D. Manuel de Almeida Trindade e a Manifestação dos cristãos de Aveiro no ‘Verão quente de 75’

No “Correio do Vouga” de 12 de Agosto, no seu número especial de Homenagem a D. Manuel de Almeida Trindade, Bispo de Aveiro, na pág. 10, escrita por António Marujo, há algumas informações ou afirmações que são erradas, pelo que se torna indispensável corrigi-las para repor a verdade histórica dos factos.

1. Escreveu António Marujo: “No dia 7 de Julho de 1975, o bispo de Aveiro ainda demorou a tomar a decisão da sua vida. Manuel de Almeida Trindade era um homem discreto e prudente, que prezava os valores tradicionais. Mas acabaria por convocar para o dia 13 desse mês a primeira de várias manifestações de católicos que, no “Verão quente” de 1975, reivindicaram a propriedade católica da Rádio Renascença e ajudaram a arrefecer os ímpetos do Governo de Vasco Gonçalves.” (…)

Para repor a verdade histórica dos factos é indispensável dizer-se: não foi D. Manuel de Almeida Trindade que “convocou” essa Manifestação. Dizer ou escrever que ele a “convocou” é errado, não é a verdade; nem a “convocou”, nem a sugeriu, nem a promoveu nem a organizou. Quem decidiu fazê-la, quem a promoveu, quem a organizou foi um grupo de católicos da Diocese, constituído por alguns leigos – homens e mulheres – e alguns padres, que se reuniram no dia 8 de Julho, 3a feira, para ponderarem a hipótese de se se devia fazer uma manifestação ou não; e, se sim, se devia ser no domingo a seguir, dia 13, ou no outro, dia 20. Eram 19h20, quando os presentes tomaram a decisão de fazer, de organizar a manifestação, e fazê-la logo no domingo seguinte, dia 13. Nesta reunião, foram as mulheres presentes as primeiras a declarar, em tom determinado, convicto e firme, que a manifestação se fizesse, e logo no domingo seguinte. Esta atitude tão convicta, firme e determinada foi apoiada pelos outros presentes, mesmo pelos que, antes de entrarem para a reunião, estavam reticentes. A decisão estava tomada. Agora era necessário fazer as diligências necessárias, e a primeira era dar a saber ao Bispo da Diocese, D. Manuel de Almeida Trindade (o que fizemos em audiência já solicitada com a indicação do assunto a tratar), da decisão que tinha sido tomada e da necessidade de ele estar presente, pois ela era destinada a manifestar o apoio dos católicos da Diocese ao seu bispo, e, na pessoa dele, ao episcopado português, pela atitude pública tomada a reclamar a restituição da Rádio Renascença à Igreja (Renascença que, recorde-se, tinha sido ocupada – a sede e o posto emissor de Lisboa – pelas forças ou organizações revolucionárias do P.R.E.C. – esquerda comunista e extrema esquerda). Quando lhe dissemos que a manifestação era já no próximo domingo, disse-nos que, nessa data, teria dificuldade, pois estava para partir para Roma para tratar de assuntos relativos ao Colégio Português e nessa data seria difícil poder já estar em Aveiro. Dissemos-lhe que ele tentasse tratar os assuntos a tempo de estar em Aveiro, no domingo, às 17h.; no caso de não ter tempo de tratar todos os assuntos, que viesse, ainda que tivesse de voltar a Roma, que nós lhe pagaríamos a despesa da nova viagem. E assim ficou combinado. (A ele já tinham apresentado, no dia 5, sábado, a ideia, a sugestão de se fazer a manifestação, dois padres – o P. José Henriques da Silva e o P. Alfredo Rei -, depois de terem ouvido a opinião do vigário geral de então, P.e António dos Santos, que lhes deu opinião favorável, depois do que disseram a outro padre – o P.e Belinquete, – que era preciso que este aceitasse organizá-la.).

