Censura debatida no ISCIA

A censura esteve em debate na tertúlia intitulada “A liberdade de expressão. «Estórias» da censura. E hoje?”, promovida pela Associação de Estudantes do ISCIA (Instituto Superior de Ciências da Informação e da Comunicação) de Aveiro, que convidou para o efeito Costa Carvalho, antigo director dos jornais “Jornal de Notícias”, “O Primeiro de Janeiro” e “O Comércio do Porto”, e actualmente docente no ISCIA, e Carlos Candal, antigo deputado aveirense. O deputado Manuel Alegre, devido a uma alteração de trabalhos na Assembleia da República, não pode estar presente.

Para os dois oradores convidados, a concentração dos meios de comunicação social, incluindo os de âmbito regional, num limitado grupos de empresas é o mais grave obstáculo à liberdade de expressão na actualidade, porque um jornalista que escreva algo que não agrade ao “patrão” do grupo económico que controla o seu jornal dificilmente conseguirá emprego noutro órgão de comunicação controlado por esse grupo económico. Por isso, Carlos Candal realçou que “os jornalistas têm que ter cuidado com o que escrevem, para não desagradar ao patrão”.

No período do Estado Novo, os jornalistas conheciam as “regras” ditadas pela censura do poder político. Hoje, isso já não acontece, porque as “regras” não são ditadas pelo poder político mas pelos interesses (económicos e outros) dos grupos empresariais que controlam os respectivos órgãos de comunicação.

De acordo com Costa Carvalho, a censura organizada começou, em Portugal, com a Inquisição. O período entre 1851 e a entrada de João Franco para a chefia do governo (no final da monarquia) foi o de maior liberdade de imprensa em Portugal.

Para Carlos Candal, liberdade de imprensa não significa “libertinagem”, porque a única coisa pior do que a limitação da liberdade de expressão é o excesso de liberdade, que resulta no insulto e na calúnia pessoal.

Como jornalista profissional desde 1960 e director dos três grandes diários da cidade do Porto, Costa Carvalho conheceu a censura do regime de Salazar e Marcelo Caetano. Carlos Candal também sofreu os efeitos da censura, como director do “Via Latina”, órgão da Associação Académica de Coimbra (jornal que dirigiu quando ganhou as eleições para presidente daquela associação, em 1960), e como autor, visto que lhe foi confiscado o original do livro “Em defesa das associações académicas”, com prefácio de Jorge Sampaio.