Ano Paulino, uma proposta pastoral

Terceira e última parte da Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa sobre o Ano Paulino (29 de Junho de 2008 a 29 de Junho de 2009)

Prioridade da experiência comunitária da fé

6. Para Paulo, o Evangelho (1)é uma força de comunhão(2). Jesus Cristo, ao atrair cada um a si, pela fé, deseja a Igreja onde se vive a caridade, a comunhão com Deus, por Jesus Cristo e com os irmãos. Paulo concebe a sua missão como um edificar contínuo da Igreja que Jesus Cristo, deseja e ama. O seu principal instrumento catequético são as suas cartas (3), todas elas directa ou indirectamente, dirigidas às Igrejas (4). Estas são o seu interlocutor. Catequizando as Igrejas, faz uma catequese sobre a Igreja.

Paulo acentua, antes de mais, a identificação da Igreja com o próprio Cristo. A união a Cristo, realizada no baptismo, é tão profunda, que a Igreja é a nova dimensão do Corpo de Cristo, a nova fase do mistério da encarnação (cf. 1Co 12,27; Rom 12,5). Deste novo corpo, Cristo é a cabeça, porque a Igreja vive e alimenta-se da plenitude de Cristo ressuscitado (cf. Ef 1,22-23; Col 1,18; 3,19). Paulo encarna, na sua solicitude pelas comunidades, o amor e a ternura de Jesus Cristo pela Igreja (cf. 2 Co 11,2-3, 29; 1 Tes 2,7-12).

O facto de as Igrejas serem a expressão da Igreja que Jesus Cristo quer e ama, faz da comunhão na fé e na caridade a grande exigência da unidade. Esta unidade não é a uniformidade humana, mas a participação da unidade de Cristo com o Pai, no Espírito. Paulo exprime quase sempre esta dimensão transcendente da comunhão e da unidade, nas saudações com que inicia as suas cartas às Igrejas (Cf Rom 1,7; 1 Co 1,3).

A unidade das Igrejas é preocupação contínua de Paulo e causa de muito sofrimento. Antes de mais, a preocupação de garantir que as Igrejas que nasceram da sua missão junto dos gentios estejam em comunhão com as Igrejas da Palestina, constituídas, sobretudo, por cristãos vindos do judaísmo. Leva as Igrejas da gentilidade a partilharem os seus bens com as Igrejas mais pobres da (5)Palestina (cf. Rom 15,25-27; 1Co 16,1-4; 2 Co 8-9; Gal 2,10). Mas para ele é sobretudo importante que a fé seja a mesma. Essa preocupação leva-o a Jerusalém, para se encontrar com os outros Apóstolos, e a reconhecer a primazia de Pedro (cf. Gal 1,18s; 2,1-10).

[parágrafo 5]

A efervescência carismática

em algumas Igrejas daquele tempo é um problema real para esta construção da unidade. Os princípios que o orientam são de uma actualidade flagrante: não há dons do Espírito estritamente para benefício individual, mas são dons para toda a Igreja e só esta é o juiz do seu discernimento (cf. 1 Co 12-14; Rom 12,3-8; Ef 4,1-16).

O Ano Paulino oferece-nos ocasião de uma reflexão pastoral sobre a verdade da Igreja e a maneira de construir a unidade da comunhão, na imensa variedade de carismas que voltaram a enriquecer a Igreja do nosso tempo. As estruturas da CEP (7) são chamadas a estar mais atentas a esta realidade que, se constitui uma riqueza da Igreja, é também o seu principal desafio na construção da unidade.

Corresponsabilidade na missão

7. A paixão por Jesus Cristo, Paulo transmitiu-a aos outros cristãos, infundindo neles o mesmo ardor pela missão. Esta torna-se, assim, expressão da caridade, na comunhão da Igreja. Paulo percebeu que toda a Igreja é chamada a ser, com os Apóstolos, corresponsável na missão. Agregou ao seu ministério (8) cooperadores zelosos: presbíteros (9), que “trabalham na palavra e na instrução” (1Tim. 5,17), cristãos, mulheres e homens, empenhados no “trabalho do amor” (1Ts. 1,3). No final da Carta aos Romanos, refere-se a eles com grande afecto: “Saudai Priscila e Áquila, meus colaboradores em Cristo Jesus, pessoas que, pela minha vida, expuseram a sua cabeça. Não sou apenas eu a estar-lhes agradecido, mas todas as Igrejas dos gentios” (Rom. 16,3-4).

