Nota da Redacção
O “Correio do Vouga” pediu ao jornalista António Marujo uma reacção aos esclarecimentos do P.e Belinquete.
Refira-se, ainda, que, por lapso deste semanário diocesano, não foi referido na edição de homenagem a D. Manuel de Almeida Trindade (12 de Agosto) que o texto de António Marujo fora publicado originalmente na edição do “Público” de 7 de Agosto de 2008.
Agradeço ao P.e Belinquete os pormenores aduzidos sobre a manifestação de Julho de 1975.
1. Admito que o verbo “convocar” talvez não seja o melhor. Mas é o próprio D. Manuel Trindade, que diz no seu livro “Memórias de um Bispo” (fonte principal para o texto que escrevi), sobre o momento em que lhe foi apresentada a proposta de manifestação: “Competia-me a mim decidir. E decidi. Sim.” E um pouco mais à frente: “… Dei as orientações que me ocorreram.”
Ora, se não foi o bispo a ter a ideia, a sugerir, promover ou convocar a manifestação, parece-me evidente que, sem o seu acordo, ou a sua decisão, ela não se teria sequer realizado. De resto, há pormenores da carta que não coincidem com o que D. Manuel conta no livro referido. Por exemplo, ele reproduz do diário pessoal que no dia 7 de Julho recebeu os dois padres citados na carta, que lhe propuseram a realização da manifestação. O padre Belinquete escreve que os padres se reuniram a 8 e apresentaram a proposta ao bispo nesse dia, ao final da tarde. Mas são pormenores, porventura retidos de modos diferentes por memórias diferentes.
2. Nesta questão, não sou eu que atribuo as afirmações a monsenhor João Gaspar, mas sim a agência Ecclesia, cujo texto citei, como refiro (e que está ainda disponível na internet: http://www.agencia. ecclesia.pt/noticia.asp?noticiaid= 63128). Dizia o então secretário de D. Manuel, citado pela Ecclesia: “Nessa noite temeu-se a sua detenção, ‘mas contámos com a defesa popular. Alguns homens de um grupo de Anadia, dias depois da manifestação, estiveram sentados à frente da casa, para prevenir’, explica o secretário, acrescentando que ‘chegamos a tirar de casa alguns documentos importantes’. Na noite da manifestação ‘alguns intervenientes foram presos, logo libertos, mas ele receou que algo lhe pudesse acontecer também’.
O texto com as declarações de monsenhor João Gaspar, publicado na edição especial do Correio do Vouga e citado pelo padre Belinquete, é uma versão corrigida e acrescentada em relação ao que foi publicado na Internet. Por isso, só no jornal vi que monsenhor João Gaspar corrigiu o primeiro pormenor (“chegámos a retirar de casa alguns valores estimativos e importantes”), mas manteve o segundo (“vários intervenientes foram presos, mas libertos poucos dias depois”). Assim, pelos vistos, em relação às detenções, as duas versões da história são completamente diferentes. E seria importante esclarecer o que de facto aconteceu.
António Marujo
