D. Francisco Barbosa da Silveira, Bispo de Minas (Uruguai): eira é Bispo de Minas, Uruguai. Após a visita dos bispos uruguaios a Bento XVI, no Vaticano, passou pela Diocese de Aveiro, para conhecer a terra de origem da sua família, a Murtosa, onde foi acolhido com grandes sinais de afecto pela comunidade cristã e pela Câmara Municipal.
O Correio do Vouga conversou com D. Francisco Barbosa da Silveira sobre as suas origens familiares, mas também sobre a Igreja neste país da América do Sul – comunidade geograficamente longe, mas espiritualmente próxima.
D. Francisco Barbosa da Silveira, 64 anos, foi ordenado padre em 1972 e bispo no dia 8 de Maio de 2004.
CORREIO DO VOUGA – Como soube que as suas origens familiares estão na Murtosa?
D. FRANCISCO BARBOSA DA SILVEIRA – Há muitos anos, em 1990, tive a oportunidade de vir a Aveiro participar num encontro da Federação Internacional dos Movimentos Rurais Cristãos. Estivemos na casa de encontros de Albergaria quase um mês. Falando com gente daqui, um senhor que pertencia ao movimento da Acção Católica Rural, notando que eu tinha sobrenomes portugueses, explicou que “os Barbosas” tinham emigrado a partir da Murtosa. Nessa oportunidade não tive tempo de conhecer a Murtosa e também não conhecia o Bispo de Aveiro. Mas sempre cultivei o sonho de um dia poder vir a conhecer a Murtosa.
Antes disso não sabia que tinha ascendência portuguesa?
Sabia. Ao falar com os meus familiares mais velhos, sempre me disseram que os nossos antepassados vinham de povo pequeno, de Portugal, onde se trabalhava nas salinas, ligado ao mar, à pesca. Com o passar do tempo, através do correio electrónico, entrei em contacto com D. António Francisco e disse-lhe que depois da visita a Roma teria oportunidade de visitar Aveiro. Ele respondeu que me acolheria com muito gosto na sua casa e me acompanharia na visita à Murtosa.
Foi bem acolhido na Murtosa?
Nunca imaginei que me recebesse com tanta honra, com tanto carinho e manifestações de amizade e de reconhecimento. Não imaginava tal coisa e os meus familiares [no Uruguai] ainda menos.
Celebrei a Eucaristia às 10h30 na Murtosa. Cheia de gente. Saí à porta, costume que temos no Uruguai, para saudar o povo e porque era uma maneira de ficar mais perto desta gente tão atenta e tão generosa que foi à missa não só porque tem de ir, mas também para conhecer o bispo que tinha aí os seus antepassados. Mais tarde, celebramos a Missa na paróquia da Torreira. Comoveu muito presidir à celebração em que os escuteiros faziam a promessa. Durante muitos anos, sendo padre jovem, trabalhei como assistente de escuteiros. Voltei a colocar ao pescoço o lenço de escuteiro!
Pelo que vi na Europa, primeiro na Itália, depois em Espanha e agora em Portugal, é muito reconfortante a presença de crianças, jovens e adolescentes na igreja. Em algumas terras só encontramos gente mais velha.
Também passou por Fátima…
Já lá tinha estado em 1990. Mas não tinha tido a oportunidade de participar num dia 13, com a procissão das luzes, das velas – como vocês dizem. Foi um gesto que tenho de agradecer muito ao D. António Francisco, que pôs à minha disposição um sacerdote com o seu automóvel, para que eu participasse nas celebrações de Domingo à tarde (12 de Outubro). Participei na procissão e na Missa. Impressionou-me muitíssimo aquele espectáculo das velas, o clima religioso de oração que se sentia, a celebração da Eucaristia na esplanada do santuário… Na segunda-feira (13), outra procissão, com mais bispos, presidida pelo cardeal da Lituânia. Nessa Eucaristia já estava também D. António Francisco.
Pelas suas palavras podemos depreender que gostou desta viagem às suas raízes familiares e também de espiritualidade…
Estou muito grato. Quero que conte no jornal diocesano a minha gratidão por ter participado nas celebrações de Fátima – tive também a oportunidade de conhecer D. Albino, Bispo de Coimbra, que viajou connosco no regresso e nos recebeu na sua casa.
Expresso o meu agradecimento a todas as pessoas que se dispuseram a organizar esta minha visita. Destaco a Câmara Municipal da Murtosa, principalmente o presidente Santos Sousa, o vice-presidente Joaquim e os vereadores. Receberam-me no sábado (11 de Outubro), ofereceram-me o almoço e propor-cionaram-me um passeio de moliceiro pela Ria. Foi algo muito emotivo. Estabeleceu-se um vínculo de amizade. Depois receberam-me na Câmara Municipal e ofereceram-me recordações da Murtosa, que já estão arrumadas nas minhas malas, porque na minha pessoa vêm todos os meus familiares, os meus irmãos e primos. Estão todos à espera que regresse para contar o que aconteceu cá por Aveiro. Através de algumas mensagens de telemóvel, já com eles fui comunicando, mas eles estão numa grande expectativa.
