Segunda parte da entrevista a D. António Francisco, (primeira parte na edição CV de 3 de Dezembro). O Bispo de Aveiro completou dois anos de presença na Diocese e 36 de ordenação presbiteral no dia 8 de Dezembro
CORREIO DO VOUGA – D. António Francisco visitou Mur-tosa e Estarreja no ano pastoral de 2007/08, está visitar Albergaria-a-Velha e parte a seguir para Sever do Vouga. Espera visitar os dez arciprestados antes do Ano Jubilar (2013). Que importância e sentido dá às visitas pastorais?
D. ANTÓNIO FRANCISCO – As visitas pastorais são uma das formas mais naturais da vida e da missão do bispo diocesano. Consistem neste viver próximo e fraterno com os sacerdotes e com as comunidades. Conhecer, amar e servir as comunidades, perceber os caminhos percorridos e adivinhar os horizontes de evangelização sonhados e desejados só é possível deste modo.
Rezar com os sacerdotes, com os diáconos, com as comunidades religiosas e com as comunidades, acolher e reunir os crentes, ir ao encontro da sociedade civil, das associações, escolas e empresas, visitar os doentes e os idosos, dialogar com todos sem rodeios nem receios e celebrar os mistérios santos da nossa fé constituem uma bênção para mim e oferecem-me uma salutar alegria de serviço à causa de Jesus e do Evangelho. Sinto-me tão bem nas visitas pastorais que só me pesa que, ao estar semanas completas nas paróquias, com isso sobrecarregue de trabalho os meus directos colaboradores nos serviços diocesanos.
As visitas servem também para provocar alguma renovação…
Procuro em cada visita pastoral deixar na mensagem conclusiva em destaque os elementos relevantes da vida cristã, social e cultural aí encontrados e avançar sempre alguns desafios e compromissos pastorais que façam de cada visita pastoral uma etapa de evangelização. Tenho a consciência de que os arciprestados que melhor conheço são aqueles em que estive em visita pastoral. Conheço as pessoas, os movimentos apostólicos, os templos sagrados onde celebrei, até o nome dos lugares são já uma referência de identificação para mim. Senti as alegrias e as dificuldades do povo. Ouvi e dialoguei com os sacerdotes, diáconos e religiosas e com os seus mais próximos colaboradores, habitei as casas paroquiais e estes aspectos são tão importantes que nos fazem sentir mais irmãos dos sacerdotes e mais próximos da sua missão.
A realidade que conhece até agora inspira mudanças pastorais?
Uma das mudanças concretas que as visitas inspiram é a preocupação de uma distribuição equilibrada do Clero. Outra é a da comunhão arciprestal que urge incrementar mais. Outra ainda é a do respeito pela diferença das pessoas, das comunidades e dos percursos pastorais. Isto é para mim uma riqueza e uma oportunidade e nunca um problema ou uma dificuldade.
Recentemente, o Sr. Bispo propôs que a Diocese reflectisse sobre o ISCRA (Instituto Superior de Ciências Religiosas de Aveiro). Significa que a escola da Diocese não está a cumprir os objectivos para que foi criada?
Nunca achei que o ISCRA não estava a cumprir os objectivos para que foi formado. Nunca pensei isso. A minha perspectiva é que se caminhe neste rumo: salvaguardar a dimensão de escola superior de Ciências Religiosas, associada ao instituto San Agustin e à Faculdade de Teologia de Comillas (Madrid), e, ao mesmo tempo, afirmá-lo como escola de formação cristã diocesana (e alargada a outras dioceses, se possível). Parece-me – e o Conselho Diocesano de Pastoral fez realçar isso ao revelar que pessoas que assumem responsabilidades na vida da pastoral diocesana, em sectores primordiais, nunca tiveram um contacto pessoal, um conhecimento directo, uma abertura franqueada do ISCRA – que a escola acabava por ser uma instituição de portas abertas para aqueles que o frequentavam, mas de portas só entreabertas para aqueles a quem se devia dirigir, isto é, toda a diocese.