Alguns destes colaboradores na missão tornaram-se muito próximos de Paulo, como Timóteo, Tito, Silas, partilhando com ele toda a aventura da missão. Alguns deles eram enviados pelas comunidades para junto de Paulo, garantindo o contacto permanente com o Apóstolo e sendo, junto dele, a expressão do amor das comunidades. É o caso de Epafrodito, que é enviado para acompanhar Paulo (cf. Fil. 2,19-30).

Podemos aprender com Paulo o fundamento da verdadeira corresponsabilidade dos cristãos na missão da Igreja, aspecto de grande actualidade quando o Concílio (10) tornou claro que a Igreja é o verdadeiro sujeito da missão e que todos os baptizados são corresponsáveis, segundo a sua graça própria ou o ministério que lhes foi entregue. A importância e especificidade do ministério ordenado não pode significar a clericalização da Igreja.

Propostas de meios pastorais para a vivência do Ano Paulino

[parágrafo 10]

8. Como acabámos de ver, o Ano Paulino oferece uma ocasião riquíssima para o nosso serviço às Igrejas. Cada uma encontrará os meios que considere os mais adaptados para o viver e celebrar. No entanto a CEP, órgão ao serviço da unidade de todas as Igrejas de Portugal, propõe a todas os seguintes instrumentos pastorais:

8.1. “Um ano a caminhar com São Paulo” (11). Trata-se de um itinerário catequético, tendo Paulo como guia, que além do conhecimento mais profundo do Apóstolo, nos fará percorrer, durante 52 semanas, as principais etapas do caminho cristão. Apresenta um tema para cada semana do ano e destina-se, além das pessoas individualmente, às famílias, aos grupos paroquiais, à pastoral juvenil, aos Movimentos.

8.2. A vivência da Liturgia. Os textos de São Paulo são dos que mais continuamente são lidos na Liturgia. Propomos, durante este ano, uma valorização destes textos, sobretudo nas homilias, não esquecendo que a Liturgia é a grande catequese da Igreja. A Comissão Nacional de Liturgia preparará elementos que ajudem os pastores das comunidades a realizar este objectivo.

8.3. Estudos sobre São Paulo. A Faculdade de Teologia, nos seus diversos Centros e Escolas filiadas, oferecerá ao Povo de Deus, sessões de estudos paulinos.

8.4. Valorização de outras ofertas, particularmente a apresentada pela família Paulista (12)(Padres, Irmãs paulistas e Pias discípulas).

[parágrafo 15]

8.5. A festa da conversão de São Paulo (13), no próximo ano, será celebrada ao Domingo. Será organizada uma grande celebração nacional nesse dia, na Igreja da Santíssima Trindade, em Fátima, centrada num aspecto englobante da doutrina de Paulo.

9. Ao celebrar o Ano Paulino, queremos ter o Apóstolo Paulo como guia inspirador da nossa missão de pastores, de todos os evangelizadores, de quantos, neste mundo secularizado, querem viver connosco a aventura da Igreja.

Para reflexão

1. Como concebe Paulo a missão? (Parágrafo 1)

2. Com quem identifica Paulo a Igreja? (Parágrafo 2)

3. “A unidade das Igrejas é preocupação contínua de Paulo”. Por que considera Paulo a unidade das igrejas algo tão importante? (Parágrafos 3 e 4)

4. Quais os nomes dos (alguns) colaboradores de Paulo? (Parágrafos 7 e 8)

5. Que instrumentos pastorais propõem os bispos portugueses para viver e celebrar o Ano Paulino?

NOTAS

1. Evangelho – “Evangelho” significa literalmente “boa notícia” (“eu” + “aggelion”). A palavra era usada na literatura não religiosa precisamente com esse sentido. O mensageiro era recompensado por trazer uma “boa notícia” (a vitória numa guerra, por exemplo). No NT, Paulo é quem mais usa “evangelho”, 60 vezes, e “evangelizar”, 21, num total de 76 e 54, respectivamente. No contexto deste documento, Evangelho refere-se não aos quatro evangelhos, mas à Boa Notícia que é Jesus Cristo.

