CARMELITAS DESCALÇAS DO CARMELO DE CRISTO REDENTOR
Hoje, queremos falar da realidade do trabalho vivido no “mundo da clausura”. E queremos fazê-lo desde o Carmelo, a “casa” de Teresa e de João da Cruz, onde ela “fiava e cozinhava” com gosto, e onde ele trabalhava como “pedreiro e hortelão”. Casa “soalheira” para Isabel da Trindade, que nunca estava ociosa, segundo o que dizem dela as Irmãs; “Cátedra” para Edith Stein, onde conseguiu a melhor síntese entre ciência e Cruz; “campo de batalha” para Teresa de Lisieux, que morreu com as armas na mão… Resumindo, Vinha do Senhor onde todas as manhãs milhares de mulheres somos contratadas por Jesus Cristo para trabalhar na construção do seu Reino.
Adivinha-se assim a nossa forma de trabalhar: Oramos trabalhando e trabalhamos orando. Pode parecer que é a mesma coisa, mas é e não é…
É um estilo de vida
Para muitos o trabalho na clausura pode ser novidade, para outros pelo contrário, a clausura é inconcebível sem trabalho. A verdade é que as Irmãs trabalham sendo solidárias com todos aqueles que ganham o “pão com o suor do seu rosto”. São vários os trabalhos que realizamos: desde o cultivo da terra, à criação de animais, passando pela pintura, pelo restauro de imagens, confecção de paramentos, de terços e escapulários, até outros mais estruturados como é o caso da confecção de hóstias, não esquecendo as lides do convento.
A nossa jornada laboral oscila entre quatro a cinco horas diárias distribuídas, segundo circunstâncias e lugares, num horário que marca e unifica o ritmo de trabalho. Deste modo, todas sentimos que participamos numa nova ordem de comunhão e harmonia, marcada pela colaboração e o estímulo, a exigência e a disciplina, a ajuda e a aprendizagem… Mas nem sempre é assim, temos de admiti-lo, às vezes perde-se a calma e surgem pequenas tensões que depressa são apaziguadas com a reflexão, o diálogo e o perdão mutuo.
Mas a novidade do “estilo de viver o trabalho” não está no que fazemos, nem na quantidade do trabalho que fazemos, ainda que seja isto o que nos torna solidárias com os demais trabalhadores, mas no “COMO” trabalhamos: “Fazemos com alegria e simplicidade o que nos é mandado”. É uma meta que nos desafia e nos serve de orientação de vida. E é assim, simplesmente porque:
Trabalhamos orando
Que é o verdadeiro e real trabalho duma contemplativa. Um trabalho que se concretiza na ESCUTA DA PALAVRA: aquela pela qual Deus, o grande trabalhador, fez todas as coisas do céu e da terra. Escuta também, das mil e uma palavras da humanidade, nos seus emaranhados e subtis matizes de silêncio, sussurro, canto, grito, gemido e queixume… e das outras que são puro vazio porque não têm conteúdo…
Escuta dificílima, que exige um grande esforço de constância e atenção, de presença consciente, sem férias, nem folgas… Trabalho difícil, porque supõe decifrar e incorporar todas essas palavras à própria existência, chegando ao coração da solidariedade universal.
Trabalho que se pode expressar através da proximidade e do acolhimento. Por isso, o “estar ocupadas” durante o dia tem o duplo sentido humano de ganhar o pão, e ao mesmo tempo, ser ponto de partida e meio concreto de realização do trabalho contemplativo.
Existe ainda uma outra faceta cheia de beleza pela sua terapia equilibradora dos ânimos: a mudança na forma de “ocupação”, que é uma das muitas maneiras de assumir e reassumir a carga negativa que implica o esforço de trabalhar.
No Carmelo, as próprias “colegas” de trabalho são a família que é necessário alimentar, os “empresários” a quem obedecer e até as “trabalhadoras” a quem é necessário mandar.
É impossível separar trabalho manual e contemplativo, porque o primeiro perde o seu encanto sem o segundo. As imagens falam por si! Como é bonito ouvir as Irmãs contar como escutaram essa Palavra criadora de Deus nos seus trabalhos! Com que alegria, com que gozo O descobrem e O contemplam no que fazem. Por exemplo, uma irmã que trabalha na horta que, com um ar muito feliz, diz: “As coisas (o que cultiva) ensinam – me a conhecer a Deus”.
Daqui à atitude de Agradecimento ao Dono da Vinha vai só um passo. E esse passo está chamado a dá-lo o coração de cada homem e mulher, que é a “terra” que Deus mesmo trabalha, quando se humaniza com a própria actividade do trabalho e coopera com Deus, tornando-se “Senhor da Criação”.