Trata-se, portanto, de reorientar o ISCRA para a formação de agentes de pastorais?
Depois de 19 anos de vida, a escola não pode ser ignorada, desconhecida ou considerada distante. Percebi que havia alguma dificuldade de diálogo articulado entre os responsáveis do ISCRA e a própria vida diocesana. O circuito de bom entendimento tem de estar aberto. Para isso é necessário um conhecimento franco, sem receios e sem preconceitos. A partir daí, o ISCRA, que era necessário, útil e imprescindível, sê-lo-á cada vez mais, sem perder nada do que tem sido ao longo do tempo.
Por outro lado, como no próximo ano vamos ter entre os objectivos específicos a elaboração de um plano de formação cristã, o ISCRA estará implicado, pois terá uma quota-parte de responsabilidade na implementação desse plano.
O que espera dessa reflexão sobre a formação cristã?
Um dos aspectos inovadores do plano pastoral para o quinquénio é que todos os anos haverá a elaboração de um plano sectorial. Este ano estamos centrados na acção sócio-caritativa. No próximo ano, na formação cristã, actualizando e reelaborando o que já temos. Depois haverá um plano de pastoral litúrgica. No quarto ano, um plano de pastoral familiar.
Os cristãos estão pouco formados? Não procuram reflectir sobre o que crêem?
Temos descurado a formação cristã de adultos, que não passa só pela preparação para o baptismo. É preciso alargar e abranger todas as estruturas com formação. Na nossa Diocese temos ideias claras e interessantes sobre isso, como as escolas arciprestais. É fundamental que reflictamos sobre a iniciação cristã, ao longo de todas as idades.
Mas o plano de formação cristã passa por nos obrigar a reflectir sobre aspectos como estes: nas reuniões com os jovens que vão ser crismados pergunto quem lê e quem tem a Bíblia… São muito poucos aqueles que a lêem. Não me refiro a uma leitura diária, mas a uma leitura procurada como sustento da vida espiritual cristã. Por outro lado, a percentagem daqueles que prospe-ram em grupo, para lá do Crisma, é muito reduzida. A sondagem que fez o Patriarcado de Lisboa acerca dos cristãos praticantes que lêem a Bíblia [e que revelou números reduzidos] aplica-se certamente à nossa diocese.
A situação pode ser alterada?
Temos elementos e meios para elaborar um plano de formação cristã ao longo da vida, até porque estamos numa terra onde há uma grande presença da cultura e da formação. A Igreja sente, pela experiência, capacidade e recursos humanos que tem – o Sr. D. António Marcelino insistiu muito nisso – que pode fazer um trabalho muito válido e necessário neste campo. É por aí que passa a grande renovação da Igreja.
Por outro lado, não haverá renovação sem vocações. O Sr. Bispo tem visitado padres doentes, que de certo são motivo de preocupação, e tem afirmado a reabertura do Seminário como sinal de esperança. Vê a questão das vocações como preocupação ou como esperança?
Vejo a questão das vocações com esperança. A reabertura do Seminário de Aveiro e o termos 19 seminaristas são, de facto, sinais de esperança. Se todos perseverarem, a partir do próximo ano teremos ordenações todos os anos, o que não é muito frequente no percurso dos últimos 30 anos da Diocese.
Preocupa-o a falta de sacerdotes?
Dei conta, logo nas primeiras visitas que fiz, que há muitos sacerdotes idosos e doentes. Foram os primeiros que eu visitei. Nestes dois anos já faleceram nove e ainda não ordenei [padre] ninguém [para a Diocese].
Pensei que poderia trabalhar sem precisar de recorrer à ajuda de sacerdotes vindos de fora da diocese. No entanto, verifiquei, pela experiência destes dois anos, que, dado o peso do trabalho, que é excessivo para muitos sacerdotes, e dada a idade avançada de alguns outros, precisamos de recorrer à ajuda de fora, como, aliás, sempre se fez. Essa será uma partilha eclesial que nos enriquece, assim como temos a liberdade de disponibilizar sacerdotes para trabalhar noutras comunidades, como no caso concreto do Maranhão (Brasil).
