Bandeira a meia haste. Não é propriamente sinal de luto; mas é indício de mais uma frustração. “Quem ao mais alto sobe, ao mais baixo vem cair” – reza o ditado popular, e com acerto. O futebol propicia a euforia e os sonhos. Sonhámos demasiado rápido. E tudo se esfumou muito depressa. Ainda bem que essa não é a vida toda do País!
Mas pode ser um sinal. Há alguns indicadores que nos desenham, no concerto das nações, como um país de sonhos e sonhadores: investimentos públicos megalómanos, festivais de topo, projectos de ultra-modernidade tecnológica… E o país real, a grande maioria do povo, atordoado com os sonhos, em risco de cair em si a acordar em desespero, ao sentir o amargo das graves privações que o afectam!
Como é que ainda se acredita num futuro de optimismo, como é que ainda se proclama um país a abrir-se às portas de um paraíso, ignorando as realidades dolorosas, de pobreza declarada e profunda, de constrangimentos crescentes a atingir cada vez mais franjas significativas da população?… O sonho comanda a vida! É verdade! Mas implica que todos sejam esclarecidos sobre tais sonhos, que todos sejam envolvidos, que se estabeleçam etapas, patamares que se constituam em plataformas firmes de novos sonhos, impulsionadores de novos e mais ousados projectos. O sonho comanda a vida; mas pode movê-la por alienação!
É tempo de firmarmos bem os pés na terra! De deixarmos de querer ser os “bons alunos”, seguidores incondicionais de quem nos seduz para projectos que desvirtuam o sonho original de uma Europa de coesão social, uma casa comum de partilha e fraternidade, empurrando-nos para uma feira de vaidades…
Tenhamos consciência do que valemos – e valemos muito! E, sem deixarmos de ser solidários com esta Europa, que integramos, tenhamos uma fisionomia própria, à nossa medida, com a coragem de dizer não, quando essa for a atitude sensata. Por que se ignoram os “não” quando eles põem em causa os projectos de alguns, que querem arrastar os outros? Com alguns “não”, pode acontecer que a Europa e o País avancem melhor, tornando realidade os seus sonhos, tornando-os a vida por que ansiamos.
O fado pode não alienar. O futebol aliena com facilidade. Fátima tem dado sobejas provas de ser um apelo para que os sonhos façam crescer a pessoa humana, a sua dignidade, para que os indivíduos se concertem na entreajuda fraterna. Seguramente que um projecto de conversão interior nos não levará a viver de bandeira a meia haste.
