D. Manuel José Macário do Nascimento Clemente, natural de Torres Vedras (1948), foi ordenado padre em 1977 e bispo em 2000. É Bispo do Porto desde Fevereiro de 2007.
Doutorado em Teologia Histórica, lecciona História da Igreja da Universidade Católica. Colabora regularmente nos programas televisivos da Ecclesia e é presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais. Em 2009 foi-lhe atribuído o Prémio Pessoa, que recebeu no dia 27 de Abril de 2010.
D. Manuel Clemente, presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais, fala sobre as suas expectativas para o encontro de Bento XVI com o mundo cultural português, hoje, 12 de Maio, no Centro Cultural de Belém, em Lisboa a partir das 10h. O Bispo do Porto considera que o Papa é uma “grande referência cultural” nos nossos dias. Entrevista conduzida por Paulo Rocha, da Agência Ecclesia
CORREIO DO VOUGA – Que expectativas tem D. Manuel Clemente para o encontro do Papa com o mundo da cultura em Portugal?
D. MANUEL CLEMENTE – A cultura faz-se no dia-a-dia, em variadíssimas actividades e na criatividade dos homens e mulheres da cultura, da literatura, das artes plásticas, da música. Depois, também é bom que haja uma oportunidade de encontro, que as pessoas se vejam umas às outras. Vem quem quer, ninguém é obrigado a ir, mas rapidamente se encheu a sala, porque não é todos os dias que homens e mulheres da cultura têm oportunidade de se encontrarem com uma grande referência, porque o Papa é uma grande referência cultural.
Cultura, Igreja, Evangelhos estiveram frente a frente ao longo dos séculos. Há algum percurso de reaproximação nos tempos actuais?
É importante perceber de que tipo de aproximação se está a falar: Jesus Cristo fala da semente lançada à terra, do fermento na massa. Quem é cristão, quem se refere a Jesus não apenas como um episódio, mas como algo substancial, projecta isso na sua maneira de ver o mundo, sentir as coisas.
Se tem uma sensibilidade artística, o exercício de uma arte, isso também se projecta aí e é assim que o Evangelho se transforma em cultura, através dos criadores culturais que também se deixem recriar pela pessoa de Jesus Cristo.
A relação entre Igreja e Cultura, portanto, não se faz de maneira formal, por decreto, mas porque há homens e mulheres profundamente motivados pelo Evangelho de Cristo que depois reflectem essa motivação naquilo que criam.
Mas essa inspiração evangélica na arte pareceu não existir nos últimos anos…
Eu aí sou mais cuidadoso, porque às vezes a inspiração evangélica é clara, patente, e às vezes é mais subliminar. O que aconteceu na viragem do século XIX para o século XX, em boa parte desse século e ainda no nosso, é que essa inspiração religiosa se introverteu mais, não é tão explícita.
Não quer dizer que a arte, a cultura, a literatura actuais não tenham uma referência religiosa, ela pode é não ser tão patente, porque a própria religiosidade interiorizou mais. Vamos ver o que é que isto dá no futuro.
Da parte da Igreja é visível um esforço para que essa inspiração se torne mais explícita. De que forma é que isso tem sido feito?
Encontros, contactos, produção, não pode ser de outra maneira. Houve épocas em que essa produção era mais evidente, concretamente aqui em Portugal, porque grande parte das instituições produtoras de cultura, senão quase todas, estavam ligadas à Igreja: os mosteiros, as catedrais…
Não é assim nas sociedades contemporâneas, que é mais secular. Os cristãos, quer pessoalmente, quer através de algumas instituições que estão aí, participam dessa cidadania e levam a motivação evangélica ao mundo da arte e da cultura. É um outro tipo de realidade, é outro tipo de relação.
Não digo que é mais nem que é menos, não se pode comparar o que acontecia no séc. XVII ou XVIII com o que acontece no século XXI.
É preciso reequacionar a presença da Igreja?
Dos cristãos, digo eu. Às vezes até de pessoas que não sendo confessionais, são tão sensíveis aos valores evangélicos que são capazes de os plastificar e de os concretizar.
Encontro com crentes
de várias religiões e não-crentes
O encontro do Papa com o mundo da cultura, em que usarão da palavra Bento XVI e o realizador Manoel de Oliveira, este representando os portugueses, reúne pessoas de diversas áreas do saber e religiões. Segundo D. Carlos Azevedo, as grandes religiões vão estar no encontro, estando confirmadas as presenças do representante da comunidade islâmica e também da religião judaica. “A capacidade de abertura e diálogo é importante para nós. A organização não enviou o convite para algumas personalidades sabendo se são ou não crentes, mas mediante o seu gosto em estar ou não com um notável homem da cultura que tem uma proposta de verdade e beleza a fazer”, afirmou o coordenador geral da visita papal ao nosso país. No final do encontro será entregue ao Papa a peça de joalharia desenhada pelo arquitecto Siza Vieira e está previsto que a Ministra da Cultura cumprimente o Papa, podendo dirigir-lhe algumas palavras.
J.P.F