O Sr. Bispo tem um grande sentido de família…
Fomos educados num profundo sentido da família, sentido de pertença. E isto que estou a viver não é mais do que uma expressão do que herdámos dos nossos pais, que nos leva a valorizar os nossos antepassados, os nossos mais velhos e a transmitir este sentimento às novas gerações. Digo isto e sinto-me emocionado. Na minha pessoa, estamos a viver um encontro com as nossas raízes. Não se trata de um passeio turístico… É uma peregrinação às nossas raízes, que nos permitiu, a mim e a todos os meus irmãos e primos mais velhos, encontrar neste espaço, nesta forma de viver, e sobretudo na maneira de ser das pessoas de cá, algo parecido com o que recebemos na nossa família: a capacidade de acolhimento, de oferecer amizade. Parecia que nos conhecíamos desde sempre. Levo-os no meu coração e sei que fico no coração deles.
“A Igreja tem um projecto que é o sonho de Deus”
CORREIO DO VOUGA – A passagem por Aveiro acontece depois de ter visitado, com os outros bispos do Uruguai, Bento XVI…
D. FRANCISCO BARBOSA DA SILVEIRA – É sempre uma experiência muito importante ser recebido pelo Papa e por todos os colaboradores do Papa, os dicastérios romanos: congregações, conselhos, comissões… Foi uma visita que renovou o nosso ânimo, o nosso entusiasmo pastoral. Deu-nos muito alento a palavra do Papa. Bento XVI valorizou as nossas orientações pastorais. No encontro pessoal do Papa com cada um de nós, encontramos o pastor que se preocupa com a igreja universal e que se esforça por conhecer, escutar e valorizar a caminhada de cada uma das igrejas.
Tal como os bispos portugueses, na visita Ad Limina de Novembro do ano passado, a Conferência Episcopal do Uruguai apresentou as dificuldades e de desafios da Igreja no Uruguai. Podemos saber quais são?
Uma das necessidades do nosso povo e da nossa Igreja é aquilo a que chamamos caminhar à luz do documento da V Conferência Episcopal dos Bispos da América Latina e do Caribe, na Aparecida (Brasil), onde estive como bispo delegado Uruguai. Nesse documento fala-se da necessidade de ajudar os cristãos a passarem de baptizados a discípulos, missionários de Jesus Cristo. Foi isto que partilhamos com o Papa, porque ele próprio tinha proposto este tema para a V Conferência: “Discípulos e missionários de Jesus Cristo, para que os nossos povos nele tenham vida”.
Como se concretiza essa passagem de simples baptizados para discípulos e missionários?
Esta passagem implica uma redefinição da nossa identidade cristã. Os cristãos não são clientes da Igreja. Não somos cristãos por estarmos registados nos livros da Igreja. Somos cristãos porque recebemos uma vocação. Um chamamento a ser discípulo de Jesus Cristo. Então, o que significa ser um baptizado discípulo? Ser um leigo discípulo? Ser um padre discípulo? Ser um bispo discípulo? Alguém que, aberto à Palavra, procura conhecer Jesus, para poder ser missionário à semelhança de Jesus, porque quanto mais nos aproximamos de Jesus, mais podemos fazer com que, através de nós, se aproxime o povo. O povo precisa de Jesus Cristo. O povo tem uma fé deísta. Acredita em Deus e diz “se Deus quiser”, “se Deus me ajudar”, “Deus me livre”… mas não conhece Jesus Cristo. A nossa preocupação aponta para esta questão: que o povo conheça Jesus Cristo.
Em segundo lugar, isto implica uma conversão pastoral.
O que significa “conversão pastoral”?
Esta manhã [14 de Outubro], o Sr. Bispo convidou-me a partilhar com o conselho episcopal da Diocese de Aveiro a caminhada da Igreja uruguaia. Expliquei a importância que tem para toda a igreja da América Latina assumir decididamente este processo de conversão pastoral. Tem de mudar algo na Igreja. Temos de abrir caminhos, romper com tradições, costumes e sistemas que nos impedem de ser verdadeiramente rosto visível deste pastor invisível que é Jesus Cristo. Pela primeira vez, o magistério eclesial fala da necessidade de conversão pastoral. Estamos conscientes da conversão pessoal, estamos conscientes da mudança das estruturas, porque sabemos que há o pecado social, mas não tínhamos consciência de que também na acção da Igreja há situações de pecado, de que temos de sair. Precisamos de conversão pastoral.
Pode dar exemplos de situações que precisem de conversão pastoral?
O estar parado. A acomodação ao ambiente. A falta de criatividade. A tibieza. O desalento. O desencanto de cristãos, de padres.
Ao Papa também apresentamos a nossas orientações pastorais, que falam da necessidade de fortalecer a comunhão da Igreja. A Igreja é filha da comunhão e é servidora da comunhão. E num mundo de tanta confrontação social e política, a Igreja tem de fortalecer a comunhão através de uma pedagogia de participação e de integração, favorecer as estruturas de participação. Finalmente, a missão. Foi o Papa que propôs em Aparecida uma “missão continental”.
