De entre os diversos ecos que na imprensa surgiram sobre a morte de D. Manuel de Almeida Trindade vale a pena salientar o texto do jornal “O Gaiato” (30 de Agosto de 2008), da Obra da Rua.
O Padre Manuel Mendes, autor do artigo, dá a notícia da morte do Bispo Emérito de Aveiro, recorda a proximidade que D. Manuel manteve com o Padre Américo e a Obra da Rua e conclui: “Finalmente, 52 anos depois, professor e aluno, padrinho e afilhado reencontram-se às portas da justiça. O mestre e discípulo foram bons cultores da língua de Camões. D. Manuel Trindade subiu outro degrau na Ordem, do serviço; e ambos mereceram, certamente, a coroa de glória! Pode acontecer que ajude a dar um empurrão para que seja confirmada, pela Igreja, a veneração ao Servo dos garotos da rua e Recoveiro dos Pobres, 120 anos depois do seu nascimento”. (O Padre Américo nasceu no dia 23 de Outubro de 1887 e morreu no dia 16 de Julho de 1956).
Como se escreveu na edição especial do CV, D. Manuel teve como professor de português no primeiro ano do Seminário de Coimbra (1929-30) e como padrinho de crisma o P.e Américo, que nessa altura era educador no seminário. O artigo de “O Gaiato” recorda os factos e sublinha-os pela voz do próprio D. Manuel: “Nunca mais me esqueci da insistência que o Padre Américo fez (o grande educador que havia de ser o Padre Américo dos Gaiatos!) para eu trocar os calções e o casaco azul com que entrara no Seminário (em Janeiro de 1930) por uma batina”. E noutro ponto, sobre o crisma, no dia 8 de Junho de 1930: “Quem iria ser meu padrinho? Não fui eu que o escolhi, mas é com uma secreta ufania que o digo: o Padre Américo Monteiro de Aguiar”.
O artigo é ilustrado com uma imagem do ainda P.e Manuel de Almeida Trindade com o P.e Américo. Os dois padres estão cercados de rapazes da Obra da Rua.
A Admiração de D. Manuel pelo P.e Américo era pública a notória, tendo-lhe dedicado um ensaio em “Pessoas e Acontecimentos” (Edição da Diocese de Aveiro, 1987, páginas 33-63). Fiquemos apenas com este excerto (págs. 54-55.56): “O Padre Américo tinha o sopro de um profeta. «Foge dos homens apaixonados» – avisava ele os incautos. Ora ele era um destes apaixonados, à maneira de Francisco de Assis, de Vicente de Paulo, de Madre Teresa de Calcutá e de muitos outros. Ele pregou em todos os tons o carácter social da propriedade privada. Socorrer os pobres e os doentes, tornar possíveis colónias de férias para os garotos da rua, construir casas para gente sem recursos, abrir Casas do Gaiato para recuperação de crianças abandonadas, não era um favor; era (e continua a ser) um dever de justiça social. Ninguém está dispensado desse dever consoante as suas posses. (…) O Padre Américo podia fechar os olhos (e fechava-os) e até cerrar os punhos, mas de uma coisa não podiam acusá-lo: é que o seu discurso não fosse o de um apaixonado. A própria gaguez acentuava a veemência da convicção. O Padre Américo era um profeta a falar”.
J.P.F.