D. Manuel de Almeida Trindade não se opôs à decisão tomada e que lhe transmitimos. Tivemos “luz verde”; podíamos avançar. E foi o que fizemos. Estes são os factos históricos que aqui são escritos por quem acompanhou todos os passos, desde a origem.

Que a Manifestação não foi “convocada” por ele, ele próprio o afirmou no seu breve discurso, no final da Manifestação, dirigindo-se à multidão, calculada em cerca de, para uns, 40.000, para outros, 50.000 pessoas (segundo estimativas de jornalistas estrangeiros que se encontravam em Aveiro para fazer a cobertura do acontecimento). A multidão tinha-se concentrado no Largo da Estação da C.P. para receber o seu bispo, que chegaria de comboio, e manifestar-lhe o seu apoio. Desfilou a seguir pela Av. Dr. Lourenço Peixinho com a ordem e um civismo admirados por quantos assistiam (sem quaisquer forças policiais a acompanhar o desfile), em direcção à Sé Catedral, em cujo Largo e ruas que a ele vinham dar se tinha concentrado.

Disse D. Manuel de Almeida Trindade com voz forte, convicta, a começar o seu discurso: “ Eu sinto-me plenamente à vontade, hoje, em Aveiro. E sinto-me plenamente à vontade, em primeiro lugar, porque eu não promovi esta manifestação.”

“E sinto-me plenamente à vontade porque sei que esta manifestação não é para o bispo de Aveiro como tal, mas é para o Episcopado Português que ele aqui representa.”

(…)

“E sinto-me, por fim, e ainda, plenamente à vontade, porque esta não é uma manifestação partidária. Não é! Não foi promovida por nenhum partido político, embora possam estar aqui pessoas que pertençam a partidos políticos diversos. Mas esta não é uma manifestação partidária. É uma manifestação de homens que se sentem no seio da Igreja e aí encontram um espaço de liberdade para poderem viver.”

(…) “Existem cristãos em todas as dioceses de Portugal. Oxalá que o exemplo de Aveiro desperte os cristãos, do Minho ao Algarve, e que se apresentem, assim, em massa, a apoiar os seus bispos!

“Que os cristãos, se porventura, têm vivido adormecidos, acordem, finalmente! Acordem! Acordem!”

2. Escreveu António Marujo: (…) “Conta o antigo secretário que, naquela noite, Trindade chegou a temer ser detido (alguns manifestantes foram) e que houve documentos importantes retirados de casa.”

Esclarecemos: não é verdade que tenha sido detido qualquer manifestante; nem dos organizadores nem dos manifestantes ou participantes na manifestação. Repetimos e reafirmamos: ninguém foi detido. Foi ‘saneado’, isso sim, da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, o estudante do 4° ano, Aulácio Manuel da Costa Almeida, em ‘A M’ (Assembleia Magna), acusado de ter estado “à frente da manifestação fascista de Aveiro” e de “organizador da recente manifestação ultra-reaccionária de Aveiro”, num folheto, um pasquim em que transpirava em cada frase ódio, texto de que temos um exemplar em nosso poder, escrito pelo “Núcleos Sindicais de Economia”, datado de 15/7/75. Isto foi uma acusação falsa, mentirosa, caluniosa, malévola, ignóbil, pois este estudante não teve qualquer interferência ou participação na organização da Manifestação; apenas terá participado no desfile (e dizemos terá porque não o vimos lá) como qualquer um dos muitos milhares de cidadãos que nele tomaram parte.

António Marujo atribui a João Gaspar, secretário que foi de D. Manuel, que, na noite da Manifestação, teria havido ‘documentos importantes retirados de casa.’ O que o P.e João Gaspar disse à Agência Ecclesia, declarações transcritas no jornal diocesano Correio do Vouga foi que “chegámos a retirar de casa alguns valores estimativos e importantes.” Isto é uma rectificação, mas que consideramos sem importância de maior.

Padre José Belinquete