Toda a gente fala da crise que assola o mundo e entrou em cheio no nosso país e nas nossas vidas. Uns falam dela cada vez mais, porque a sentem no seu dia-a-dia, de modo a provocar sangue, lágrimas, preocupações sem conta; outros reduzem tudo ao campo económico, como se o dinheiro e o poder fossem os únicos valores na vida; outros, ainda, fazem desta crise no contexto da globalização, objecto de grandes análises, normalmente pouco consequentes e nada sentidas por quem a sofre mais. Desvendam-se causas, aventam-se explicações, dão-se desculpas, procuram-se bodes expiatórios, propalam-se boatos, fala-se de consequências, mais graves que as já sentidas.
Não falta quem faça da crise motivo para criticar políticos e políticas, para falar de tragédia, para alegar falta de esperança em tudo e em todos.
Como desceu à praça pública, a crise a ninguém deixou indiferente. Entrou nos lares, fechou pequenas e médias empresas, provocou falências estrondosas, dividiu pessoas, pôs a descoberto os condenados e os privilegiados de sempre, mostrou ao povo trabalhador, lugares onde se produzem lucros para os já ricos e, por via disso, como se agravam os impostos para os pobres, que nunca aprenderam a fugir ao fisco.
Embora a grave crise económica seja, no momento, a mais sentida, porque se traduz em doloroso desemprego, fome e noite sem luz, ela não é senão efeito gravoso e inevitável de outras crises mais profundas, provocadas ou esquecidas. No mínimo, mal analisadas por quem vê e navega apenas à superfície e para quem os mais frágeis contam pouco.
Se cada vez mais se faz tábua rasa da dignidade de cada pessoa e da igualdade radical de todas, independentemente da sua raça, língua, cor ou religião; se o bem comum deixou de ser norma orientadora das leis e das decisões políticas; se teimamos em falar mais de direitos que de deveres; se os valores morais e éticos sofrem alterações à revelia da objectividade; se tudo passa a ser classificado segundo interesses e ideologias inconsistentes; se o agradar passou a ter mais importância que o servir e o trabalhar, então ninguém pode estranhar que o vazio social, que se foi implementando, atinja os deveres de justiça, as relações laborais, as regras da convivência, o apreço exagerado pela riqueza, a cultura da solidariedade e da responsabilidade, a discriminação pessoal.
Bento XVI, falando recentemente aos sindicatos da Itália, os quais reconhece como elementos indispensáveis da vida social nas modernas sociedades industrializadas, apelou à urgência de uma nova síntese entre o bem comum e o mercado competitivo, entre o capital e o trabalho. Fala do mundo do trabalho como chave essencial de toda a questão social, condiciona o desenvolvimento não só ao aspecto económico mas, também, ao cultural e moral das pessoas, das famílias, das comunidades e da humanidade inteira.
Como a crise actual, nos seus efeitos mais gravosos, atinge fundamentalmente o mundo do trabalho, é urgente, diz o Papa, superar interesses particulares ou de sector, para que todos, juntos e unidos, possam enfrentar as dificuldades. Está aqui explícito o apelo à justiça social, à solidariedade como cultura permanente, à responsabilidade de cada cidadão, a que ninguém honesto se pode furtar.
A Doutrina Social da Igreja sempre considerou o trabalho como centro da questão social, e a pessoa humana como o maior valor. O trabalho humano assumiu, como está à vista, uma dimensão que vai além dos interesses imediatos da empresa e do país. O trabalho é uma realidade eminentemente humana. Se o homem e a mulher forem desvalorizados, se a família, estável e sólida, não for reconhecida e protegida, se a macroeconomia decidir que ser pobre é uma fatalidade incontornável, se a regra aceite for “cada um que se governe”, nenhuma crise social será resolvida, todos veremos que a nossa sociedade perdeu a alma e então, sim, que a catástrofe está aí.