Mesmo assim, gostaria da disponibilizar sempre alguns sacerdotes para continuarem os seus estudos, em Portugal ou no estrangeiro. Isso implica retirá-los durante algum tempo da missão que exerciam na Diocese. Temos neste momento três a estudar em Portugal, na área da Pastoral da Saúde, e dois em Roma. Essa libertação durante alguns anos para a missão de estudos obriga a que outros assumam mais responsabilidades na Diocese.
A temática das vocações, que apontou como prioridade, tem sido acolhida?
Sim. Sente-se por toda a Diocese uma grande expectativa, um acolhimento e uma confiança de que é possível fazer surgir mais vocações no espaço diocesano. Essa convicção, sobretudo encontrada nos sacerdotes, mas também nas comunidades, dá-me ânimo a prosseguir neste caminho e a continuar a afirmar as vocações como prioridade na vida diocesana.
O Sr. Bispo pediu também que se reflectisse sobre o arciprestado. Tem a ver com a falta de padres e a nova organização pastoral por isso necessária?
Em cada ano da programação pastoral há uma reflexão sobre um aspecto das estruturas diocesanas. Reflectir sobre o arciprestado é, por um lado, início da resposta ao pedido do Santo Padre para organizarmos de maneira diferente as nossas comunidades. A experiência das unidades pastorais seria uma hipótese, mas o arciprestado possui uma realidade social constitutiva da própria organização administrativa. Temos 10 arciprestados. Alguns deles com poucos padres. Esta organização permite simultaneamente a comunhão sacerdotal dos padres, a abertura da comunhão aos diáconos, que são 28, e às comunidades religiosas. Felizmente temos comunidades religiosas em todos os arciprestados. Permite ainda a inclusão dos leigos nos espaços de reflexão e da acção pastoral. Isto evita o perigo das paróquias se fecharem sobre si próprias, o perigo de alguma solidão e diversidade que não sejam enriquecedoras, e propõe uma vida e um trabalho de comunhão, ao nível das equipas de catequese, de juventude, de pastoral familiar, de acção sócio-caritativa. Neste espaço intermédio entre a paróquia e a diocese, rentabilizamos recursos e experienciamos esta beleza de uma Igreja que é casa e escola de comunhão.
Referiu o encontro com Bento XVI, em Novembro de 2007. A Igreja em Portugal mudou alguma coisa?
Mudou. Primeiro, na convicção de que é preciso mudar. É o primeiro passo. Mudou no sentido que nós próprios, na Conferência Episcopal queremos reorganizar a nossa metodologia de trabalho, com mais eficácia. Disponibilizámo-nos em colocar o relatório enviado ao Santo Padre, para ser estudado na Conferência Episcopal.
Os outros bispos também assim fizeram?
Não sei se todos fizeram. Eu fiz e acho que pode ser útil. Alguns acharam que não. Ficou ao critério de cada bispo.
Qualquer bispo pode consultar esse relatório?
Não. Foi decidido que se constitua um gabinete de estudos pastorais ao nível da assessoria da CEP. E que este gabinete, estudando os relatórios, nos ajude a preparar iniciativas conjuntas. Outra mudança poderia ser no sentido de assumirmos um plano de missão para o país. Não somos uma igreja nacional, somos 21 dioceses, mas hoje, com a facilidade da mobilidade humana, com frequência as mesmas pessoas estão em dioceses diferentes. Um exemplo: a Semana dos Seminários é vivida por duas dioceses em altura diferentes. Outro exemplo: nas nossas universidades há alunos de todo o país, vindos de dioceses com planos pastorais diocesanos muito díspares…
O plano nacional, ou pelo menos a sintonia nacional, poderá ser o grande passo na sequência do encontro com o Papa?
Penso que si. A mensagem não ficou em Roma, está a ser reflectida e aplicada nas dioceses.
No ano passado, propôs a construção da Casa Sacerdotal (para sacerdotes e pessoas que os acompanham na vida pastoral). Nos próximos tempos, vão nascer outras obras em Aveiro?
