanto corrente filosófica, o materialismo afirma que a única coisa existente é a matéria. Nega, portanto, tudo o que é espiritual. Como estilo de vida, significa um apego aos bens materiais.

11. Talvez a maior desilusão de Paulo tenha sido em Atenas, quando se dirigiu aos filósofos (Act 17,16-34) e obteve como resposta algumas conversões, mas principalmente troça e indiferença. “Ouvir-te-emos falar sobre isso ainda outra vez”, responderam os atenienses, educados mas com pouco interesse. De resto, São Paulo refere-se frequentemente às dificuldades por que passou: “Fomos maltratados em extremo, acima das nossas forças, até ao ponto de perdermos a esperança de sobreviver” (2Cor 1,8). “Cinco vezes recebi dos Judeus os quarenta açoites menos um. Três vezes fui flagelado com vergastadas, uma vez apedrejado, três vezes naufraguei (…)” (2Cor 11,24). Em tudo isso sobreveio a graça de Cristo, que lhe respondeu: “Basta-te a minha graça, porque a força manifesta-se na fraqueza” (2Cor 12,9).

12. G.S. – “Gaudium et spes” (As alegrias e as esperanças), documento do II Concílio do Vaticano, aprovado em 1965, no final do Concílio, sobre a situação da Igreja no mundo contemporâneo em campos como a família, a economia, a política e a cultura. A primeira afirmação desta constituição pastoral ficou famosa: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo”.

13. Damasco. Cidade actualmente com 2,6 milhões de habitantes, capital da Síria. No tempo de Paulo, era a capital da província romana da Síria. Tinha sido conquistada por Escauro (enviado de Pompeu), no ano 64 a.C. Em Damasco havia uma comunidade judaica numerosa (Act 9,2 refere as “sinagogas de Damasco”).

14. Corinto. Cidade grega entre a Ática e a península do Peloponeso, actualmente muito conhecida por causa do canal artificial de 6 km para navegação marítima. No tempo de Paulo era a capital da província romana da Ácaia (a Grécia propriamente dita), só ultrapassada em importância no campo cultural por Atenas.

15. Cefas, do aramaico “kefa”, “rocha”. Nome imposto por Jesus a Simão, irmão de André, quando o convidou a segui-lo. “Fixando nele o olhar, Jesus disse-lhe: «Tu és Simão, filho de João. Hás-de chamar-te Cefas» – que significa Pedra” (Jo 1,42).