Vocação para andar na Ria

Foi no Domingo passado. Concluiu-se mais uma semana de oração pelas vocações.

É um tema que me toca sempre. Desde pequeno é reflexão que faço, quase todos os dias. O que quero da vida? O que quer Deus que eu faça da vida? Vou caminhando conforme sinto que Deus sopra.

Se olhar mais para longe, não para a minha vocação ou a deste ou daquele, sinto outras preocupações.

Foi no Domingo passado, dizia eu. O sacerdote proclamava na sua comunicação semanal mais importante, a homilia, que Jesus Cristo não era de se trazer por casa, dentro de portas, nem sequer no templo, muito menos durante uma hora por semana.

Mas de facto, por vezes somos assim cristãos envergonhados, ou talvez nem seja isso, somos des-incomodados.

Ser cristão incomoda. Dá trabalho. Obriga-nos à coerência do quotidiano, à bondade, à protecção dos que mais necessitam, obriga-nos ao sentido de justiça, aquela justiça que não é a do nosso olhar, a da nossa perspectiva, mas a da comunidade, do movimento, paróquia, partido político, associação, local de trabalho, família.

Não é fácil não atirar pedras aos pecadores. Não é fácil reagir sem atirar pedras quando elas nos são arremessadas a nós.

Ser cristão incomoda. Dá trabalho. No dia em que também se celebrou a Liberdade (25 de Abril) perceber que a Liberdade não abunda na casa do mais pobre e cada vez são mais os que sofrem privações do nosso sistema económico.

Que cada vez mais se pode falar menos. Nunca tantas opiniões foram dadas, mas nunca tão pouco se ouviu. Nunca tanta liberdade houve, mas nunca como agora quase não se pode falar contra a corrente nos locais de trabalho, nos partidos políticos, nas escolas, nos grupos…

Temos de confiar na nossa vocação, àquilo a que somos chamados: ser no mundo significância, sem nos perdermos no caminho a que as pedras grandes obrigam o rio a contornar.

Temos de ser sinal, humano e com limitações, é certo, de coragem e rectidão, com a consciência de que estes sem honradez pouco valem.

Temos de ser voz e exemplo, de ser Igreja que acolhe o homem e a mulher por igual, que grita pelos excluídos e que não exclui ninguém, muito menos quem mais necessita do Pão, que denuncia a injustiça e pratica o equilíbrio.

É por este caminho que a Igreja será sempre farol. De outro modo, ficaremos a falar sozinhos e sempre à procura da vocação de sacristia, porque lá fora dir-se-á mal da Igreja e dos cristãos, seja isso com conhecimento de causa ou a mais pura e laicista ignorância.

Só que, a nossa vocação é mesmo andar na Rua, ser, a exemplo do Mestre, a voz doce que incomoda e desinstala, e no fim de contas… marca o ritmo.