Espero que sim. Vou propor a retirada dos serviços pastorais do edifício do n.º 50 da Rua José Estêvão. Já pedi a um arquitecto que estudasse a transformação de parte do Seminário de Aveiro para a instalação dos serviços pastorais diocesanos. Esta será a segunda obra. Queria ter estas duas prontas nos 75 anos da Diocese. Outra que sonho e para a qual gostava de lançar a primeira pedra nos 75 anos é uma igreja nova na zona da Forca-Vouga [urbanização recente em área da freguesia e paróquia da Vera Cruz]. Já há um espaço previsto, mas ainda estão a decorrer as negociações.
D.António Francisco só teve 15 dias de férias
desde que é bispo
Sabemos que tem um grande afecto pela sua mãe. Já referiu publicamente que lhe leva as flores que por vezes recebe nas visitas pastorais ou noutros momentos. Como está a sua mãe?
A minha mãe está acamada há quatro anos. Teve um acidente vascular cerebral (AVC) há 18, em 1990, recuperou bastante bem, ainda com qualidade de vida e autonomia, durante 12 anos, depois, numa fase em que estava a fazer fisioterapia repetiu o AVC e está neste momento imobilizada e dependente, sendo alimentada por uma sonda.
Mas está consciente?
Sim, mas desde o primeiro acidente deixou de falar e ficou atingida da parte direita. O meu grande desejo era trazê-la comigo sempre. Sou filho único. Tenho tido manifestações de muito carinho por parte dos sacerdotes da nossa Diocese que têm lares nos centros sociais. Têm disponibilizado, com uma sensibilidade que me comove e confunde, para a ter aqui. Ela precisa de uma pessoa permanentemente com ela. Tem 81 anos e está na Casa Sacerdotal de Lamego.
Quando teve férias pela última vez?
Foi há cinco anos, antes de ser nomeado bispo. No primeiro ano de bispo tive 15 dias de férias, que passei com a minha mãe. No segundo ano, já sabia que ia ser Bispo de Aveiro e ocupei esse tempo a concentrar o trabalho que tinha assumido em Braga de acordo com o Sr. Arcebispo… Concluí o trabalho em Braga no dia 5 de Dezembro para entrar em Aveiro no dia 8.
Não se sente cansado sem férias?
Os pequeninos momentos em que vou visitar a minha mãe – e vou todas as semanas – são para mim tempo de descanso. Faço assim o meu descanso semanal, que às vezes não é aquele que eu previa, por causa de outros trabalhos como os da Conferência Episcopal. Em segundo lugar, como gosto tanto da paisagem da beira-mar, mesmo que não tenha tempo para ir à praia, o próprio ambiente, a paisagem, o contexto da vida da cidade, que é nova para mim, ajudam a descontrair.
Gosta de ler? O que tem lido nos últimos tempos?
Gosto de ler e procuro ler. Uma das faltas que sinto é a da vida académica, o tempo académico, o gosto de ensinar que me obrigava a ler e aprofundar os temas. Foram seis anos de ensino no campo da Sociologia e da Psicologia. Os últimos livros que li foram sobre São Paulo. Agora estou a ler um sobre Jesus. Nestes dois anos, o que mais li foi sobre Aveiro e a história da Aveiro. Sobre este tema, o último livro que li abordava a história das Carmelitas em Aveiro (da autoria de P.e José Martins Belinquete). Durante o Verão procurei ler os livros de D. Manuel de Almeida Trindade que tinha aqui na biblioteca.
Tem algum hobby?
Durante algum tempo coleccionei postais das terras por onde passava. E nos tempos de estudante coleccionava selos. Mas por pouco tempo. Agora, tenho uma colecção muito grande de imagens de Nossa Senhora…
Imagens que lhe dão?
Sim, algumas. Outras são compradas por mim.
Suponho que o Sr. Bispo não pratica nenhum desporto. Gostava de algum em particular?
Gostava de andar de bicicleta e de natação. Em Braga, na cave da Casa Sacerdotal, tínhamos uma grande piscina…
