Carlos Henrique do Carmo Silva é professor de Filosofia na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa. Quer em livros, quer em revistas da especialidade, tem cerca de duas centenas de trabalhos publicados. Esteve na Moita, Anadia, onde o Correio do Vouga o entrevistou, a falar a padres e leigos sobre João Maria Vianney, o prior da paróquia de Ars, figura tutelar do Ano Sacerdotal. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira
CORREIO DO VOUGA – Foi convidado para falar sobre o Cura d’Ars. É uma figura que o fascina?
CARLOS HENRIQUE DO CARMO SILVA – Deixei-me apaixonar, não há muito tempo, pela figura dele, pela sua simplicidade e pelo encontro que proporcionava. Fez-me lembrar outros santos sacerdotes com quem tive o dom de me encontrar ao longo da vida. O P.e Victor Espadilha [pároco da Moita e de Vila Nova de Monsarros] convidou-me porque já me conhecia de outros cursos de espiritualidade que tenho feito no norte do país, com os padres carmelitas, em Marco de Canavezes. Penso que gostou das minhas intervenções e achou que teria algum interesse que eu viesse falar da espiritualidade de João Maria Vianney, que foi escolhido como modelo de sacerdócio, neste Ano Sacerdotal, por Bento XVI.
Quer partilhar alguns nomes desses padres que foram para si um dom?
Preferia não falar dos meus casos pessoais. Mas encontrei ao longo da vida alguns sacerdotes de uma simplicidade imensa que deixavam transparecer a presença, a transparência, o olhar directo que como que nos coloca Deus no coração. Isso é que é importante num sacerdote e não a sua cultura teológica. Melhor, a cultura teológica é importante, mas sobre aquela base típica do Cura d’Ars. Na igreja, há lugar para muitos dons. Os franciscanos têm uns, os dominicanos outros, os jesuítas outros ainda. Durante muito tempo houve um preconceito: que a vida espiritual era mais desenvolvida pelos padres religiosos do que pelos diocesanos. Isso é errado. O clero diocesano é tão convidado à perfeição como todos os outros. E até está exposto a desafios mais difíceis.
Que características vê no Cura d’Ars que sejam importantes para os padres de hoje?
Eu realçaria principalmente três aspectos: o recolhimento, a vida de oração intensa e a simplicidade. É claro que os tempos em que hoje vivemos são mais complexos e exigem da parte do sacerdote uma preparação mais intensa, também do ponto de vista científico e cultural. Quando se diz que há uma exemplaridade no Cura d’Ars não significa que o exemplo deva ser imitado directamente. O que pode ser imitado é o espírito que anima esse exemplo e não as formas concretas. É preciso ver que o Cura d’Ars viveu na primeira metade do século XIX e tem uma espiritualidade muito ligada ao mundo rural, uma catequese muito básica, baseada nos sacramentos e em fórmulas simples de oração. O exemplo de dedicação, fidelidade, simplicidade de vida, de vida de oração e penitência, de integralidade do seu testemunho continua a ser muito válido. Isto é que é perene.
Ao realçar essas qualidades, há um certa crítica ao modo como o sacerdócio ministerial é desenvolvido actualmente. No fundo, qualquer padre gostaria de ser pároco de aldeia, de ter tempo para acompanhar mais pessoalmente a sua comunidade, em vez de andar a correr para garantir múltiplos serviços…
Com certeza que sim. Na realidade, há um activismo que não lhes deixa tempo para o que é mais importante. São poucos, têm várias paróquias a seu cargo, têm de correr muito. Eu, como leigo, sinto o que muitos leigos sentem. Às vezes recorremos a um sacerdote e ele está muito ocupado, não tem tempo para as confissões, para nos atender… Penso que há necessidade de haver uma outra preparação. Sobretudo, há que distinguir que o sacerdote não é um assistente social, não é apenas alguém que tem de cumprir uma função para o exterior, mas é alguém que tem uma vida interior, espiritual, para não dizer mística, a vida de oração, de acompanhamento das almas, de direcção espiritual, algo que hoje faz tanta falta e para a qual há poucos sacerdotes qualificados.
É preciso referir, no entanto, que o Cura d’Ars também tinha muita actividade, inclusive de carácter assistencial. De corpo franzino, diz-se que tinha um andar nervoso. Há livros seus que têm marcas do pequeno-almoço. Comia enquanto estava a fazer outras coisas. Mas alternava a imensa actividade exterior com longas horas no confessionário e na oração íntima.
Na sua palestra aos padres e leigos, referiu, no entanto, que falta aos padres actuais uma formação de carácter científico…
Noto isso no ensino que dou aos seminaristas, na Universidade Católica, em Lisboa – alguns dos meus alunos são seminaristas dos seminários diocesanos e dos institutos. Noto que têm uma formação literária, ligada às Humanidades. Faz falta uma preparação na Cosmologia, na Física, na Biologia – mundos que põem questões éticas sérias. Faz falta uma formação na Psicologia – para discernir casos que têm de acompanhar, que tanto podem ser casos espirituais como psiquiátricos. E, sobretudo, a cultura científica é importante para o diálogo com a cultura complexa de hoje, que não é, certamente, tão simples e tão rústica como era a do tempo do Cura d’Ars, no séc. XIX.
Sendo professor de candidatos ao sacerdócio, nota alguma mudança no perfil dos candidatos?
Noto uma maior exigência, e julgo que maior maturidade. Houve anos em que se notava uma certa ligeireza na formação. Penso que agora está-se a sentir mais exigência. É uma percepção minha e pode ser subjectiva, mas parece-me que há maior exigência da parte das casas religiosas e dos seminários em que os alunos estão. Mas isso não significa que não tenhamos de exigir muito mais, sobretudo porque houve um abaixamento de nível científico e cultural por vários motivos. Por um lado, houve um abaixamento geral na exigência do ensino secundário e superior, por outro lado, havendo menos vocações talvez se tenha caído na preocupação pelo número em vez de se cuidar da qualidade.
O Ano Sacerdotal foi proclamado por Bento XVI para pôr os padres e o sacerdócio ministerial no centro da reflexão eclesial, para que se recentre o sacerdócio no essencial. Isto tem alguma coisa a ver com os leigos?
Tem tudo a ver com os leigos. Os leigos são os destinatários da missão dos padres. Temos, enquanto leigos, uma palavra muito importante na exigência que pomos aos nossos sacerdotes. Por outro lado, em sentido alargado, nós também somos sacerdotes, somos um povo sacerdotal. É muito importante os sacerdotes sentirem-se acompanhados pelos leigos. Às vezes estão muito desacompanhados. Sentem-se sozinhos. Os leigos só lhes pedem coisas, sacramentos, isto e aquilo. Mas é preciso uma partilha de espiritualidade e de vida no sentido mais profundo.
Bons leigos fazem bons padres e vice-versa?
Creio que sim. Sem dúvida.
