Foi numa manhã quente, como o são as do Inverno austral. Não se levava muita água pois não sabíamos ao que íamos.
Era uma aldeia distante, para lá do cemitério do Savimbi, onde ele tem a lápide mas não tem o corpo. Foi levado para Luanda, dizem, porque os do partido do governo, o outro lado da guerrilha, tinham medo que ele ressuscitasse de novo, pela sexta ou sétima vez, e voltasse a dar trabalho. Não é que ele fosse pior ou melhor que o outro… Eram iguais. Um deles ainda é. Só que as sortes dividiram-se pelo que continua vivo.
Depois do cemitério, anda-se mais um pedaço. Há uma cortada para uma picada de terra batida e à frente, mesmo antes do rio, há um enorme campo minado. De um lado as placas, do outro os campos extensos de milho, já seco. Ao fundo, um rio que acompanhamos sempre até a picada terminar.
A partir daí, cerca de sete quilómetros a pé, depois de passar um pequeno campo, anormalmente aplanado, que mais não era que uma pequena pista para as avionetas norueguesas dos diamantes aterrarem, carregarem de água e outras pedras que matam mais que as dos rins e que se passeiam por aí nos pescoços ou nos dedos com a inocência e o brilho de quem não sabe o mal que faz.
Depois dos sete quilómetros de calor, sem água, até em rio infestado de jacarés se vai beber, sempre com os pés prontos para arrancar, caso haja algum movimento suspeito na água. A sede é tanta que desafia o risco. É um pouco assim a fé dos Homens. Têm sede, arriscam-se.
Chega-se à aldeia, longe de tudo. Começa-se a reunião com os mais velhos, enquanto os pequenos vão para as brincadeiras e os doentes aguardam vez para o curativo.
A discussão é solene, pese embora alguns risos. Os rostos são pesados, enrugados pelo tempo, pela malária, pela guerra. São vozes também assim, enrugadas pela vida. Falam das necessidades: um professor para a escola. A escola ainda não existe, mas a UNICEF só a constrói depois de haver um professor e o que havia o governo transferiu-o. É preciso um médico ou um enfermeiro, um posto de saúde que não os faça ir ao feiticeiro. É preciso fé, religação.
Religião significa isso, religar, voltar a ligar o que antes estava ligado, depois desligou-se e é preciso ligar de novo. Deus e o Homem, é preciso religá-los.
Vai-se falando em Chokwé, em Português, traduzindo, falando. Dizem que a fé é dos brancos e quando eles se forem embora, a fé deles também se vai embora. Riem…
Estão a brincar comigo porque sou branco. Mas fazem-me pensar na velha história da fé à força, mal pintada na História. Então era verdade o que laicistas mais ressa-biados com as frustrações da sua vida dizem! Fomos para lá impor-nos?!
Pergunto-lhes do que é que mais tinham medo. “Da morte” – respondem à primeira. Digo-lhes que há brancos que não acreditam em Deus.
A cara que fiz antes incrédula estava agora nos rostos mais velhos da aldeia, que me observavam admirados. Há brancos que não acreditam, mas como pode ser isso?!
Digo-lhes que Cristo venceu esse maior medo, e se estamos com Ele, já não temos de ter esse medo. Claro que foi muito inteligente e não deixou maneira de alguém conseguir provar o que eu estava a dizer Dele, inequivocamente.
Portanto, ou se acreditava, ou não se acreditava. Era tudo uma questão de Amor e liberdade e opção. Todos éramos convidados, ninguém forçado.
De facto assim foi, naquele dia. Testemunhei a opção da liberdade libertadora de Cristo e da força dos que nele acreditam. Gente ali de uma aldeia longínqua, perto do nada, longe de tudo o que conhecemos, até do português oficial da república onde se estava.
Aconteceu Religião, aconteceu a celebração do Amor. Ali e em todos os sítios onde alguém ou alguma coisa se religou, aconteceu religião, mesmo que os sítios ou as ocasiões não fossem oficiais. Aconteceu que Deus estendeu a mão ao Homem. E o homem, ao celebrar a comunhão com os outros, seja uma comunidade inteira ou duas pessoas que se gostam e caminham juntas, estendeu-a a Deus.
Em qualquer destas situações, acontece Igreja, acontece religião.
Foi um dia grande, aquele 16 de Agosto, um dia em que o sol brilhou intenso na minha cabeça ao longo dos sete quilómetros de regresso, por caminhos de carga de diamantes.
Naquele dia foram outras coisas a brilhar… a certeza de comunidades e famílias que em Deus vêm um Amor que é eternidade religada, como sempre devia ter estado!
