“Coração limpinho…”

Colaboração dos Leitores A nossa amiga tem 70 anos! Como “coroa” que se preza, não se lembra do que comeu ao almoço, mas lembra-se do seu tempo de colégio, bem pequenita, seis ou sete anitos!

As freiras ensinavam às suas meninas internas que podiam confiar: “Jesus sempre atende, quando se Lhe pede com coração limpinho – sem dizer mentiras, sendo boa menina…”

Certa vez, no refeitório, a nossa menina, viu a companheira a comer uns flocos que ela nunca tinha visto… e era bom, porque, generosa, a colega lhe deu um a provar!

Não perde tempo a boa da nossa amiga. Vai à capela do colégio e dirige-se ao sacrário. E com toda a sinceridade diz a Jesus: “Ó Jesus, eu tenho o coração limpinho, não disse mentiras…, mas eu gostava daqueles flocos…”

E com Deus resulta sempre. Coração limpinho. Quando saiu da capela, a Irmã porteira foi buscá-la pela mão, para a levar ao locutório, pois tinha uma visita – a mãe – e qual a sua gratidão, quando reparou no presente que lhe levara: duas caixas grandes daqueles flocos, que acabara de pedir…

Naqueles tempos, quem tinha dinheiro no bolso para comprar chocolates? A nossa amiga também não! Mas outra criança, possivelmente oferecidos, bem se deliciava com chocolates e, tal como a Joana, eram poucos para ela, quanto mais para dividir…

E lá vai a nossa amiga direita ao Sacrário: “Ó Jesus, eu tenho o coração limpinho, não disse mentiras, mas eu gostava daquilo!”

E como Deus se encanta com a inocência e a pureza, também desta vez, não resistiu ao pedido! A prima que regressava da lua-de-mel foi visitá-la e levou-lhe duas tabletes de chocolate!

E a vida foi passando, os conselhos sábios das freiras foram-se esquecendo – o coração já não era tão limpinho assim… E só agora, com vagar quanto baste – os filhos voaram de casa –, com os seus cabelos grisalhos, a nossa amiga voltou a lembrar-se quanto tinha que agradecer a Deus, pois nunca a perdera de vista e ela, em tantas e tantas ocasiões dolorosas, bem sentira como a levara ao colo!

Pudessem todos os nossos meninos de agora – os abusados, os não desejados, os que choram – saber do tal amigo Jesus que sempre atende, quando o coração está limpinho e não os perde de vista, apesar dos vales tenebrosos por onde são obrigados a passar!

Jesus leva-los-á ao colo, senão for nesta vida, na outra não escapa! Eles não têm culpa!

Que portentoso capital o das nossas catequeses – meninos de coração limpinho -, que aprendendo dos pequenos pastorinhos, prostrados como viram fazer ao Anjo de Portugal (de joelhos, diante de Deus; de pé, diante dos homens), o que eles podem conseguir, quando adoram, consolam e fazem companhia ao Jesus escondido.

Um arco-íris, de aliança, esplendoroso, sobre todo o mundo!

Os sacerdotes, os pais e os catequistas, já se deram conta disto?

A Jacintinha morreu a 20 de Fevereiro, de 1920, o Francisco a 4 de Abril de 1919 e, radiosos, contemplam Deus, tal como a sua prima Lúcia, que ainda há bem pouco nos deixou (2005)!

Maria Teresa B. Pereira, Grupo de Nossa Senhora – Aveiro