Questões Sociais O capitalismo é o rosto actual da opressão e da «exploração do homem pelo homem», que sempre existiu ao longo da história. É também uma deturpação grave da economia de mercado e vem revestindo, nas últimas décadas, a modalidade de «tecnocapitalismo», devido à sua estreita «aliança» com a investigação e a inovação de natureza científica e tecnológica: – o capitalismo socorre-se da ciência para aumentar os seus lucros; e a ciência socorre-se do capitalismo para atingir alguns dos seus objectivos. Entre estes incluem-se o aumento do saber, o acesso a empregos altamente remunerados e a influência exercida sobre outros poderes. As questões relativas ao estatuto social dos cientistas relacionam-se directamente com estas preocupações.
Evidentemente, não decorre da natureza da ciência a sua aliança com o capitalismo, e são inúmeros os cientistas e as unidades de investigação que vivem noutro comprimento de onda. Muitos só a contra-gosto é que entram neste jogo, sentindo-se verdadeiramente utilizados por ele. Por outro lado, na maior parte dos casos, os principais beneficiários desta «aliança» não são os cientistas mas sim as pessoas – em geral diplomadas com cursos superiores – que ascendem a lugares cimeiros de gestão, de orientação técnica, de consulta e de prestação de serviços de qualquer natureza. Os titulares de altos cargos de gestão situam-se entre os principais beneficiários das instituições onde pontificam; correm um risco inferior ao dos accionistas e auferem ganhos superiores à grande maioria deles. Nos Estados Unidos como noutros países, mesmo entre nós, o problema tem sido aflorado com enormes cautelas, sem se vislumbrarem perspectivas de solução; em geral, talvez nem seja assumido como problema de fundo, mas tão só como simples excesso pontual.
As super-remunerações constituem desigualdades gritantes e geram outras desigualdades em cadeia, integrando-se no clima desigualitário que provém do «capitalismo rígido» («Laborem Exercens) e de todas as outras modalidades de opressão e de «exploração do homem pelo homem». Esse clima vem sendo objecto de denúncia e contestação de base ideológica, política, doutrinária, ética e religiosa mas não é objecto de análise científica sistemática, através da qual se expliquem os processos e as causas das grandes desigualdades sócio-remuneratórias e se demonstre se é ou não possível evitá-las. Com esta omissão, a par de outras, as instituições, científicas ou não, com responsabilidades morais furtam-se à luta científica a favor da justiça e do bem comum e procedem como se, devido ao princípio da isenção, as condicionantes sócio-políticas se devessem aceitar como um dado, para cuja alteração a ciência não pode contribuir.
