Eluana Englano

Não sei se a esta hora a Eluana, rapariga italiana em coma há vários anos, fruto de um acidente, já terá as máquinas desligadas, satisfazendo assim a vontade do pai e cumprindo uma decisão do Tribunal. Este caso que tem apaixonado a Itália e motivado as mais diversas manifestações e comentários não se resolve por um simples estar de acordo ou não, até pelo sofrimento que envolve esta família e pela delicadeza da situação. Este caso, como tantos outros, coloca-nos perante a verdade do ser de cada um de nós e um conjunto de perguntas que trazemos connosco desde o princípio sem nunca termos encontrado a resposta: afinal, quem somos nós? Qual o sentido da nossa vida? Qual o sentido do sofrimento? O quê depois de nós? E como estas, muitas outras para as quais o silêncio de um lado e o amor do outro encontram mais respostas que muitos livros de entendidos e pseudo-sábios ou sentenças de tribunais ou interesses egoístas de uma sociedade já gasta.

Foi esse silêncio de velhos como Job – que lindo livro para ler nestes momentos! – que o levou a percorrer o caminho das respostas dos intelectuais que construíram para a causa do sofrimento a imagem de um deus previsível, que paga conforme a mercadoria que recebe e, por isso castiga segundo o mal feito. Mas este velho tem consciência da vida que levou e, por isso, faz a experiência de um Deus Outro, omnipotente e imprevisível, desconcertante e incompreensível segundo as lógicas e as teorias dos ditos sábios. Um Deus amor que ama como um Pai, mesmo quando o sofrimento nos bate à porta… abandona o Templo onde sempre o quiseram manter guardado, deixa a Sinagoga de Cafarnaúm e entra em casa da sogra de Simão que estava doente e em tantas outras casas… também na tal Clínica onde se encontra a Eluana e toma-a pela mão, acarinha-a e leva-a conSigo… quando os homens, apenas, lhe quiseram desligar as máquinas.

E é neste momento, quando todos pensávamos ter resolvido a situação, ter encontrado a resposta adequada, que o mistério mais se adensa e as perguntas continuam sem resposta. E, como Job, só nos resta uma coisa: entregar-se nas Suas mãos e confiar-Lhe a Eluana, porque Ele é Amor.

Nota da redacção: Eluana Englano morreu no dia 9 de Fevereiro, três dias depois de a clínica ter desligado as máquinas.