Quais são os contornos da “missão continental”, que surgiu como uma grandes linhas da Conferência de Aparecida?
Não se trata de um evento, de tal data a tal data. Não se trata de conquistar gente para a Igreja. Não se trata de pensar, como alguns pensaram, que é para estender a o território geográfico da Igreja. Não. Missão é uma atitude. É uma conduta. Para isso temos de olhar para Jesus Cristo. Ele é o enviado, o missionário derradeiro, definitivo. Depois dele, mais ninguém. Nós, pelo Baptismo e pela Confirmação, participamos na missão de Jesus Cristo e tornámo-lo presente na medida em que nós, como Ele, vivemos atitudes de proximidade para com as pessoas. Jesus praticou uma pastoral inclusiva porque se aproximou dos excluídos, dos leprosos, da cananeia, da samaritana, do publicamo, dos mal vistos. Para quê? Para que pudessem experimentar o abraço de amor do Pai. E nós somos missionários quando vivemos atitudes de proximidade que tornam possível experimentar o abraço de amor do Pai. Não importa qual é a situação que essa pessoa vive. O amor do Pai é para todos. Se há pessoas que podem responder a esse amor e encaminhar a sua vida como resposta a esse amor do Pai, louvado seja o meu Senhor, como diz S. Francisco. Se as pessoas não podem, têm o mesmo direito de experimentar o amor de Deus. A missão é proximidade, é anúncio de Jesus Cristo, porque Ele é, como escreveu o Papa para a V Conferência, “o rosto humano de Deus, o rosto divino do homem”. Quer dizer que a Jesus está chamado o Homem. Ele é a medida do nosso crescimento em humanidade. O nosso horizonte é ser como Jesus.
Fale-nos um pouco da sua Diocese de Minas.
Fica a 122 km da capital (Montevideu), numa zona pobre, rodeada de serras. O nome “Minas” provém precisamente das minas de prata e de pedra caliça que os espanhóis exploravam. Tenho 70 mil diocesanos: 34 mil na cidade de Minas, sede da Diocese, com quatro paróquias, e os restantes em mais três cidades (seis paróquias). O meu clero é composto por dez padres diocesanos e quatro religiosos. Temos três seminaristas que são o nosso orgulho. Há uns anos não tínhamos nenhum!
Era padre da Diocese que agora serve?
Não. Eu pertencia ao clero de Salto, uma “diocese-referência”, na parte ocidental do país, perto da Argentina e do Brasil, onde fui pároco e vigário episcopal para a pastoral. Era uma terra com grandes culturas de cana-de-açúcar e com muitas tensões laborais.
É adepto da Teologia da Libertação?
Sim, não como ideologia, mas como exposição de uma salvação que é para todos os homens e para o homem todo. Às vezes pregamos uma salvação desencarnada (“salva a tua alma”). Ora, isso não é evangelização. A evangelização tem de ser “reinocêntrica”. E o que é o Reino? É um tipo de relações humanas, de sociedade, de estilo de vida, de estruturas em que podemos dizer “aqui há Reino de Deus”. Jesus foi servidor do Reino incluindo os excluídos, porque esse é o querer de Deus para os seus filhos. A Teologia da Libertação, bem interpretada, não é mais do que a teologia da salvação integral.
Como vive o seu ministério episcopal?
Quando fui chamado para Bispo de Minas, uma pequena diocese, não perguntei “porquê?”, mas “para quê?”. No “para quê” encontro motivação para estar mais perto dos pobres, para ser um bispo que contagia entusiasmo, sonho, alegria, para fazer uma Igreja de esperança. O bispo tem ser um homem possuído de uma profunda mística e espiritualidade. Tem de ir à frente, exercer liderança pastoral. Tem de ter uma “espiritualidade de Êxodo”: estar disposto a partir.
Quais sãos as grandes linhas do plano pastoral da sua Diocese, depois da Conferência de Aparecida?
Na nossa diocese elaboramos um projecto. Em Aparecida fui um dos bispos que conseguiu que se falasse de “projecto pastoral diocesano”, e não de plano, porque o plano pode converter-se em algo técnico e mais nada; é como o plano de uma casa. Já ter um projecto é como ter um sonho. Podemos ter um projecto de vida, um projecto de família. A Igreja tem um projecto que não é uma invenção sua; é o projecto de Deus, o sonho de Deus.
Em Minas temos quatro prioridades: Fazer uma pastoral de conjunto, que seja orgânica, que seja um caule comum que nos permite desde a pluralidade apontar para o mesmo objectivo, que supere a compartimentação pastoral; segundo, a dimensão missionária, a abertura; terceiro, a família; quarto, a pastoral social.
Ainda somos uma igreja demasiado para dentro, demasiado fechada. Temos aquilo que em Aparecida se chamou de “pastoral de conservação”. Lembrava esta manhã aos vigários uma frase famosa que dizia que se no evangelho o pastor perdia uma ovelha, deixava as 99 e ia à procura da perdida, hoje está apenas uma no redil e temos de procurar as 99. A Igreja tem de ser muito aberta, muito missionária.
