Há 50 anos (13-7-1958) D. António Ferreira Gomes “confrontou” Salazar

Eu, ainda jovem e estudante, acompanhei todo o processo relacionado com o “divórcio” Bispo do Porto, Salazar.

De harmonia com o estabelecido na Concordata, na altura, a Santa Sé, quando pretendia nomear um Bispo para uma diocese de Portugal ou para outro cargo, apresentava, através da Nunciatura Apostólica, três nomes ao Governo presidido por Salazar. Geralmente, o Governo não apresentava qualquer objecção à nomeação ou escolha de qualquer dos candidatos.

Se o Presidente do Conselho previsse a oposição ao seu governo que o futuro Bispo do Porto lhe iria fazer, sem dúvida que, à partida, indexava o nome de D. António Ferreira Gomes.

Isso não aconteceu e D. António, com o irrequietismo que lhe era próprio, arriscou um combate que lhe custou o exílio.

D. António Ferreira Gomes aspirava a uma Igreja com liberdade de acção no campo do ensino, doutrina social, no campo cívico-político, o que, na sua maneira de ver, não acontecia com a Igreja em Portugal.

As ideias avançadas do Bispo do Porto geraram um mal estar tal entre a Igreja e o Estado, que a Santa Sé aconselhou D. António a suspender as suas funções e fazer uma viagem apostólica até Roma, onde permaneceu durante algum tempo.

Mais tarde, o Professor Marcelo Caetano, com uma visão política diferente do seu antecessor, pediu o seu regresso à diocese. O que veio a acontecer.

Do meu ponto de vista, conclusões a tirar deste acontecimento ocorrido há 50 anos:

1) – Os nossos Bispos, por quem tenho a maior consideração, respeito e estima, não devem ter medo, nem acanhamento de denunciar o que vai mal no País, no que diz respeito às tomadas de posição do actual Governo, nomeadamente, em que é atingida a Igreja Católica na sua acção evangelizadora e apostólica. E aqui, saúdo D. António Marcelino, porque o merece.

2) – Não concordo com a afirmação do Dr. José Manuel Pureza, professor universitário de Coimbra, quando, ao comentar no Jornal de Notícias de 15 de Julho a posição do Bispo do Porto, diz: “Ser católico é uma filiação clubística, com deveres de lealdade típicos de uma seita”. A Igreja Católica uma seita?! Que mais hei-de ouvir em Portugal…

3) – Ao ilustre Doutor Catedrático, respondo-lhe com o Poeta Miguel Trigueiros: “Se é loucura ter fé, sejamos todos loucos”.

Basílio de Oliveira