Painéis de Moliceiros motivam tese de doutoramento

Clara Sarmento levou para a Universidade a cultura popular da Ria de Aveiro

Depois do livro/álbum fotográfico “Os Moliceiros da Ria de Aveiro – Quadros flutuantes”, publicado pela Câmara Municipal de Aveiro, em 1999, Clara Sarmento escreveu agora o livro “Práticas, discursos e representações da Cultura Popular Portuguesa – O Barco Moliceiro”, obra que resulta da tese de doutoramento em Cultura Portuguesa que a autora efectuou na Faculdade de Letras da Universidade do Porto e que lhe valeu a atribuição do Prémio CES – Centro de Estudos Sociais.

Em entrevista ao “Correio do Vouga”, Clara Sarmento justifica esse seu interesse pelos barcos moliceiros, em especial pelos painéis decorativos e respectivas legendas. “Havia toda essa investigação prévia que me levou a apaixonar pelo tema, o qual não tinha tido, por parte dos investigadores, o estudo criterioso, cuidadoso e cientificamente documentado que merecia”, refere. “Tínhamos aqui um manancial extraordinário relativo à região da Ria de Aveiro que ainda não tinha merecido uma atenção credível e nem tinha documentada por parte de um historiador, de um antropólogo ou de um sociólogo. Tomei eu essa iniciativa ao escolher fazer a minha tese de doutoramento em Cultura Portuguesa, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto”, afirma Clara Sarmento.

Para esse doutoramento, Clara Sarmento desenvolveu a sua tese a partir da cultura popular e tradicional representada pelos painéis dos barcos moliceiros, porque “a Cultura – afirma – é um conceito extremamente vasto que engloba não só a mais erudita, mas também a mais popular”. “Preferi dar um enfoque especial, e mais atento, à cultura popular, não só do passado recente, mas também contemporânea como ela prevalece ainda hoje em dia. Apesar da influência dos ‘media’, da televisão, da modernidade, do sector terciário e do turismo, continua a ser criada essa cultura popular, como podemos ver no moliceiro”, esclarece.

Clara Sarmento reconhece que praticamente fotografou e registou todos os barcos moliceiros existentes na Ria de Aveiro, ainda que sendo do Porto. “Tive que me deslocar periodicamente aqui, ao longo dos últimos anos. Dentro das minhas disponibilidades, documentei tudo o que havia para documentar. Espero bem que não haja algum barco moliceiro que me tenha escapado”, afirma.

Pintar painéis

Arte amadora e popular que chega

a ser imitada por especialistas

A investigadora sublinha que a pintura de painéis é uma arte “essencialmente amadora”. “Existe uma série de pintores populares, espalhados ao longo da Ria, que por vezes são chamados pelos proprietários dos barcos para restaurarem uma pintura ou para fazerem uma pintura original”, afirma. Clara Sarmento nota que “nos últimos três anos tem havido uma grande queda na produção de pinturas e de restauros, dado a crise económica, porque essa é uma actividade paga”. No entanto, nota que “existem três ou quatro pintores documentados, fora aqueles que tendo uma formação superior, que até são professores em escolas da região, em alturas de maior trabalho, são chamados para restaurar ou pintar painéis”. Apesar de terem formação académica em Belas Artes e de exporem regularmente, “chegam ao estaleiro e pintam de modo a imitar o traço popular, escondendo o traço erudito, forçando um traço tosco, usando cores garridas e sem perspectiva”, observa. “É muito curioso esse trabalho de perda de sofisticação em prol do traço popular”, remata Clara Sarmanto.