A Justiça e a Fé

O Ano Judicial abre com uma solenidade justificada. Para além das declarações sempre preciosas e profundas das entidades intervenientes, é hábito incluir uma celebração da Eucaristia. O que poderá ser estranho num mundo laico como o nosso. Certo é que, na liberdade que lhe cabe, como poder próprio e independente de um país, os seus responsáveis continuam a desejar esta integração.

Em verdade, a letra dos decretos, a dimensão das leis, não garantem, por si mesmas, a limpidez da justiça. Se bem que a saibamos ministrada por pessoas humanas, susceptível, portanto, de visões parcelares, de equívocos, porventura até de pressões, os cidadãos sempre aspiram a que esse poder se não deixe contaminar e constitua o reduto seguro da liberdade.

Uma visão cristã da pessoa humana não virá nunca ofuscar as capacidades da mesma pessoa, hipotecar as possibilidades da razão, diluir a força da vontade, nem sequer desequilibrar os afectos. Pelo contrário: a sua luz permite entrar nos recantos mais profundos da humanidade, para a purificar e potenciar. Entende-se, por isso, que gente de responsabilidade na Justiça não dispense esta iluminação.

Bem certo que ficarão os tribunais sempre aquém da justiça divina, que é misericórdia inclusiva e regenerativa. Mas o horizonte da eternidade é sempre estímulo para se ir mais longe, buscando uma constante superação das tentações de maculação com os limites do espaço e do tempo.

“Deus criou o homem à sua imagem e semelhança, honrou-o com o conhecimento de si mesmo, dotou-o de razão que o torna superior a todos os outros seres vivos, deu-lhe a possibilidade de gozar a magnífica beleza do paraíso terrestre e, finalmente, constituiu-o rei de toda a criação” – dizia a regra monástica de S. Basílio Magno (séc. IV). Evocar e acolher esta visão não ensombrará, antes purificará a visão da nossa justiça.