2. Comunhão – Mais uma palavra de origem grega. “Koinonia” significa “acção de ter em comum, de participar em”. O termo não aparece nos evangelhos, mas é muito usado por Paulo. Cristo constitui uma comunhão com o Pai; os cristãos constituem uma comunhão com Cristo, no Espírito Santo. E são chamados à comunhão uns com os outros. A comunhão é característica da Santíssima Trindade, de que a Igreja é (deve ser) imagem: povo de comunhão.

3. Cartas – Mais de um terço do Novo Testamento são cartas. São Paulo escreveu às igrejas de Tessalónica (1.ª), Roma, Galácia, Corinto (1.ª e 2.ª), Filipos e a Filémon. As cartas às igrejas de Colossos, Éfeso e Tessalónica (2.ª) foram escritas após a morte de Paulo, bem como as cartas aos pastores Timóteo (1.ª e 2.ª) e Tito (e, por isso, chamadas “pastorais”), mas situam-se dentro da “escola paulina”.

As cartas seguem o formulário da época e destinam-se a leitores concretos. Das que foram escritas durante a vida de Paulo, apenas uma é privada, a dirigida a Filémon.

4. “Igreja” tem aqui o sentido de “comunidade”, de “discípulos de Cristo”. Paulo escreve sempre à igreja-comunidade de determinada terra, “aos santos em Cristo”, e não propriamente a todos os habitantes desse lugar.

5. Palestina – Um dos muitos nomes do “país bíblico”. No tempo de Jesus e Paulo, a Judeia, parte sul da Palestina, era governada pelo procurador romano Pôncio Pilatos, enquanto a Galileia, parte norte, estava sob o domínio de Herodes Antipas.

6. Carismática, de carisma, “dom”. Em todo o Novo Testamento, a palavra só se encontra em São Paulo (16 vezes) e na primeira carta de Pedro (1 vez). “Carisma”, de certa forma, opõe-se a “graça”. Os carismas são dons passageiros. Devem estar em função da edificação da comunidade, mas não são necessários para a salvação, ao contrário da graça, que santifica.

7. CEP – Conferência Episcopal Portuguesa. Conjunto dos Bispos das dioceses portuguesas. São membros de pleno direito da CEP os Bispos residenciais e titulares (coadjutores e auxiliares); os eméritos têm voto consultivo. A CEP foi formalmente reconhecida a seguir ao Concílio, em 1967, mas desde o início do séc. XX que os bispos portugueses tomavam posições em conjunto, como a quando da Lei da Separação (1911).

8. Ministério – “Ministério” quer dizer “serviço”, que em grego se diz “diaconia”, de onde vem a palavra diácono. A palavra “diaconia”, prescindindo dos escritos de Lucas (Evangelho e Actos), apenas é usada por São Paulo nos escritos do Novo Testamento.

9. Presbíteros – Na origem, é sinónimo de “ancião”. Mas a questão que os biblistas põem é: nas cinco vezes em que se fala de presbíteros no Novo Testamento, fala-se de anciãos ou de pessoas que são “como anciãos”, que na antiguidade eram considerados sábios e com autoridade? Hoje, presbítero é o que possui o segundo grau da ordem.

10. Concílio – Trata-se da reunião dos Bispos de todos o mundo, que decorreu no Vaticano, de 1962 a 1965.

11. “Um ano a caminhar com São Paulo”, obra de autoria de D. Anacleto de Oliveira, bispo auxiliar de Lisboa. Consiste em 52 propostas de catequese (uma por semana) para o Ano Paulino. Está editado pela Gráfica de Coimbra e custa 4,20 euros na Livraria Santa Joana. (ver página 6).

12. Família Paulista – Conjunto de institutos fundados por Tiago Alberione (Itália, 1874-1971). A família Paulista dedica-se em especial à evangelização através da imprensa, dos audiovisuais, da comunicação social. Em Portugal, estão presentes cinco dos 11 ramos da família paulista, destacando-se as Filhas de S. Paulo, que detêm as edições Paulinas, e a Sociedade de São Paulo (Padres Paulistas), que detêm a editora Paulus e publicam a revista Família Cristã.

13. Festa da conversão de São Paulo – Celebra-se a 25 de Janeiro, que em 2009 será ao Domingo. Coincidindo com o dia da Ressurreição, em circunstâncias normais, a festa não seria celebrada. Tratando-se de um ano especial, a Santa Sé já veio autorizar esta celebração.