Nova crise – opressão renovada

Questões Sociais A crise actual trouxe consigo o peso de velhos mecanismos de opressão e, como era de prever, está a contribuir para que eles se renovem e, porventura, se tornem mais consistentes. Na linha de reflexões anteriores (e correndo,voluntariamente, o risco de repetição), assinalo dois conjuntos de mecanismos de opressão: os financeiros e económicos; e os políticos e mediáticos.

Os mecanismos de natureza financeira e económica apresentaram-se com uma força opressiva avassaladora, determinista na aparência; ainda não se sabe até onde irá chegar. De início, foi a perturbação dos sistemas de crédito; seguiu-se a perturbação de todo o sistema financeiro; quase em simultâneo, apareceram as dificuldades de muitas empresas e a espiral de despedimentos e pobreza…

Nas tentativas político-mediáticas de resposta à crise, regista-se uma enorme pressão sobre a despesa pública, para o aumento das prestações sociais; com o mesmo objectivo, surgem novos apoios a (alguns)sectores e empresas; na mesma ordem de ideias, programam-se grandes investimentos. Em tudo isto se atribui prioridade, por via de regra, às situações mais mediatizadas, às empresas de maior dimensão e aos problemas sinalizados pelas estatísticas oficiais… Renovam-se assim os mecanismos de opressão contra as pessoas, famílias e empresas mais débeis, até porque no futuro: o crescimento económico «tem de» preceder a criação de emprego; o enriquecimento das pessoas menos pobres «tem de» preceder o «desempobrecimento» das mais pobres; e, para o aumento da competitividade (segundo algum pensamento dominante) «tem de» ser menor o número de trabalhadores, «tem de» baixar a taxa social única e «têm de» diminuir os níveis de protecção social…

A opressão financeiro-económica e a político-mediática votam ao abandono os problemas sociais menos mediatizados, os não mediatizáveis, os não registadas em «estatísticas oficiais», os não conhecidas pelos poderes dominantes… As instituições particulares de solidariedade social esgotam-se nas tentativas de apoio, mas não podem sacrificar os seus utentes nem a viabilidade financeira; resta assim um lastro imenso e desconhecido de pessoas, famílias e empresas votadas ao abandono. Nelas e nas suas entreajudas de família, vizinhança e amizade é que se vive a crise na sua expressão mais cruel.

Que fazer perante este quadro? – No próximo artigo, abordaremos o assunto… uma vez mais.