Padre Miguel José da Cruz (1923-2008)

No passado dia 5, pelas 21 horas, faleceu o Padre Miguel José da Cruz, sacerdote do Presbitério Diocesano de Aveiro, que nasceu na freguesia da Murtosa em 17 de Julho de 1923 e foi ordenado presbítero em 3 de Julho de 1949, na Catedral de Aveiro, por D. João Evangelista de Lima Vidal. A sua formação preparatória para o sacerdócio decorreu no Colégio das Chagas de Vila Viçosa e nos Seminários de Évora e dos Olivais (Lisboa).

O Padre Miguel, no exercício do ministério pastoral foi sucessivamente vigário paroquial de Beduído e de Ílhavo (1949-1951) e pároco de Alquerubim (1951-1958) e de Águeda (1958-1970), além de ter sido assistente do Corpo Nacional de Escutas. Durante mais de quinze anos ainda foi professor da disciplina da Educação Moral e Religiosa Católicas na Escola Industrial e Comercial de Águeda e no Liceu de Aveiro; e também ensinou as línguas portuguesa e latina nesta mesma Escola.

Nos últimos anos e enquanto a saúde lho permitiu, vivendo na sua casa de Mataduços (Esgueira), não deixou de colaborar em trabalhos pastorais, sobretudo na Paróquia da Vera-Cruz.

Todavia, uma actividade que intensamente sempre o animou e inflamou, desde novo, foi o trabalho consagrado ao CNE (Corpo Nacional de Escutas – escutismo católico), de cuja Junta Regional de Aveiro foi assistente durante muito tempo. O Padre Miguel manifestava-se com verdadeira determinação o sentimento que lhe avassalava a alma por esta escola modelar para a educação das crianças, dos adolescentes e dos jovens. Mesmo impossibilitado na cama de doente, era consolador ouvi-lo falar sobre as actividades do Escutismo, quer fossem passadas quer fossem presentes, manifestando-se «sempre alerta para servir»; bastava cumprimentá-lo por «Chill», que logo se lhe refulgiam os olhos e começava espontaneamente a conversa ou o diálogo, mesmo com dificuldade e esforço.

As exéquias realizaram-se no dia 7, às 16 horas, na igreja matriz de Santa Maria da Murtosa, com a concelebração da Eucaristia sob a presidência do nosso Bispo, em que participaram o Bispo Emérito da Guarda, D. António dos Santos, e algumas dezenas de sacerdotes; entre a vasta assembleia foi notória a presença de elementos do Escutismo. Tanto na homilia de D. António Francisco como no depoimento de um representante da Junta Regional do CNE, o Padre Miguel foi justamente recordado pelo seu testemunho de entusiasmo alegre na acção pastoral nas comunidades e na dedicação abnegada à juventude. O cortejo fúnebre seguiu depois para o cemitério local, onde ficaram sepultados os seus restos mortais.

À família do Padre Miguel e ao Presbitério de Aveiro apresentamos as nossas sentidas condolências.

Mons. João Gonçalves Gaspar

Um sobreiro e uma sala chamados Chill*

Excerto do texto lido por Manuel Santos, Chefe Regional do CNE, no funeral do P.e Miguel José da Cruz:

“Partilho convosco os últimos encontros que tivemos com o Padre Miguel, nosso querido Chill. Mostrámos-lhe o projecto da nossa futura sede regional, cujas obras muito em breve terão início. Dissemos-lhe que uma sala desta sede teria o seu nome. Pediu-nos que não, que lhe dedicássemos uma árvore, um sobreiro. Chill, vais ter um sobreiro na tua sede, nas nós precisamos do teu nome na sala da formação de adultos da tua região. Precisamos de ter sempre presente o teu entusiasmo, a energia e a confiança que tu nos doaste. Queremos ser adultos forjados no teu exemplo e continuar a tua obra de alegria e de serviço.

No último encontro que tiveste com os formadores do CNE da tua Região (…), disseste-nos: “Continuem verdadeiros. Trabalhem porque a vossa seara é das mais belas que Ele nos confiou”. Aceito, aceitamos esta grande e generosa herança que nos confias. Pede ao nosso divino Chefe, por todos nós, agora que estás mais perto da Tenda d’Ele.”

* Nome do abutre do “Livro da Selva” (livro de Rudyard Kipling que está na base do imaginário dos escuteiros mais novos, os lobitos). O P.e Miguel adoptou-o porque o Chill voa alto e com elegância e é o primeiro a avisar dos perigos que surgem na selva.