À Luz da Palavra – XVII Tempo Comum – Ano A A liturgia deste domingo, toda ela está impregnada de sabedoria bíblica, coloca o assento no “ser”, bem ao contrário da sociedade contemporânea, que é, fundamentalmente, caracterizada pela ânsia do ter; por isso se chama sociedade do consumo. Os actores bíblicos deste domingo escolhem o “melhor”, isto é, não o ter muitas coisas, mas aquilo que dá verdadeiro sentido ao seu ser. Diríamos que privilegiam o “ser” sobre o “ter”.
A primeira leitura relata-nos o pedido que o rei Salomão faz a Deus. Ele teve possibilidade de pedir tudo ao Senhor. Contudo, o que pediu, foi um “coração inteligente para saber distinguir o bem do mal”, para bem governar o seu povo. Este pedido foi tão agradável a Deus, que lhe prometeu dar um coração sábio e esclarecido, como nunca houve antes dele nem haverá depois dele. Não há nenhum crente que não peça muitas coisas a Deus. Mas será que sabemos pedir? Talvez insistamos mais nos bens materiais, na saúde, no êxito… e não ponhamos em primeiro lugar o pedido da sabedoria, pois é ela que governa toda a nossa vida! O que peço eu, habitualmente, na minha oração?
No evangelho, Jesus narra três breves parábolas do Reino. Nas duas primeiras, trata-se de um homem que fez um bom discernimento, ao trocar tudo o que tinha para comprar o campo ou a pérola, porque no campo havia um tesouro escondido e, a pérola era preciosa. É evidente que estas imagens exprimem o Reino de Deus e a sua busca pela nossa parte. O cristão e a cristã, que têm um coração sábio e esclarecido, como o que o Senhor deu ao rei Salomão, sabem orientar a sua vida pelos valores evangélicos. Entre mil e uma coisa que têm a fazer, entre mil e um bem material que podem adquirir, sabem distinguir, pela acção do Espírito Santo, aquilo que lhes dá maior felicidade. Sabem hierarquizar os valores e são capazes de escolher. Então, optam por Jesus e pelo seu seguimento, e conseguem, por exemplo, renunciar a um prazer imediato para usufruir de um bem durável. Dão o primeiro lugar à oração de louvor e acção de graças, não deixando também de pedir os bens de que precisam. Guardam o domingo como o grande dia da oração comunitária, da família, do convívio e da caridade. Participam na Eucaristia, porque sabem que é a grande festa da comunidade cristã. Procuram, em primeiro lugar, Deus e a santidade, porque sabem que o resto lhes será dado pelo Pai que vela por eles. Para isso, é preciso pensar e decidir, saber optar. Como organizo a minha vida e o meu tempo? Sei distinguir o que é essencial do acessório? Dou a Deus o lugar que lhe cabe na minha vida?
A segunda leitura diz-nos que nada temos a temer, porque Deus sabe bem o que é melhor para nós; se amamos a Deus, sabemos que tudo o que nos acontece concorre para o nosso bem. Por isso, se vivermos com Jesus, como filhos do Reino, nada nos faltará, porque somos felizes a partir do nosso interior. Invisto no esforço de me assemelhar a Jesus, vivendo o discipulado, e tenho consciência de que, quanto ao resto, nada me faltará?
Domingo do XVII do Tempo Comum: 1 Re 3,5.7-12; Sl 119 (118); Rm 8,28-30; Mt 13,44-52
Deolinda Serralheiro
