Questões Sociais Como se referiu no artigo anterior, a saída da crise deverá basear-se num tripé de actuações: a política, a economia e a sociedade; no caso de falhar alguma destas bases, não se alcançarão soluções satisfatórias. De acordo com os elementos disponíveis até este momento, as atenções concentram-se na política e na economia, deixando atrofiado o papel da sociedade; esta aparece, na melhor das hipóteses, como destinatária passiva de novas medidas de protecção social, menosprezando-se as suas enormes potencialidades como actor fundamental na superação das contingências financeiras e económicas.
Claro que as medidas de protecção social são indispensáveis para todos os cidadãos, e devem ser ajustadas, neste momento, a favor dos mais necessitados. No entanto, impõe-se, igualmente, aproveitar todas as potencialidades existentes na sociedade, sob pena de as soluções serem incompletas e injustas. A título exemplificativo podem assinalar-se as potencialidades da luta pela subsistência, da vida familiar, das relações de amizade e vizinhança, dos grupos de acção social, das colectividades de cultura, recreio e desporto, das instituições particulares de solidariedade social…
A luta pela subsistência está a originar a criação permanente de actividades, com ou sem características empresariais. As famílias são espaços privilegiados de consciência de problemas, de procura de soluções e de comunhão radical. As relações de amizade e vizinhança e os grupos de acção social reforçam as capacidades das famílias e criam as suas próprias iniciativas. As colectividades de cultura, recreio e desporto institucionalizam capacidades de acção espontânea, contribuem para a consciência social colectiva e levam a efeito inúmeras actividades solidárias. As instituições de solidariedade dispõem de capacidades que vão muito para além das «valências» e de outras actividades correntes.
Tanto os governos como os partidos políticos e demais forças sociais têm menosprezado este manancial de potencialidades, e a actual crise, provavelmente, ainda não vai suscitar a sensibilização necessária; por outro lado, alguns arremedos de reconhecimento reproduzem o estereótipo do Estado-mecenas distribuidor de subsídios vários. Abstraindo, por ora, do muito que havia a dizer acerca da acção política recomendável, registo apenas que, do Estado e das autarquias, se espera, acima de tudo, que saibam estar com a sociedade, e nela, na procura de soluções para os diferentes problemas. A cooperação mais adequada consiste no trabalho comum de identificação de problemas e de procura das soluções possíveis, com os meios disponíveis. Tanto os apoios financeiros como outras providências deveriam basear-se na ponderação de todos os casos sociais sem solução, e concretizar-se através de linhas de orientação gerais, participadas e transparentes.
