«Dar de comer a quem tem fome»

Questões Sociais Segundo a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) aumentou em 75 milhões, entre 2006 e 2007, o número de pessoas que passam fome habitualmente. O seu número total, segundo a mesma fonte, eleva-se a mais de 900 milhões, havendo poucas expectativas de redução significativa na próxima década.

São bastante louváveis os esforços realizados pelas Nações Unidas para a erradicação da fome, apesar de limitações e deficiências várias. Tais esforços têm sido canalizados através da referida FAO, do Programa Alimentar Mundial (PAM) e de outras agências. Contudo, perturbações várias no mundo vêm impedindo a consecução dos objectivos desejáveis. Por exemplo: os preços dos produtos alimentares subiram cerca de 50% ao longo dos primeiros sete meses deste ano; durante 2007, tinham crescido 24% em relação ao ano anterior – cerca do dobro da evolução precedente.

São mais ou menos conhecidos os factores explicativos deste verdadeiro cataclismo permanente. Neles também se inclui o velho (e insensato) diferendo ideológico entre correntes ideológicas: umas são mais favoráveis a soluções assistenciais, e outras às estruturais. As correntes assistenciais tentam responder difectamente às situações de carência, pondo em prática a primeira obra de misericórdia «corporal» – «dar de comer a que tem fome» – com ou sem motivações religiosas. As correntes de natureza estrutural defendem intervenções fortes nos processos de desenvolvimento e no respeito dos direitos humanos. As respostas assistenciais não atingem o objectivo fundamental, porque não chegam ao fundo do problema. E as de natureza estrutural também falham porque se perdem nesse fundo, e não chegam, directamente, às pessoas necessitadas.

O mais elementar bom senso aconselha a que nos libertemos destas questiúnculas narcisistas, e assumamos que o problema da fome exige a mobilização de todas as capacidades; tanto as capacidades da acção assistencial como as da acção estrutural. As paróquias, em articulação com as juntas de freguesias, dispõem das condições necessárias para a atenuação do problema da fome tanto no seu território como em espaços mais alargados: em relação ao seu território, podem congregar esforços das entidades locais para a garantia de alimentação a quem precisa de ajuda, e a favor de um desenvolvimento local propício à erradicação das situações de carência alimentar; por outro lado, em relação aos povos mais assolados pela fome, o contributo das paróquias pode efectuar-se (como já vem acontecendo) através da acção missionária e de outras entidades credíveis. Para que tudo isto aconteça, recomenda-se um relacionamento estreito entre todas as entidades locais, marcado pela complementaridade cooperante.